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Dez perguntas para | Anselm Grün »

"Ninguém vai conseguir saber tudo sobre si"

O monge católico alemão que já vendeu um milhão de livros conta por que é tão difícil chegar ao autoconhecimento e fala sobre a importância da meditação

Diego Amorim - Redação Publicação:18/11/2014 13:36Atualização:18/11/2014 13:40

 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
De sorriso fácil, andar vagaroso, barba e cabelos grisalhos crescidos e hábito cinza cobrindo todo o corpo, o monge católico considerado um dos ícones da espiritualidade moderna e mestre do autoconhecimento caminha pelos corredores próximo à casa paroquial do Santuário São Francisco de Assis, na Asa Norte. É uma quinta-feira, passa das 17h. Pela quarta vez no Brasil, o alemão Anselm Grün, de 69 anos, cede poucos minutos do seu curto tempo livre para uma entrevista exclusiva a Encontro Brasília, antes de tirar um cochilo e falar sobre questões de fé para um auditório lotado.


Acompanhado do tradutor, o religioso, que não compreende o português, mostra-se atento a cada pergunta. Em turnê de um mês pelo país para lançar livros no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Fortaleza e em Belo Horizonte, além de Brasília, Grün, em momento algum, faz propaganda de si mesmo ou das mais de 100 obras que tem publicadas em nosso idioma, quase todas pela Editora Vozes. Com tom de voz baixo, porém firme, o doutor em teologia aprofunda respostas ao abordar dois de seus temas preferidos: autoconhecimento e meditação.


Acusado por alguns setores da Igreja por, com base na opinião dos críticos, servir de eco para uma cultura de autoajuda sustentada em metáforas psicológicas distantes da doutrina católica, Grün elogia a “linguagem simples e acessível” do papa Francisco e deixa transparecer alfinetadas ao excesso de emoção percebido na espiritualidade brasileira. O monge trata, ainda, da relação do ser humano com o trabalho e defende que, por meio de ritos simples, é possível incluir a meditação no cotidiano.


1 | ENCONTRO - Que impressão o senhor tem da espiritualidade brasileira?


ANSELM GRÜN - É uma espiritualidade muito mais emocional, se comparada com a do europeu, principalmente com a do alemão, que conheço bem. Percebo também que o brasileiro encara o sublime de um jeito muito mais próximo – e, por isso, melhor – da natureza. Há, ainda, uma conexão muito forte com as raízes, justamente porque os brasileiros são um povo constituído de tantos outros povos.

2 | Esse viés emocional da espiritualidade brasileira (e latina, como um todo) não corre o risco de torná-la mais superficial?


É verdade. Existe um perigo enorme de a pessoa se perder na euforia pura e simplesmente. A vida espiritual precisa, sim, das emoções, porque elas são fonte de fortaleza. Sem elas (as emoções), perde-se a própria força. Em um caminho de espiritualidade, apresentar as emoções a Deus é algo decisivo, de fato. Porém, é importante encarar os sentimentos de forma com que eles se transformem em fonte de energia, e não dominem o ser humano.

3 | Por que as religiões têm perdido espaço para a espiritualidade própria de cada um?


O ser humano adotou uma postura muito crítica diante de qualquer instituição, seja o Estado, seja a Igreja. A religião também passou a ser encarada como instituição. Esse conceito de espiritualidade própria dá a liberdade para que cada um encontre o seu próprio caminho de chegar até Deus. O problema é que montar uma espiritualidade com elementos de várias crenças torna esse trajeto artificial demais.

4 | Das práticas monásticas, qual seria a mais urgente a ser aplicada nos dias de hoje?


Creio que seja a regra do orar e trabalhar. Para mim, a espiritualidade existe quando ela está arraigada na terra, no mundo real. Não deve ser um caminho somente de emoções sublimes. Espiritualidade significa dar forma à vida concreta. Acompanho muitas pessoas e sempre me pergunto: a espiritualidade cura de fato ou tem servido apenas para fortalecer o narcisismo? A única espiritualidade que cura é aquela em que a pessoa se apresenta inteiramente a Deus e, assim, passa a se reconhecer, inclusive com os seus lados sombrios, para que, a partir daí, Ele o ilumine. Conheço muitas pessoas que fogem para um tipo de religião de piedade por não darem conta disso, por não suportarem o próprio caos.

5 | Por que o autoconhecimento é tão difícil?


Os monges costumam dizer que só pode conhecer a Deus quem conhece a si mesmo. Isso é verdade.


6 | E por que tantos, nessa busca de se conhecerem, perdem-se ainda mais?


Há pessoas que praticam o autoconhecimento de uma forma muito perfeccionista. Querem conhecer tudo de si mesmas. E isso definitivamente não leva à bênção. É por isso que as pessoas se perdem. Ninguém deve se ocultar nesse processo, mas também ninguém vai conseguir saber tudo sobre si. Eu me apresento a Deus do jeito que estou e do jeito que sou e confio que Ele vai me mostrar o que é importante para a minha vida.

7 | Em seus livros, o senhor diz que o trabalho se transformou em vício e instrumento de autoafirmação. Os “workaholics” são reflexo dessa dificuldade de se autoconhecer?


Existe a fuga para o trabalho quando as pessoas não suportam o vazio e o silêncio que existem dentro delas. Quem usa o trabalho para encontrar nele autoimagem e autoafirmação acaba trabalhando demais e sofrendo um esgotamento. Mas também observo hoje uma fuga do trabalho, tão preocupante quanto. Algumas pessoas estão cansadas antes mesmo de começarem a trabalhar. Para os monges, quando o trabalho flui de verdade, existe uma naturalidade na rotina do trabalho e isso é sinal de boa espiritualidade. Sabe por quê? Porque quando o trabalho flui a pessoa se esquece de si mesma e o centro deixa de ser ela ou o ego dela.

8 | O senhor prega muito sobre meditação. É possível encontrar espaço para meditar nos dias de hoje, em que a vida anda tão corrida?


Uma forma de encontrar espaço para meditação é recorrer aos rituais. Rituais não demandam muito tempo. Por exemplo: todos nós levantamos pela manhã, correto? Mas como levantamos? Deixo minha agenda e meus compromissos me controlarem a partir do momento em que abro os olhos ou ofereço meu dia a Deus e peço a Ele uma benção? Os rituais, defendem os gregos, criam um tempo sagrado que pertence a Deus, mas também a cada um de nós. Esse tempo sagrado tem de me dar a convicção de que estou vivendo minha vida, e não de que os outros estão vivendo por mim.

9 | O que o senhor acha do papa Francisco? Qual o legado do papado dele até aqui?


Sou muito grato a Deus por Francisco. Com uma linguagem diferente, ele criou um clima também diferente na Igreja. O papa fala de um jeito muito pessoal e bastante simples, acessível. Ele não é apenas aquele cara legal, como todos dizem e já perceberam. Tenho para mim que Francisco sabe muito bem o quer e é homem determinado. Espero, sinceramente, que ele consiga, mais do que qualquer coisa, reformar a Cúria Romana, o maior fardo do antecessor dele, Bento XVI.

10 | A paz é possível ou a guerra é inerente à humanidade?


(Silêncio) É claro que espero que a paz seja possível, mas enquanto o ser humano nutrir o desejo de poder, a vontade de poder, sempre haverá guerra. O grande perigo é que muitas guerras não são motivadas somente pelas questões políticas, mas também religiosas. E quando a religião se mistura à sede de poder, a pessoa se torna cega.

 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017