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O verde que nos abraça

Brasília tem uma taxa de arborização maior que a média nacional, mas esse benefício pode ser perdido: antigamente, 450 espécimes eram plantados por quadra; hoje, não passam de 90

Dominique Lima - Redação Publicação:19/11/2014 12:00Atualização:19/11/2014 14:09

Lourivaldo Marques 
tem adoração pelas 
árvores de Brasília: 
o fícus italiano 
foi plantado 
por ele em 1963 (Vinícius Santa Rosa/Encontro/D.A Press)
Lourivaldo Marques tem adoração pelas
árvores de Brasília: o fícus italiano foi
plantado por ele em 1963
A presença maciça de árvores em Brasília faz parte da identidade da cidade. Com mais de 300 espécies catalogadas, a capital federal abriga variedade maior do que a da Europa Ocidental. A concentração de verde, no entanto, é bastante desigual, com vantagens para o Plano Piloto, sobretudo nas quadras mais antigas — as mais novas e as cidades-satélites chegam a ter 10 vezes menos plantas.


Em alguns lugares do Distrito Federal, o planejamento não inclui espaço para áreas verdes. Essa involução é uma perda para a cidade, de acordo com estudos. A ciência aponta a manutenção de alta concentração de árvores como fator decisivo para a qualidade de vida de uma região. Além de aumentar a umidade, amenizando o calor, a maior quantidade de árvores atenua o nível de ruídos em áreas urbanas. Há ainda pesquisas que comprovam uma relação direta entre a presença de áreas verdes e a diminuição da violência na região.


Um dos intuitos do urbanista Lucio Costa ao desenhar Brasília era dar a impressão de que os prédios das superquadras saíam de uma floresta. A altura dos edifícios facilitaria a associação entre as construções e o verde. Seria uma arborização livre, inspirada em conceitos inovadores à época, que relacionavam verde e qualidade de vida. E assim as primeiras quadras foram feitas. Aquelas construídas na década de 1960 têm, em média, 450 árvores. A mais arborizada conta com 600. Nas superquadras mais novas, no entanto, não passam de 90.


Um dos maiores entraves para o plantio hoje, geralmente feito pela iniciativa privada por meio das construtoras responsáveis pelo prédio, é o aumento do tamanho das garagens ao longo das décadas. Se há 50 anos muitos blocos nem garagem tinham, atualmente elas ocupam espaço subterrâneo maior do que a projeção dos edifícios na superfície. Com isso, é impossível plantar árvores de raízes mais profundas ao redor das construções.


Corredor de árvores entre as quadras 111 e 112 Sul: sombra 
para a estudante Claudia Boaventura e seu cachorro (Vinícius Santa Rosa/Encontro/D.A Press)
Corredor de árvores entre as quadras 111 e 112 Sul: sombra para a estudante Claudia Boaventura e seu cachorro
“Nas quadras residenciais construídas mais recentemente, apesar de a área verde ser pública, é notória a pouca preocupação com a qualidade do espaço. Constata-se, em geral, a falta de critérios estéticos e funcionais que determinam e qualificam os espaços verdes, ignorando Brasília como cidade-parque”, opina o arquiteto e paisagista Daniel Mendes, do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal (CAU-DF). Para ele, um dos maiores desafios do paisagismo urbano é exatamente o fato de ser público. Isso porque essas áreas verdes são quase sempre administradas com recursos que sobram de outras atividades consideradas mais importantes.


“Uma árvore de 20 metros de altura transpira 500 litros de água por dia. Não tem nada no mundo que umidifique mais o ar do que uma árvore”, ressalta o professor de engenharia florestal da Universidade de Brasília Manoel Cláudio da Silva Júnior. Para ele, falta atenção da sociedade para a importância da presença de árvores em perímetro urbano. O verde transmite bem-estar psicológico, mantém a permeabilidade do solo e reduz a poluição do ar. Estudo da Universidade de Illinois publicado em 2001 relaciona a quantidade de verde e o contato com a natureza à diminuição de surtos de violência.


A maior quantidade de árvores é ainda forte aliada contra o aquecimento global. Em Berlim, capital da Alemanha, a média de temperatura no verão caiu três graus depois de uma política de plantio de árvores. Por aqui, a quantidade de área verde por habitante é quatro vezes maior do que a recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) — são 120 m² por habitante no Distrito Federal, em média. Mas é a má distribuição que impede a percepção dos benefícios. Cidades como Santa Maria, Samambaia e Itapoã têm baixíssima ou nenhuma arborização, além de estruturas que dificultam um possível plantio.


O engenheiro florestal Manoel Cláudio afirma 
que é preciso conscientizar a população: 
'Não tem nada no mundo que umidifique 
mais o ar do que uma árvore' (Vinícius Santa Rosa/Encontro/D.A Press)
O engenheiro florestal Manoel Cláudio
afirma que é preciso conscientizar a
população: "Não tem nada no mundo
que umidifique mais o ar do que uma
árvore"


Isso porque, nas poucas áreas disponíveis, estão as tubulações subterrâneas para passagem de água e outros serviços que não podem dividir espaço com raízes de árvores, como explica o diretor do Departamento de Parques e Jardins da Novacap, Rômulo Ervilha. Ele ressalta, no entanto, que há uma percepção errada sobre a falta de arborização em determinadas áreas do DF. Isso porque, com a mudança, nas últimas décadas, de valorização de espécies nativas do cerrado, muitas das árvores plantadas demoram a crescer ou mesmo jamais atingirão o tamanho da vegetação exótica muito comum no Plano Piloto.


“A tendência, nos últimos 15 anos, foi valorizar árvores típicas do cerrado porque elas têm maior chance de adaptação, além de ser interessante valorizar aquilo que temos na região”, explica o diretor. A política é bem diversa da adotada na construção de Brasília. Na época da inauguração, em 1960, era surpreendentemente raro encontrar uma árvore do cerrado na cidade. A escolha pelo plantio de espécies exóticas se deu por dois motivos, acreditam especialistas. Primeiramente, pela necessidade do plantio rápido, na última hora. As mudas usadas foram todas aquelas encontradas nos estoques da região e das capitais Belo Horizone e Rio de Janeiro. Em sua maioria, estavam disponíveis espécimes da mata atlântica ou mesmo de fora do Brasil, como o flamboyant, árvore nativa da africana ilha de Madagascar.


Outro motivo para a escolha de árvores alheias ao cerrado foi o preconceito. Por muito tempo, ele era visto como feio se comparado a outros biomas brasileiros. Além da má avaliação, o desconhecimento das espécies locais dificultava o plantio de árvores nativas. Infelizmente, o uso de mudas exóticas levou a problemas. Seis anos depois da inauguração, milhares de árvores morreram num espaço curto de tempo por conta da não adaptação ao clima e ao solo. O caso virou assunto na cidade e levou a população a ficar preocupada. Foi então que o movimento pelo uso de espécies do cerrado começou a crescer. “Um incentivo importante foi o uso de plantas nativas do Brasil que Burlemarx havia iniciado ainda nos anos 1930. Antes disso, ninguém no país via nossas espécies como particularmente belas”, conta a engenheira florestal e paisagista Roberta Lima, professora de meio ambiente e paisagismo.


 

Um dos empecilhos para manter uma boa arborização em cidades é a dificuldade de manutenção. Árvores necessitam de acompanhamento especializado. Se malcuidadas, ficam doentes e morrem. Além da perda da planta, uma árvore sem vida pode se tornar um perigo, cair em área com pessoas e construções. No caso das saudáveis, o crescimento desenfreado pode trazer transtornos. Raízes podem afetar estruturas subterrâneas, ocupar pistas e calçadas. Galhos atingem casas e fiações. Não são poucas as características necessárias para uma planta se adaptar ao meio urbano. Ela precisa ter crescimento médio a rápido, para escapar das depredações e poder fornecer sombra; tem de ser resistente a pragas e doenças; não ser tóxica.


Além disso, é preciso que cada espécime seja plantado em boa distância de edifícios, para que alcance a população, mas fique longe de fiação aérea e subterrânea. A questão estética deve sempre ser levada em consideração, porque afeta diretamente a qualidade de vida dos habitantes e a percepção da importância do verde. O professor Manoel Cláudio, no entanto, ressalta que a regra deve ser sempre a tentativa de conciliação da existência da árvore com o que está ao seu redor, em vez de apenas retirá-la do local. “A população precisa ser mais sensível para a importância da alta concentração de árvores em perímetro urbano”, diz.


Algumas pessoas já reconhecem essa importância. Os passeios da estudante Claudia Boaventura e seu cachorro ganham em qualidade e sombra graças à arborização das quadras 111 Sul e 112 Sul. Para ela, a cidade é um exemplo de arborização, mas falta educação às pessoas para fazerem bom uso dessas áreas. Ela acredita que os cuidados com o verde deveriam ser compartilhados com todos a partir de medidas simples, como o recolhimento das fezes dos animais de estimação.


O jornaleiro Lourivaldo Marques vive em Brasília há 55 anos. Ao longo desse tempo, poucos ousaram questionar seu amor pelas árvores da cidade. Uma das espécies que plantou ele mesmo em 1963, um fícus italiano, vive ao lado de sua banca de jornal. Com cuidados diários, Lourivaldo esculpiu um portal no tronco da árvore. Para ele, manter uma cidade arborizada é de uma importância enorme. “Atrai pássaros e traz mais felicidade para o dia a dia”, explica.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017