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O velho formato é a nova opção

Pequenos varejistas ganham espaço e avançam na consolidação dos mercadinhos em regiões administrativas e bairros do DF. O atendimento personalizado, a qualidade dos produtos e a praticidade do serviço conquistam consumidores

Alessandra Curado - Redação Publicação:27/10/2014 12:00Atualização:27/10/2014 13:53

Pesquisa de mercado: Wesley Jacome aposta 
na rentabilidade 
do negócio e por isso decidiu investir em um minimercado na região norte de Taguatinga (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Pesquisa de mercado: Wesley Jacome aposta na rentabilidade do negócio e por isso decidiu investir em um minimercado na região norte de Taguatinga
“E aí, freguês, vai pagar agora ou quer anotar para o próximo mês?”. Frase pouco comum nos dias de hoje, ela representa a relação direta entre comerciante e consumidor, proporcionada pelo modelo dos mercadinhos de bairro. Mas foi perdendo força após os anos 1980, principalmente em razão da ascensão dos supermercados e da chegada dos hipermercados nas grandes cidades brasileiras. A novidade, segundo a Pesquisa Setorial de Minimercados do Sebrae, é que os mercadinhos estão de volta e conquistando, a cada dia, mais consumidores no Distrito Federal (DF).   


Sândila Brito Picanço, dona da mercearia Casa de Alencar: crédito na caderneta para manter a freguesia do antigo dono (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Sândila Brito Picanço, dona da mercearia
Casa de Alencar: crédito na caderneta para
manter a freguesia do antigo dono
Mesmo em um cenário de baixo crescimento e desaceleração da economia brasileira – com previsão de aumento de 0,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014, conforme o último Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias, do Ministério do Planejamento –, os minimercados ou mercados de vizinhança (como é denominado o pequeno varejo alimentar) estão em expansão em todo Brasil e se consolidam como um negócio promissor, de acordo com o Sebrae.


Até o final de 2012, data do último registro, o DF tinha 2.954 minimercados, mercearias ou armazéns cadastrados. São 105,9 mercadinhos a cada 100 mil habitantes, quatro vezes mais que os hiper e supermercados (quantificados em 22,6/100 mil habitantes). Para a coordenadora Nacional da Carteira de Minimercados do Sebrae, Fabianni Melo, a expansão dos mercados de bairro por aqui ocorre em razão da mudança de comportamento do consumidor, que prioriza a comodidade, proximidade e praticidade. “O modelo minimercado proporciona a conveniência que o cliente precisa quanto a proximidade e rapidez; ele escolhe e compra o produto perto de casa e sem grandes filas, geralmente encontradas em hipermercados”, explica.


A funcionária pública Denise Balduino faz a opção por minimercados há mais de sete anos. Ela mora na região administrativa do Guará e justifica por que prefere as pequenas lojas aos supermercados: “Eu valorizo o meu tempo. Sou conhecida como ‘piolho’ dos mercadinhos pela minha família, porque pulo de uma promoção à outra”, diz. Ela observa que alguns produtos são mais baratos em grandes mercados, “porém, quando analiso a distância, o gasto de combustível e o tempo na fila do caixa, eu acabo optando por aquele que está mais próximo da minha casa ou do trabalho”, conta.


'O modelo minimercado proporciona a conveniência que o cliente precisa quanto à proximidade e à rapidez', diz a coordenadora Nacional da Carteira de Minimercados do Sebrae, Fabianni Melo  (Charles Damasceno/Divulgação)
"O modelo minimercado proporciona
a conveniência que o cliente precisa
quanto à proximidade e à rapidez",
diz a coordenadora Nacional da
Carteira de Minimercados do Sebrae,
Fabianni Melo

Mas não apenas de preço baixo mantém o freguês. A qualidade dos produtos, principalmente os de hortifrúti, e o bom atendimento são outros diferenciais importantes do segmento. É o que garante o comerciante Marcos Seitiro Tanaka, proprietário da Mercearia e Frutaria Tanaka, localizada na Quadra 303 do Sudoeste. O microempresário começou, em 1998, com uma frutaria de 39 m² e expandiu como mercearia. Hoje tem 240 m² e oferece, além do hortifrúti, artigos industrializados do gênero alimentício, açougue e produtos básicos de limpeza e higiene. “É um trabalho que exige um acompanhamento persistente dia e noite; é preciso manter o controle de qualidade sempre. No mais, é primordial observar a procedência das mercadorias, principalmente frutas e verduras; e conversar sempre com os fornecedores e atacadistas para conhecer as novidades do mercado”, comenta.


Tanaka acredita que o diferencial do seu mercado é o bom relacionamento com a freguesia. “Eu estou presente na mercearia a maior parte do tempo, mostrando aos clientes as novidades, promoções e dando orientações sobre os produtos. Quando não estou por aqui, os funcionários já sabem que é para seguir o mesmo roteiro”, conta.


Hermes Almeida é colaborador da mercearia há 15 anos e diz que a principal procura é por frutas e verduras. “Vendemos de tudo, mas a maioria da clientela enche o carrinho de compras mesmo é no setor de hortifrúti”, conta. Eles oferecem também o serviço de tele-entrega: “Geralmente o freguês liga, eu separo os produtos listados – selecionando sempre os melhores – e entregamos em casa. É muito mais cômodo”, destaca.


Praticidade nas compras: a ser-vidora pública Denise Balduino sempre pesquisa os melhores preços entre um mercado e outro, mas valoriza 
o tempo que gasta no deslocamento e nas filas (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Praticidade nas compras: a ser-
vidora pública Denise Balduino
sempre pesquisa os melhores
preços entre um mercado e
outro, mas valoriza o tempo
que gasta no deslocamento e
nas filas
Fabianni Melo, do Sebrae, acredita que, quanto melhor a relação do comerciante com o cliente, maior é a sua fidelização. “Essa é a diferença dos minimercados com os hipermercados; eles conseguem competir no quesito atendimento, cordialidade e pessoalidade. As grandes redes possuem melhores preços em alguns produtos devido ao grande volume de compra, porém, não conseguem se aproximar do consumidor e cultivar um relacionamento de fidelidade”, diz. Para a coordenadora, o empresário que conhece seu cliente mantém uma relação de confiança com ele e sempre sai ganhando.


A pesquisa de minimercados do Sebrae aponta ainda outra forte característica dos mercadinhos: o fato de serem provedores de pequenas compras emergenciais, como é o caso do Mercado da Erivanda, tradicional no Guará. A loja não trabalha com o setor de hortifrúti, porém, comercializa itens da cesta básica do consumidor. Arroz, feijão, óleo, manteiga, queijo, açúcar, café, além de produtos de limpeza e higiene, como detergente, sabão e papel higiênico, estão entre os artigos mais procurados pela freguesia. “Tenho clientes fiéis que me acompanham há mais de 25 anos. A maioria vem atrás de produtos que faltam para complementar a compra mensal ou que acabam de última hora em casa”, diz Erivanda Farias Pimenta.


Ainda de acordo com a pesquisa, os principais clientes são pessoas do bairro, que, geralmente, frequentam a loja uma ou duas vezes na semana, gastando pouco tempo e pouco dinheiro.


Vindo de uma família de tios, avós e pais comerciantes, o administrador de empresas Wesley Jacome apostou na rentabilidade do negócio e decidiu investir em um minimercado na região norte de Taguatinga. No Avelar, o empresário já tem uma boa carta de clientes, mas oferece alguns diferenciais para despertar o interesse das pessoas que moram na região. “Eu acredito que a prestação de serviços tem de ser o diferencial. No meu açougue, por exemplo, fazemos cortes específicos e separamos em porções. Manuseamos frutas descascando e fatiando o abacaxi e melancia, além de entregarmos garrafão de água, já higienizado, para os clientes”, explica.


'É um trabalho que exige um acompanhamento persistente dia e noite 
para manter o controle de qualidade sempre', diz Marcos Seitiro Tanaka, que oferece tele-entrega na Mercearia e Frutaria Tanaka (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
"É um trabalho que exige um
acompanhamento persistente dia
e noite para manter o controle de
qualidade sempre", diz Marcos
Seitiro Tanaka, que oferece tele-
entrega na Mercearia e Frutaria
Tanaka

Apesar da relação de confiança entre os fregueses e os comerciantes, a maioria dos minimercados atualmente dispensa o uso das cadernetas ou da venda “fiado”. Esse modelo de crédito foi, por muito tempo, praticado pelos pequenos empresários em mercadinhos. Mas a pesquisa do Sebrae mostra que apenas nas cidades do interior ou em bairros mais afastados do centro das capitais ainda se utilizam as cadernetas. É o caso da mercearia Casa de Alencar, em Ceilândia. Sândila Brito Picanço, proprietária, diz que conseguiu manter a freguesia do antigo dono porque permanece com a caderneta. “Trabalhamos com as seguintes formas de pagamento: dinheiro, cheque e cartão de crédito ou débito. Mas não podemos deixar de vender para o cliente que não pode pagar sob nenhuma das formas, aí, criamos a sua ‘conta’. Essa prática já era feita pelo antigo dono, apenas mantivemos”, diz.


O grande desafio para os mercadinhos, conforme pontua o Sebrae, é a profissionalização do pequeno varejista e seus funcionários. “Geralmente, as lojas são pequenas e familiares e há necessidade constante da presença do proprietário no estabelecimento – o que dificulta o comprometimento e a participação em treinamentos, capacitações e demais ações de conhecimento”, diz Fabianni Melo. Para ela, o pequeno varejo está literalmente com o queijo e a faca nas mãos, porém, é preciso investir na melhoria do negócio (infraestutura), na qualificação dos colaboradores, na administração do estoque e no planejamento de compras, na gestão das perdas e na capacitação empresarial. Fica aí a dica para quem se interessa em investir na área.

 

Nicho de mercado: Mercadinho da Erivanda é tradicional no Guará e comercializa os chamados produtos emergenciais, que sempre acabam no final do mês (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Nicho de mercado: Mercadinho da Erivanda é tradicional no Guará e comercializa os chamados produtos emergenciais, que sempre acabam no final do mês
 

 

Dicas
O Sebrae lista itens para serem conferidos antes de se investir em minimercados (aqueles que têm até quatro caixas de atendimento):


- Conhecer o segmento, as dificuldades, desafios e perspectivas do negócio

 

- Mapear a localidade onde se pretende estabelecer a loja

- Conhecer os concorrentes, a operação de uma loja de minimercados e os fornecedores

- Entender e conhecer as necessidades do consumidor local para a composição de um mix adequado de produtos

- Desenvolver um plano de negócios, acessando pesquisas de mercado e ter a clareza do público-alvo

- Ter determinação, persistência e espírito empreendedor

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017