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ARTIGO | Liziane Guazina »

Eu não me chamo Manuel

Liziane Guazina - Articulistas Publicação:30/10/2014 14:00

Faço parte daquela rede involuntária de consumidores que tiveram seus números de celulares indevidamente vendidos ou repassados por alguém e que agora recebem mensagens de todos os tipos, tentando vender um serviço, um produto, um candidato ou uma fé.


Virei o alvo fácil das empresas de telefonia, de tevê a cabo, de imobiliárias e até de associações sindicais. Metade das mensagens que recebo traz uma promoção aparentemente imperdível de mais um canal de televisão (não bastassem os quinhentos canais que transmitem o lixo cultural do mundo), mais um recado para ouvir, mais uma conta para pagar (mesmo que tudo já tenha sido pago).
Se eu fosse adolescente e ficasse, como alguns meninos e meninas ainda ficam, esperando ansiosamente mensagens de possíveis namorados, já teria caído em depressão. Tudo que me chega são promoções de produtos que não preciso, pesquisas de opinião (avalie agora esta experiência de viagem!) e ofertas das mais mirabolantes (venha tomar uma taça de espumante com a gente!). Isso sem falar no pessoal das lojas de sapatos ou roupas femininas que insistem em parecer amiga íntima: te espero lá, querida!


Com o período eleitoral, começaram a chegar também os pedidos de votos. Há algo irritante em uma mensagem pedindo seu apoio a candidatos que você nunca ouviu falar. O pior é encarar a seguinte frase: faça valer o seu voto! E, para completar seu dia mais do que estressante, o minúsculo recado: para descadastrar, sair. Mas eu não pedi para entrar! Depois de digitar em letras maiúsculas um SAIR, tudo o que você quer é ser deixado em paz. Em vão. Lá vem novamente a mesma mensagem e a mesma frase repetidas vezes. Só resta não votar em quem escolheu essa estratégia para se comunicar com os eleitores.


De uns tempos para cá, algum gênio do marketing inventou de personalizar as mensagens. Antes de qualquer convite, vem o que supostamente deveria ser o seu nome. Mas nunca dá certo. Agora, virei Manuel. Manuel, diz a última mensagem, pague sua conta até o dia tal. Manuel, venha ao coquetel de lançamento da nossa nova linha de produtos. Manuel, aproveite os últimos dias de promoção. Manuel, cabelo e unha só por R$ 45. Manuel, Manuel, Manuel. Por que diabos resolveram me chamar assim? Com todo o respeito a quem ostenta esse bonito nome, o meu é outro.


Foi-se o tempo em que se podia romantizar sobre mensagens enviadas sem querer. Pensando bem, era até curioso quando uma mensagem gentil ou acolhedora chegava subitamente num dia meio nublado e ocioso, vinda de um número desconhecido. Dava para inventar uma história inteira só com aqueles dizeres, quem sabe uma crônica ou até um romance.


Hoje em dia, as mensagens comerciais gritam em letras maiúsculas, irritam os olhos e agridem a sua intimidade. É mais ou menos como estar sempre na presença de uma multidão vociferante, mesmo estando sozinho. Quando menos se espera, na madrugada ou no fim de noite, lá vem um “Manuel, não esqueça de pagar sua conta amanhã”. z"Era até curioso quando uma mensagem gentil
ou acolhedora chegava subitamente num dia meio nublado e ocioso, vinda
de um número desconhecido"

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017