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Gastrô | Tendência »

Guloseimas alternativas

Marcas sem loja física fazem sucesso em eventos ao ar livre comercializando produtos com versões e apresentações diferenciadas

Jéssica Germano - Redação Publicação:24/10/2014 12:00Atualização:24/10/2014 14:03

 (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Elas dificilmente serão encontradas em um endereço fixo. Para além dos ateliês e cozinhas de produção, a maneira de achar os produtos oferecidos por essas marcas de guloseimas é ligando para fazer encomendas – que normalmente precisam acontecer em grandes quantidades – ou farejando seus quitutes em eventos abertos, que têm, cada vez mais, caído no gosto dos brasilienses. A última opção, aliás, é uma das mais fáceis. De brigadeiros etílicos a pães de mel com flor de sal, passando por receitas populares da confeitaria americana, como o cakepop (bolo no palito) e o cheesecake: esses pequenos negócios, nascidos no quadradinho, vêm ganhando espaço na capital.


Para a barista Thamy Bruno, fazer brownies para vender foi uma medida emergencial. Uma fonte de renda após abandonar o emprego, ao fim da licença-maternidade do primeiro filho, no início de 2013. Desempregada, a atual sócia-proprietária da Biscoitíssimo explorou no dom para a cozinha, e no faro apurado por novidades, o início para uma nova carreira. “Não tínhamos expectativa nenhuma”, lembra.  Tanto que um dos primeiros pontos de comercialização do bolinho norte-americano era a porta do colégio do filho, em Águas Claras. Após o convite para participar de uma pequena feira, veio o estalo para o potencial que esse tipo de evento viria a ganhar: “Hoje, é o que mais nos sustenta”, afirma, depois de ter aumentado seu leque de produtos para três sabores na versão do brownie em pedaço (chocolate meio amargo, chocolate branco com castanha-do -pará e chocolate meio amargo com pedaços de doce de leite caseiro) e quatro para a receita de colher – seu carro-chefe –, como a que mescla o pedaço do doce com camadas de brigadeiro de amarula, creme branco e nozes.


Com presença em encontros pequenos e até em grandes festivais, a Biscoitíssimo acabou alterando o rumo da história que Thamy havia imaginado. “É um trunfo para quem ainda não tem loja física. É um veículo fantástico de divulgação”, constata.


'É o contato 
das feiras que 
impulsiona as minhas vendas', conta Luciana Fernandino, criadora 
de tudo no La Carmela (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
"É o contato das feiras que impulsiona as minhas vendas", conta Luciana Fernandino, criadora de tudo no La Carmela
“É que todo mundo de Brasília está participando, a visibilidade é enorme, os preços são muito bons e tem um monte de coisas que você não encontra em outros lugares”, resume a confeiteira Eidra Kátia. Responsável pela Dociká Gourmet, que chama a atenção nas feiras pelos cupcakes de cerveja, finalizados com um bacon caramelizado no topo, a microempresária apostou nos doces tradicionais, como o queridinho brigadeiro de crème brulée, mas foi seu investimento na linha etílica (e recentemente em uma fit) que a destacou em meio ao boom de produtos de confeitaria que colorem as prateleiras e quiosques.


Ex-coordenadora de eventos da Associação Brasileira de Sommeliers, Eidra usou o conhecimento em bebidas alcoólicas para chegar às suas principais receitas. Brigadeiros de uísque com chocolate 80% cacau, cupcakes de espumante com morango e  macarons de tequila com raspas de limão são apenas algumas das criações que lembram um balcão de drinques ornamentados. Apresentar novos produtos e experimentar receitas, vendo de perto a aceitação do público, é um dos pontos altos que esse tipo de negócio alcança, acredita a microempresária. Por isso até que ela prefere participar de feiras com foco no viés gastronômico. “As pessoas estão mais dispostas a ir e provar coisas diferentes”, indica, lembrando eventos como o Deguste!, em que grandes chefs de Brasília apresentam seus trabalhos ao lado de profissionais que estão começando.


Os diferenciais 
de Eidra Kátia, 
da Dociká Gourmet: seu 'cardápio' inclui 
cupcakes de cerveja, finalizados 
com um bacon caramelizado 
no topo (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Os diferenciais de Eidra Kátia, da Dociká Gourmet: seu "cardápio" inclui cupcakes de cerveja, finalizados com um bacon caramelizado no topo
A veia democrática é o pilar da maioria dos eventos, que os comerciantes que estão começando participam. À frente da organização de dois dos maiores da cidade, o bimestral Picnik e semestral Quitutes, Carol Monteiro conta que a ideia do coletivo que produz esses encontros foi, desde o início, apresentar à cidade a produção da própria cidade. “Dar visibilidade a novos ou antigos artistas, comerciantes, músicos, DJs, designers, estilistas, chefs, cozinheiros, que por algum motivo estava sem a exposição merecida, é um de nossos grandes objetivos de trabalho”, explica a publicitária e produtora. Ao lado de Miguel Galvão e Julia Hormann, também produtores, ela se preocupa em dar acesso aos empresários menores. “Muita gente não tem condições de pagar aluguéis altos em shoppings, de ter uma loja fixa”, pontua. “Ou então, nem é essa a intenção. Muitos preferem trabalhar de maneira mais tranquila, em pequena escala, sem grandes holofotes”, diz.


O preconceito com pão de mel, “um doce de balcão de padaria”, não poderia ter se provado mais contrário na vida de Luciana Fernandino. Foi a pedido de um dos seus professores do cursinho que veio o desafio de fazer uma versão diferente do quitute. “Eu não posso fazer uma coisa tão óbvia”, lembra-se do pensamento que teve no fim de 2012, quando fazia brigadeiros para vender nas horas vagas. E foi então que surgiram os sabores pouco convencionais. Dos mais caseiros, como o abóbora e abacaxi com coco, aos bem combinados chocolate com pimenta, café e doce de leite com flor de sal, e até o integral. Mas foi só um ano depois que veio o convite para participar, com os produtos gourmet, do lançamento de uma coleção, em um ateliê da cidade. Primeiros contatos feitos e, um mês depois, estava acertada sua participação no Quitutes da Ermida Dom Bosco. “Esse evento foi totalmente um divisor de águas”, conta, ao citar as 500 unidades do doce vendidas horas antes do fim da edição.


Lilian Lopes, fã de doces, apos-tou nos popcakes e acertou: em breve deve receber a patente da marca Boníssimo (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Lilian Lopes, fã de doces, apos-
tou nos popcakes e acertou: em
breve deve receber a patente da
marca Boníssimo
Hoje, ainda estudando para concurso e como única funcionária da La Carmela – cuidando desde a produção de cada docinho até as embalagens –, Luciana conta que os eventos continuam bem-vindos. “É o contato das feiras que impulsiona as minhas vendas”, conta.


Lilian Lopes tem a mesma impressão: “A quantidade de likes que aparece na página do Facebook na semana das feiras é impressionante”, frisa a confeiteira que, após ingressar em três cursos superiores diferentes, diz que encontrou sua profissão de vocação. “Eu descobri o que eu quero fazer da vida”, conta, em meio a dezenas de bolinhas envoltas de chocolate e ornamentadas em palitinhos decorados. Fã de doceria, ela apostou nos popcakes (cakepops, nos Estados Unidos) e acertou.


Hoje, os estandes liderados por Lilian, que em breve devem receber a patente da marca Boníssimo, continuam com a versão brasileira do pirulito de bolo, em 17 sabores (negresco com cream cheese, red velvet, nutella e ovomaltine são os que mais saem), mas não param de receber novidades. A limitação fica apenas pela linha de produto que escolheu seguir: “Eu trabalho com bolo”, explica, para apresentar as muitas formas que a receita surge. De brigacakes, potinho com a massa recheada por diferentes tipos de brigadeiros, a nakedcakes incrementados, passando por bolos envoltos por chocolate KitKat. “Esse é o foco: o cake”, enfatiza.


Bárbara Soares, da Babi Gourmet: média de dois eventos por mês e encomendas entregues pessoalmente em todo o DF (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Bárbara Soares, da Babi
Gourmet: média de dois eventos
por mês e encomendas entregues
pessoalmente em todo o DF
“Não faz sentido eu levar só quiche, sendo que outra pessoa tem”, justifica a chef Bárbara Soares, que, além dos seus cheesecakes, campeões de vendas da Babi Gourmet, faz quiches e bolos artesanais por encomenda. Personal chef, ela começou com jantares para grupos pequenos e encomendas, para só depois chegar a encontros abertos ao público. E ainda hoje, mesmo com uma média de dois eventos por mês, ela opta por dar preferência às encomendas, que, orgulhosamente, entrega pessoalmente por todo o DF.


Tendo como referência a cozinha mediterrânea – fruto da experiência de um ano morando na Europa –, Bárbara ganhou destaque por fazer versões que fogem do comum e exploram o conceito do pouco sal e pouca gordura. Assim, sua carta de cheesecakes vem em quatro sabores (frutas vermelhas, goiabada cascão com redução de vinho, macadâmia com figo e chocolate trufado com café), todos disponíveis também em versão sem açúcar e sem lactose.


Para quem está acompanhando a cena que tem se construído na cidade, fica em evidência a atmosfera de ânimo aos novos empreendimentos. “A pessoa começa a pensar em produtos diferentes, em possibilidades e até fornecedores diferentes surgem com a conversa com outros expositores”, descreve a produtora Carol Monteiro. Otimista, desde os primeiros esboços para os projetos que viriam, ela assume que o cerrado superou suas expectativas. “Nós sabíamos que lidaríamos com uma grande energia, um grande movimento. Brasília estava com sede!”, conclui.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017