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Mais prazer na rotina

Profissionais, clínicas, lojas e programas específicos ajudam a melhorar a qualidade de vida dos diabéticos em Brasília

Cecília Garcia - Redação Publicação:27/10/2014 13:39Atualização:27/10/2014 13:53

Voluntários orientam diabéticos do programa Doce Desafio, que funciona na UnB: mais de 20 mil atendimentos em 13 anos (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Voluntários orientam diabéticos do programa Doce Desafio, que funciona na UnB: mais de 20 mil atendimentos em 13 anos
Em Brasília, a cada grupo de 100 moradores com mais de 18 anos, sete são diabéticos. O dado é da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), pesquisa do Ministério da Saúde. A estatística local reflete a realidade do restante do Brasil, considerado o quarto com maior índice de diabéticos entre 20 e 29 anos, chegando a quase 12 milhões de pessoas, de acordo com a Federação Internacional de Diabetes. As estatísticas contribuem para fomentar um mercado de profissionais, serviços e comércios voltados para atender especificamente a essa parcela da população. Não só para tratar a enfermidade, mas para amenizar o desconforto e as limitações, garantindo melhor qualidade de vida aos pacientes.


Cristopher Marinos, do Empório do Diabético, onde há 
mais de 400 produtos para os diabéticos: não falta nem alfajor (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Cristopher Marinos, do Empório do
Diabético, onde há mais de 400
produtos para os diabéticos: não
falta nem alfajor
Caso da endocrinologista Eliziane Brandão Leite. Com 25 anos de profissão, há dois anos, ela decidiu criar uma clínica de atendimento integrado. Em parceria com o marido e diretor da empresa, André Braga, abriu a clínica Diabetes Brasília, que conta com sete médicos, sendo um endócrino-pediatra, duas nutricionistas e duas enfermeiras. Com uma consulta marcada, o paciente passa por todas as especialidades. “Ele precisa do apoio de uma equipe multiprofissional, porque o médico faz seu papel, assim como o psicólogo, o nutricionista, a enfermeira e o educador físico. É assim que encontramos melhores resultados”, explica a médica.


O paciente diabético precisa tomar os remédios, comer adequadamente, furar o dedo para verificar a glicemia, aplicar insulina quando necessário, mas também precisa fazer exercício físico e manter a tranquilidade. “Se não tomar qualquer uma dessas medidas, a glicose vai subir e o tratamento se perderá. E aquelas situações que queríamos prevenir acabarão aparecendo”, reforça Eliziane. Se não tratada ou se descoberta de forma muito tardia, a enfermidade pode causar cegueira, perda da função renal, levar a amputações de extremidades e até a morte.

 

 

 

 


A endocrinologista Eliziane Brandão Leite criou uma clínica de atendimento integrado para diabéticos: tratamento multiprofissional (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
A endocrinologista Eliziane Brandão Leite criou uma clínica de atendimento integrado para diabéticos: tratamento multiprofissional
Um dos meios de prevenir os problemas causados pelo diabetes é o exercício físico. Contudo, o treino normal, com motivações estéticas ou feito para pessoas sem complicações de saúde, não é o mesmo indicado aos portadores da doença. É nessa hora que aparece o serviço do personal trainer especializado em treinos para esse grupo. Acácio Tolentino da Silva é formado em educação física, com pós-graduação em reabilitação cardíaca e grupos especiais. Com diabéticos, trabalha há 10 anos. Acácio explica que, para dar resultado, o treino precisa ser específico para o enfermo. “Tem de ser uma atividade monitorada, adaptada, porque se for muito intensa pode causar hipoglicemia”, explica.



Diabética, a professora de edu-cação 
física da UnB Jane Dullius criou o programa 
Doce Desafio: prática de exercício orientada 
e informações sobre a doença (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Diabética, a professora de edu-
cação física da UnB Jane Dullius
criou o programa Doce Desafio:
prática de exercício orientada e
informações sobre a doença
A maioria de seus clientes chega por indicação médica. Assim que começa o trabalho com um novo paciente, ele faz uma avaliação. Após três meses, reavalia e redige um relatório com todas as informações que coletou, que é enviado ao médico responsável. Entre os benefícios imediatos do exercício correto, o personal cita a melhora da autoestima, da qualidade do sono e da disposição. A longo prazo, os exercícios ajudam a evitar as consequências mais graves da doença, como uma possível amputação. “Pode-se viver com diabetes, sem problemas, se a pessoa fizer um exercício orientado, bem acompanhado.”


A importância da prática de atividades físicas para diabéticos também é ressaltada pela professora de educação física da Universidade de Brasília (UnB) Jane Dullius. Diagnosticada com a doença há 43 anos, ela é a criadora do programa Doce Desafio. Iniciado em 2001, visa promover educação em diabetes, usando como meio a prática de atividades físicas orientadas e a capacitação de profissionais. “O exercício é parte do tratamento, e todo diabético deveria ter acesso a isso.”

 

Associada ao programa de extensão de ação contínua da UnB, há a organização não governamental Instituto Doce Desafio. Qualquer um que tenha o diagnóstico pode aparecer na sede do programa, localizado no Centro Olímpico da UnB. A participação é gratuita. Só é pedido que leve os exames e as avaliações de saúde, para que os voluntários possam conhecer melhor quem chega. O atendimento ocorre em grupos. Fora o da universidade, há outros grupos em Ceilândia e no Paranoá. Nos encontros, que ocorrem de uma a três vezes por semana, há medição da glicemia e da pressão arterial. Em todos, há prática supervisionada de exercícios.


Acácio Tolentino, personal trainer, treina diabéticos há 10 anos: 'Pode-se viver com diabetes sem problemas se a pessoa fizer um exercício orientado' (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Acácio Tolentino, personal trainer,
treina diabéticos há 10 anos:
"Pode-se viver com diabetes sem
problemas se a pessoa fizer um
exercício orientado"
Integram o programa oito professores da universidade, sendo quatro deles diabéticos. Estudantes também são voluntários, vindos de cursos como educação física, psicologia e nutrição. “E tem os de fora da universidade, com diferentes formações, que disponibilizam seu tempo e, principalmente, um sorriso e um abraço”, diz Jane.  Ao longo de 13 anos de existência do Doce Desafio, foram realizados 20 mil atendimentos. Entre os beneficiados, estão de crianças de 4 anos a idosos de 90.


Guloseimas eram coisas distantes da realidade do diabético até pouco tempo. Cristopher Marinos, gerente do Empório do Diabético, na Asa Norte, conta que, no mercado, havia apenas doce de leite e geleias para o grupo. Hoje, os desavisados não conseguem distinguir essa loja de outras, convencionais. Sorvetes, alfajor, biscoito waffer, achocolatados, brigadeiro de colher, tudo isso voltado para os diabéticos e que fazem a alegria das crianças que frequentam o local. “Quando começamos com a loja, achava que teríamos um público mais velho, mas vem muita criança”, conta. O produto favorito delas é o pirulito, que não existia até o ano passado.

 

São 400 tipos diferentes de produtos alimentícios, isso sem contar a divisão de sabores em cada uma das categorias. Mas o doce de leite, a paçoca e a goiabada não podem faltar. Isso já ajuda a diminuir um pouco as diferenças entre a dieta do diabético e a alimentação de uma pessoa sem a enfermidade. A maioria da família de Cristopher é de diabéticos. Essa foi uma das motivações para a criação do Empório, em 2006. “Na época, não achávamos esse tipo de produto aqui em Brasília. Fizemos tudo pela curiosidade e pela necessidade.” Hoje, até mesmo o rapaz, que não tem a doença, consome alguns dos produtos que vende e elogia bastante o leite condensado em pó. “Seguindo a receita do rótulo, não tem como errar o pudim. Fica muito bom.”

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017