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Cultura | Música »

O batuque feminino

Em uma década, o grupo feminino de percussão Batalá já uniu mil mulheres na paixão pela música, encantou Michelle Obama, primeira-dama americana, e tocou até com os Rolling Stones

Severino Francisco - Publicação:30/10/2014 12:00Atualização:30/10/2014 14:07

Os ensaios semanais no Parque 
da Cidade reúnem mulheres de todas as classes sociais: 
de empregadas domésticas a executivas do mercado financeiro (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Os ensaios semanais no Parque da Cidade reúnem mulheres de todas as classes sociais: de empregadas domésticas a executivas do mercado financeiro
Todos os sábados, quem passa pelo Estacionamento 11 do Parque da Cidade sente o corpo tremer com uma batucada irresistível. É o som do grupo de percussão Batalá, formado só por mulheres, com suas roupas coloridas, como se fosse uma tatuagem tribal africana. O batuque ressoa pela cidade espacial e ecoa em vários pontos do mundo, porque ele integra uma rede global, com ramificações em Paris, Londres e Nova York, entre outras metrópoles. É um choque de alegria que bate na pele, muda a energia imediatamente, promove uma conexão e consegue a façanha de romper as barreiras de classe ou de raça.

 

O som dos tambores vem em sintonia com as batidas do coração e a música de mulheres dos 18 a 60 anos; brancas, negras, loiras e mulatas; de Santa Maria, de Sobradinho, de Planaltina, do Lago Sul e do Park Way. A tribo urbana do Batalá está celebrando dez anos de batucada, pulsações, encontros, diálogos, rituais, afetos e solidariedades com um livro, uma exposição e oficinas de percussão. Ele já é um patrimônio da cultura de rua em Brasília.


Em Salvador, existe a banda Didá, também constituída apenas por ritmistas femininas. A diferença é que o Batalá expressa a miscigenação brasileira e candanga, com mulheres de várias origens regionais e etnias. O grupo não é, originalmente, de Brasília. Existe em 11 países, mas ganhou uma cara feminina e brasiliense ao aterrissar no Planalto Central. Nasceu em 1977, na França, por iniciativa do percussionista baiano Giba Gonçalves, que iniciou os franceses na rítmica dos instrumentos afro-brasileiros. A brincadeira multiplicou-se em bandas pelos Estados Unidos e Europa.


Nessa época, o empresário brasiliense Paulo Garcia estudava em Portland, na Inglaterra. Lá, paradoxalmente, ele redescobriu a brasilidade, pois os ingleses são apaixonados pela percussão brasileira e formam escolas de samba. Ao participar de uma oficina de candomblé, toque e batuque, ele conheceu o mestre baiano Giba: "Lá você tem acesso ao ensino de qualidade sobre a cultura brasileira. Ele me contou que havia fundado o grupo de samba reggae Batalá em Paris", lembra Paulo. "Logo, peguei alguns instrumentos em Paris e formei um Batalá em Portland."


Paulo Garcia é fundador do grupo em Brasília: 'O Batalá proporciona a oportunidade 
de superar as barreiras de classes sociais' (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Paulo Garcia é fundador do grupo em Brasília: "O Batalá proporciona a oportunidade de superar as barreiras de classes sociais"
Ao retornar a Brasília, em 2003, resolveu criar uma banda Batalá com identidade brasiliense. Decidiu constituir o grupo só com mulheres: "Na França, eu havia visto muitas mulheres tocando, embora o grupo tivesse também homens. No Brasil, o mais comum era ver os homens tocando e as mulheres com poucas roupas compondo o cenário. Chamei dez amigas, comecei a dar aulas e disse: se vocês conseguirem vir durante um mês, trago os instrumentos de Salvador. Deu certo". O batuque fascinou as brasilienses, e mais de mil mulheres já passaram pelo Batalá.


Batalá é uma associação cultural, musical e terapêutica, com a estrutura de uma ONG sem fins lucrativos. Não é preciso ter formação musical. Qualquer mulher pode participar. É um projeto de percussão global e de inclusão pelo batuque do samba reggae: "Em Brasília, é incrível, há mulheres de Santa Maria convivendo com as do Lago Sul. Tem mães, filhas e avós. De repente, tem uma empregada doméstica liderando um grupo com a participação de advogadas, médicas e universitárias. O Batalá proporciona a oportunidade de superar as barreiras de classes sociais".


Em visita a Brasília, Michelle Obama, primeira-dama dos EUA, aplaude o Batalá: depois, enviou carta de agradecimento pelos momentos ao lado do grupo (Zuleika de Souza/CB/DA Press)
Em visita a Brasília, Michelle
Obama, primeira-dama dos EUA,
aplaude o Batalá: depois, enviou
carta de agradecimento pelos
momentos ao lado do grupo
O grupo promove um batuque sustentável. Cada uma só precisa doar a alegria e a destreza de bater nos tambores. O grupo ensina a tocar, empresta os instrumentos, e as bataletes têm de se apresentar nos shows contratados por empresas, embaixadas e outras instituições. Todo o dinheiro é revertido para compra de mais instrumentos e de roupas para o grupo, de acordo com Paulo: "A maioria das pessoas está muito ligada ao consumismo. Mas, no Batalá, não é preciso pagar nada; precisa se doar. Sou voluntário, todo sábado estou aqui ensinando e passando conhecimento".


Ao longo de dez anos, o Batalá acumula as mais inusitadas histórias. Houve casos de mulheres que estavam na fila para fazer transplante de rim e os médicos as liberaram para tocar: "Elas pediam: ‘se eu não tocar, vou adoecer mais’. Os médicos sabiam que, mesmo com o esforço físico e o peso do instrumento, o convívio social e o som do tambor fariam bem à saúde", diz Paulo.


O grupo gravou dois CDs e abriu três shows dos Rolling Stones em 2009, em Nova York. O convite para participar das performances com a banda inglesa surgiu porque o Batalá faz, todos os anos, a lavagem da Rua 46, em Nova York, no Brasilian Day, com dois grupos da região, um local e um de Washington.
O Batalá foi o único grupo cultural que se apresentou em Brasília para a primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, em visita pelo Brasil.

 

Michelle aplaudiu calorosamente a banda e quase saltou da cadeira para dançar. Ela enviou uma carta ao grupo, agradecendo por aquele instante de alegria em meio às formalidades e tensões de uma viagem diplomática: "Michele escreveu que havia sido muito bom encontrar pessoas que parecem muito felizes no que estavam fazendo", conta Paulo.


Quando começou, Paulo não imaginava que o batuque pudesse sensibilizar tantas mulheres e promover tantos encontros: "São muitos os relatos de mudanças proporcionadas por um simples projeto cultural. O batuque é um momento especial, de alegria e de comunhão. É uma forma de conectar pessoas, unir raças, cores, classes e gerações".

 

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017