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Gastrô | Tendência »

Delícia itinerante

Os food trucks já estão bastante populares em Brasília. Cinco empreendedores falam sobre o sucesso e os desafios do negócio

Jéssica Germano - Redação Rodrigo Craveiro - Redação Publicação:18/11/2014 12:00Atualização:18/11/2014 11:32

Corujinha Food Truck, de Marcela Prado, aposta na interação com o público, além da qualidade dos ingredientes : 'É preciso prover bons momentos' (Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Corujinha Food Truck, de Marcela Prado, aposta na interação com o público, além da qualidade dos ingredientes : "É preciso prover bons momentos"
Há mais de 120 anos, os Estados Unidos eram apresentados ao que viria se tornar uma nova febre gastronômica. O fenômeno, que começou com trailers servindo refeições noturnas a trabalhadores de Nova York, expandiu na década de 1950 e ganhou as ruas da cidade na forma móvel de caminhões adaptados para funcionarem como lanchonetes e restaurantes, a princípio em bases do exército norte-americano. Sucesso de aceitação e público, a onda chegou posteriormente a São Paulo e recentemente levou brasilienses a replicarem o comércio no Distrito Federal. Deu certo: os food trucks já podem ser encontrados em algumas quadras e em eventos culturais e de gastronomia na capital.


Após deixar o último emprego, o empresário Miguel Lopes passou meses estudando o mercado e montando um plano de negócios de comida itinerante. “Trabalhamos por aproximadamente mais três meses na montagem do veículo”, conta o proprietário do Burger Truck, que divulga os locais e horários de parada no www.burgertruck.com.br e nas redes sociais. A receptividade ao negócio tem sido ótima, segundo ele. “Brasília é uma cidade extremamente propícia aos food trucks, com amplos espaços. Além disso, tem poucas opções de alimentação de qualidade sem a burocracia de um restaurante, o que inclui sentar, olhar o cardápio, chamar o garçom, pedir, esperar, aguardar a conta, etc.”, comenta. Em dias mais “fracos”, o Burger Truck atende cerca de 50 clientes. Em eventos, esse número ultrapassa as centenas.


O cardápio, também elaborado por Lopes e servido sob rodas no truck vermelho, conta com três opções fixas de sanduíche, além de itens especiais e rotativos. O carro-chefe tem sido o Tradicional, feito com hambúrguer artesanal, cheddar, tomate, alface e molho BT (Burguer Truck, segredo do chef). Com saídas habituais de quinta-feira a domingo, em pelo menos um dia o veículo fica parado para uma limpeza pesada.


Com experiência de mercado, após ter sido sócio, chef e consultor, montando restaurantes e empresas de gastronomia, Bruno Cajado acumulou por dois anos o desejo de montar um food truck. “Pelo conceito de liberdade, de levar a boa e alta gastronomia para a rua, com valores acessíveis, e com essa grande vantagem de trabalhar com custos reduzidos”, lista algumas das razões para a decisão. Rodando desde o início de setembro com o Bistruck, negócio que propõe levar comida brasileira de qualidade a diferentes pontos da cidade, o empresário acredita que o investimento de cerca de R$ 240 mil não só valeu a pena, como só deve ganhar impulso na cidade.


Bruno Cajado tem uma cozinha in-dustrial dentro da Bistruck: 'Inclui 
reservatórios de água de 300 litros em cima do caminhão e reservatório de dejetos', descreve (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Bruno Cajado tem uma cozinha in-
dustrial dentro da Bistruck: "Inclui
reservatórios de água de 300 litros
em cima do caminhão e reservatório
de dejetos", descreve
“Eu acredito que em muito pouco tempo Brasília vai se equiparar à capital paulista”, aposta. “São Paulo está anos-luz à nossa frente, porque lá existe, além do capital de investidores – muito maior do que o de Brasília –, a qualificação de chefs, de equipe, de mão de obra etc., que é muito superior à nossa”, reconhece. Mas pondera: “O que a gente tem à disposição dos food trucks aqui, em sentido de ocupação temporária de espaço, é uma condição muito mais favorável do que ruas apertadas, com pouquíssimas áreas verdes”.


Com uma estrutura similar a qualquer cozinha industrial de alta escala, o truck que hoje circula com itens como bobó de camarão, farofa de dendê e risoto vegetariano no menu foi, inclusive, trazido da capital paulista para ser “reconstruído” aqui. Com um terço do tempo e metade do valor que teria pago em São Paulo, Cajado planejou e mandou executar todo o Bistruck tendo quatro fornecedores diferentes na cidade. “Hoje eu tenho um sistema de cozinha fixa replicado dentro do caminhão: chairbroiler (para grelhados), fogão industrial de quatro bocas, cozedeira de massas, banho-maria, pista fria, coifa industrial, forno combinado, refrigeradores e congeladores, reservatório de água de 300 litros em cima do caminhão, reservatório de dejetos”, lista.


Feliz com o movimento desse novo tipo de negócio na cidade, o empresário lamenta apenas a ausência de uma legislação que permita seu funcionamento efetivo nos eixos brasilienses. “A maioria dos food trucks de Brasília já está com a documentação regularizada junta ao Detran e à Anvisa, mas não tem licença de operação, como ambulante, porque não existe legislação”, diz (entenda melhor a situação de insegurança na página ao lado).


O casal Wolney Soares e Lorena Nunes aprova a proposta gastronômica: 'Nós gostamos realmente desse tipo de evento', diz Wolney (Bruno Pimentel /Encontro/DA Press)
O casal Wolney Soares e Lorena Nunes aprova a proposta gastronômica: "Nós gostamos realmente desse tipo de evento", diz Wolney
Para Wolney Soares e Lorena Nunes, os eventos que promovem a nova proposta gastronômica têm funcionado bem. “Nós gostamos realmente desse tipo de evento”, comenta o servidor público que, enquanto elogia o formato, espera paciente em uma fila relativamente longa para pegar sua comida. Já a advogada aposta que o sucesso da ideia tem a ver também com as características da cidade. “Brasília convida a esse tipo de coisa. A paisagem da rua, o calor”, diz.


De duas a três vezes por semana, o Corujinha Foodtruck sai às ruas em horários de almoço (11h às 14h) ou no happy hour (18h às 22h). A proposta de Marcela Prado Junqueira surge como ousada e inovadora. “Nosso cardápio é centrado em alimentos orgânicos, lanches gourmet e saladas. Tudo preparado com ingredientes frescos, selecionados e de produtores locais”, conta. Quem topar com o empreendimento por aí, vai encontrar três opções de hambúrgueres artesanais que têm cativado o paladar do brasiliense. “O nosso xodó é o Mumu Burger, feito de hambúrguer de carne, cebolas caramelizadas e cheddar no pão integral”, conta Marcela.


Marcel Castello Branco e Eduardo Golin queriam disseminar a cultura cervejeira na capital: trouxeram do Sul a ideia do Corina (Ana Rayssa/Esp CB/DA Press)
Marcel Castello Branco e Eduardo Golin queriam disseminar a cultura cervejeira na capital: trouxeram do Sul a ideia do Corina
O projeto, que toma lugar em uma Kombi vinho, surgiu do sonho de Marcela em aliar o hobby da culinária ao gerenciamento de um negócio próprio. Formada em comunicação social, com pós-graduação em gestão de pessoas, a estudante de gastronomia acredita que a filosofia da empresa precisa ir além da função de servir refeições. “É preciso prover bons momentos. Tentamos deixar isso bem claro em toda nossa comunicação e interação com o público”, destaca.


Resultado de um grupo de colegas, clientes assíduos de comida de rua e comunicadores de uma agência de sites e marketing, o Guia Food Truck nas Ruas nasceu para ser uma plataforma virtual de onde encontrar representantes da proposta. “Por que não fazer um aplicativo e um site para que o público consiga buscar os food trucks que existem e saber onde eles estão, o que servem?”, questiona a paulistana Carla Somose, para descrever a ideia. Uma das idealizadoras do projeto, ela lembra, porém, que todo o movimento é ainda muito recente no país e que por isso são poucas as regiões que já têm mapeamento e uma quantidade grande de trucks cadastrados (até agora, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Distrito Federal possuem suas versões). Ainda assim, o formato só cresce. “É um mercado que está em crescimento. Muitos trucks já estão em expansão para duas, três unidades, para atender a demanda de eventos”, conta ao acompanhar a cena nacional.


Encontro de food trucks em Brasília: a ideia é proporcionar e popularizar uma comida de qualidade (Bruno Pimentel /Encontro/DA Press)
Encontro de food trucks em Brasília: a ideia
é proporcionar e popularizar uma comida de
qualidade
Apesar de funcionarem muito bem independentes, a coletividade tem dado bastante força à ideia de veia cigana. “Agora começaram a surgir food parks (eventos de encontros de food trucks) também em outros estados”, destaca Carla Somose, referindo-se a iniciativas como a que passou a reunir, desde maio, representantes do ramo no bairro Butantã, em São Paulo. Com preços de até R$ 25 e capacidade para até 25 expositores, um antigo estacionamento virou uma espécie de praça gastronômica rotativa, funcionando todos os dias da semana e servindo os mais diversos tipos de comida.


Para fazer parte do guia, é preciso preencher um formulário no site www.foodtrucknasruas.com.br e pagar uma mensalidade de R$ 80 que dá direito à página no site e no aplicativo, divulgação nas redes sociais, além da atualização semanal da agenda. Para o empresário Marcelo Barbosa, responsável pelas massas e pizzas servidas no Supreme Macaroni e cadastrado no guia, a interação da classe recém-surgida também merece destaque. “O pessoal está unido, fazendo a coisa acontecer e firme na ideia de proporcionar e popularizar uma comida de qualidade”, afirma.


Eduardo Golin e Marcel Castello Branco prestigiaram vários eventos voltados ao setor de cervejas artesanais Brasil afora, até que, no início de 2013, conheceram a kombipa, da cervejaria Bodebrown, em Curitiba, e voltaram para Brasília com o intuito de efetivar uma proposta similar. “A opção pelo estilo Beer Truck foi natural, em função da necessidade de operar com mobilidade, sem ponto fixo. A ideia original era transformar a Kombi em uma ‘vaca’ e extrair as cervejas diretamente das ‘tetas’ dela para o copo do cliente”, explica Eduardo Golin, “coordenhador” da empresa Corina Cervejas Artesanais.


Por enquanto, a “vaca” Corina só comparece a eventos, como casamentos, aniversários e festas nos fins de semana. “O volume de clientes varia em função do público. Já participamos de eventos com até 13 mil pessoas”, conta Golin.


Depois de ter sido dono do restaurante Carpe Diem por 20 anos, Jael da Silva já tem todo o plano traçado para colocar nas ruas um truck de sanduíches gourmets, incluindo uma versão vegana. Membro da diretoria do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares (Sindhobar), o empresário quer trazer para Brasília o modelo bem-sucedido de empreendimentos itinerantes que viu em uma feira especializada do ramo em Chicago (EUA). Uma das razões que embasam a decisão do investimento, segundo ele, é o baixo custo em relação a um estabelecimento tradicional. “E a ideia também que se ofereça um preço menor do que se encontra por aí. Sai 30% mais barato, por um produto tão bom ou melhor do que por aí”, diz.


A decisão de pôr em prática – e circulando – o truck, que já tem máquina própria de sous-vide (processo de embalagem a vácuo, para ser cozido, preservando as características do ingrediente) e pretende assar na hora seus pães artesanais, esbarra, entretanto, no respaldo legal. Silva afirma que só dará a primeira volta com o restaurante móvel quando o projeto de lei, que vai normatizar todas as características físicas e regras de funcionamento para esses veículos, for aprovado pela Câmara Legislativa do DF. Para tanto, o empresário conta com o apoio de fortes representantes na casa. Apesar de não ser uma unanimidade, já que “tudo quando é novidade, no começo, tem certa rejeição”, Silva afirma que é interesse, tanto do Sindhobar quanto da Abrasel-DF (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), que haja uma legislação apoiando o ramo. “Até porque isso já é quase que uma moda mundial. A cidade vai adotar isso. É irreversível”, aposta.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017