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Cultura | Empreendedorismo »

Os mecenas do século 21

Por que tantos brasilienses estão aderindo (e se beneficiando) ao fenômeno do crowdfunding, a nossa "vaquinha virtual"

Bruna Sensêve - Redação Publicação:29/10/2014 13:35Atualização:29/10/2014 13:59

Parte da turma 
à frente do grupo Catarse: eles mostram que o financiamento coletivo gera um impacto significativo 
na produção artística local, principalmente para projetos que não eram contemplados 
por vias tradicionais (Catarse/Divulgação)
Parte da turma à frente do grupo Catarse: eles mostram que o financiamento coletivo gera um impacto significativo na produção artística local, principalmente para projetos que não eram contemplados por vias tradicionais
Caius Mecenas viveu entre 68 e 8 a.C. e foi um influente conselheiro do imperador romano César Otaviano. No entanto, mais que por suas conciliações e estratégias políticas, Mecenas é conhecido pelo que fez depois de sua “aposentadoria”. A devoção do estadista voltou-se para o patrocínio de artistas e literatos, formando um círculo de intelectuais, poetas, pintores e escultores sustentados por sua amizade, proteção política e apoio financeiro. O nome virou sinônimo desse comportamento que se propagou ao longo da história. Hoje, ferramentas contemporâneas de interação reformulam esse tipo de iniciativa para um patrocínio das artes com os contornos deste século.


O fenômeno do crowdfunding – traduzido para o Brasil como “vaquinha virtual” ou financiamento coletivo – revela uma rede de contribuintes altruístas que, em nome da arte ou de um exemplar exclusivo, topam cooperar com R$ 5, R$ 500 ou até R$ 5.000 para que um projeto independente e distante do grande público saia do papel. Esse mecenato contemporâneo embarca na aventura de acompanhar todo o processo de idealização e concretização de filmes, livros, discos, revistas e acervos fotográficos. A proposta é arrecadar dinheiro (um pouquinho de cada um) por meio de uma plataforma virtual, visando à concretização de um projeto. Ao participar, entram na torcida para atingir o montante total necessário para alavancar a produção do que era rascunho de uma obra de arte. Mas quem são eles?


O designer Maurício Chades participa do mecenato con-temporâneo: ao colocar sua ideia na rede, ele conseguiu verba para produzir o livro-objeto As aventuras subje-tivas de Björk (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
O designer Maurício Chades
participa do mecenato con-
temporâneo: ao colocar sua
ideia na rede, ele conseguiu
verba para produzir o livro-
objeto As aventuras subje-
tivas de Björk
O designer Maurício Chades arrisca dizer que a resposta depende de uma junção de fatores. O público buscaria algo exclusivo e diferente do que é encontrado comercialmente. Maurício participa regularmente pelo interesse em adquirir uma obra de arte a preço “promocional” e diretamente da mão do artista. Também uma forma que encontrou de presentear outras pessoas de uma forma mais afetiva e única. “Normalmente, tenho um interesse espontâneo por adquirir uma obra em particular. Mas, às vezes, acredito no projeto e posso nem pedir a tal recompensa.”


O envolvimento com as ferramentas foi tal que ele mesmo colocou sua ideia na rede e conseguiu a verba suficiente para produzir os primeiros exemplares do livro-objeto As aventuras subjetivas de Björk. Ele é responsável pelo projeto gráfico do volume, o texto é de André Costa, que se junta ao trabalho da artista visual Adriana Peliano. “É um projeto diferente e queríamos também saber se encontraria um público, se valia a pena ser desenvolvido. Acabou funcionando como uma pré-venda. Quem contribuiu fazia uma compra adiantada, ajudando o projeto a acontecer.”


O auxílio de Juliana Pedro para o livro acontecer, por exemplo, foi essencial. Proprietária do Ernesto Café, Juliana se vê rodeada diariamente por intelectuais, escritores, jornalistas, professores universitários e músicos da cena artística de Brasília. Muitos projetos são pensados e desenvolvidos nas mesas do estabelecimento que, de uma forma ou de outra, acaba contribuindo para impulsionar a produção de obras locais. No entanto, o fomento era tímido, até então, e se reservava ao uso do espaço do café para algumas exposições, lançamentos ou mesmo camarins de peças de teatro.


Juliana Pedro diz que muitos projetos são pensados e de-senvolvidos nas mesas do seu estabelecimento, o Ernesto Café: 'O apoio que demos pelo site me agradou pela transparência' (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Juliana Pedro diz que muitos
projetos são pensados e de-
senvolvidos nas mesas do seu
estabelecimento, o Ernesto
Café: "O apoio que demos
pelo site me agradou pela
transparência"
Desde que participou do financiamento do livro, Juliana se tornou uma entusiasta da “vaquinha virtual”. “O apoio que demos pelo site é diferente do restante, que é mais tradicional. O que me agradou foi a transparência”, descreve. A garantia de saber em que e como o dinheiro será investido são os fatores mais importantes para esse engajamento. A opinião foi relatada por uma pesquisa realizada pelo site Catarse, a primeira plataforma para o financiamento coletivo no Brasil. Uma parcela de 72% de mais de 3,3 mil pessoas que responderam ao questionário afirmaram que a transparência é fundamental para decidir apoiar um projeto. Outros 64% garantiram que só apoiam projetos que apresentem o uso da verba de forma transparente (veja quadro na página seguinte).


Segundo o coordenador de comunicação do grupo Catarse, Felipe Caruso, o uso do financiamento coletivo gera um impacto significativo na produção artística local, principalmente para projetos que não eram contemplados pelas vias tradicionais. Ele frisa que em outros países, como Estados Unidos, Alemanha e Holanda, nos quais a ferramenta surgiu há mais tempo, o impacto é inegável. Hoje, a principal plataforma norte-americana, o kickstarter, gera mais verba para a indústria cinematográfica que a própria agência de fomento governamental. Também, de acordo com ele, forma a segunda maior editora de livros e quadrinhos. “Gerou mais de um bilhão de dólares para a economia americana. Não tem como não perceber isso.”


Ele considera haver um potencial já perceptível no Brasil. “Essa é uma forma de realizar as coisas. É encontrar pessoas para dividir custos e realizar ideias”, completa. A velocidade ainda reduzida que atinge o país é parte de um movimento lento de construção de uma cultura mais colaborativa em que predomina o “espírito de cooperação”. Na maioria dos casos, pelo menos 50% da arrecadação virá da própria rede de contatos do realizador.


Depois de ter participado de colaborações virtuais, Amanda Devulsky colocou a produção de seu filme, Querido Capricónio, para 
a arrecadação: o resultado esteve na 47ª edição  (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Depois de ter participado de colaborações virtuais, Amanda Devulsky colocou a produção de seu filme, Querido Capricónio, para a arrecadação: o resultado esteve na 47ª edição
Os apoiadores também podem ser pessoas que se sentiram inspiradas pela ideia e querem fazer parte de algo maior ou pelo recebimento da recompensa única que os projetos oferecem, como uma edição limitada de um produto, uma experiência customizada ou algo que vai receber antes de todo mundo. No caso do curta-metragem brasiliense Somos Todos Inocentes a recompensa era mesmo exclusiva: nome nos créditos finais, figuração em uma das cenas, DVD e cartaz do filme. Qual delas será recebida depende do valor da contribuição. Esse foi o primeiro curta a usar esse tipo de financiamento, ainda em 2011.


Para Felipe Caruso, coordenador de comunicação do Catarse, o crowdfunding é uma forma de fazer acon-tecer: 'É encontrar pessoas para dividir custos e realizar ideias' (Catarse/Divulgação)
Para Felipe Caruso, coorde
nador de comunicação do
Catarse, o crowdfunding é
uma forma de fazer acon-
tecer: "É encontrar pessoas
para dividir custos e realizar
ideias"

Amanda Devulsky, formada em audiovisual pela Universidade de Brasília, participou do projeto. O sucesso da arrecadação fez com que ela colocasse a produção de seu próprio filme Querido Capricónio também para a arrecadação. “Finalmente, em maio deste ano, os DVDs e todos os materiais do filme ficaram prontos e a exibição que era uma das recompensas aconteceu na Galeria Ponto. Foi ótimo”, relata. A equipe conseguiu 160% do valor pedido inicialmente. Como apoiadora, a satisfação viria de ver o trabalho pronto e saber que aquele apoio tornou tudo possível. “Já apoiei publicações, peça de teatro, lançamento de álbum. Tive boas experiências com esses projetos, todos até agora foram concretizados e entregues com muito cuidado.” O curta Querido Capricórnio foi selecionado para a Mostra Brasília e exibido na programação do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro deste ano.


“A essência das finanças não está na especulação, mas no financiamento de atividades. Por isso, a esperança na iniciativa do crowdfunding.” As palavras são do professor do Instituto de Economia, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Fernando Nogueira. Ele compara o fenômeno ao que acontece hoje com o Wikipédia, considerado também uma iniciativa “crowd” (do inglês, multidão). Elas comporiam um pacote de soluções simples, que vêm sendo adotadas em comunidades, como a moeda local, sistema mútuo de troca de tempo e o sistema de permutas, todos baseados na colaboração. “São utilizadas em alguns locais do mundo para que comunidades locais e até mesmo grandes empresas possam viver com autossuficiência. Esse novo mundo é possível? A priori, um pesquisador não pode dar uma resposta certa a respeito do futuro.”


Ju Pagul, proprietária do Balaio Café, quer desenvolver um site de financiamento co-letivo voltado exclusivamente para temas que envolvam as minorias sociais: 'As possibi-lidades são múltiplas', diz (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Ju Pagul, proprietária do
Balaio Café, quer desenvolver
um site de financiamento co-
letivo voltado exclusivamente
para temas que envolvam as
minorias sociais: "As possibi-
lidades são múltiplas", diz
Além disso, ele destaca que para participar nenhum apoiador precisa contribuir com um montante muito significativo de dinheiro. Todo projeto aceita apoios a partir de R$ 10. “Dizem que ‘apoiar um projeto é muito mais do que doar um dinheiro para alguém, é uma forma de acreditar no sonho da outra pessoa, de criar algo que ambos queiram que exista no mundo’. Será que isso é realista, prático? Não creio.” A iniciativa solidária, assim como os “clubes de trocas” ou as “feiras de troca solidária”, como foram batizadas essas estratégias da economia solidária, seriam mercados delimitados.


Para Ju Pagul, proprietária do Balaio Café, esse é o fator que torna tudo ainda mais interessante. Suas propostas colocadas para financiamento coletivo normalmente seguem uma linha de inclusão social das minorias. A iniciativa é conhecidamente usada para a promoção de eventos e exposições no café e agora, pelas mãos de Pagul, deverá tomar a internet. A ideia que está em processo de desenvolvimento da plataforma é de um site de financiamento coletivo voltado para temas que envolvam as minorias sociais.


“Será uma plataforma colaborativa que foge do lado institucionalizado para o apoio de ações culturais protagonizada pelas minorias”, define. Serão aceitas qualquer tipo de linguagem criativa, como filmes, livros ou discos. A escolha por criar uma plataforma de financiamento coletivo se instala na facilidade de atingir os indivíduos, na autonomia dada aos autores, na desburocratização e na transparência. “As possibilidades são múltiplas, os artistas podem se sentir mais livres e temos também a parte social, que já é um lema do café”, conclui.

 

 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017