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Conexão Brasília

Brasilienses frequentes em voos que saem direto da capital para destinos internacionais dão dicas para aproveitar cinco cidades, fugindo do roteiro turístico clássico

Jéssica Germano - Redação Publicação:20/11/2014 12:00Atualização:20/11/2014 13:25

Na visita a Lisboa, os bondes amarelinhos 
atravessam a 
tradicional rua 
Augusta: usar o 
transporte permite 
ver a cidade 
de outro jeito (Luís Tajes/CB/DA Press)
Na visita a Lisboa, os bondes amarelinhos atravessam a tradicional rua Augusta: usar o transporte permite ver a cidade de outro jeito
Ele já é o segundo maior aeroporto em movimento de passageiros do país e o terceiro em relação a trechos internacionais. Nada menos que 18 milhões de passageiros terão passado pelos saguões do Aeroporto Juscelino Kubitschek até o fim do ano. Atualmente, há voos diretos para seis destinos: Buenos Aires, Paris, Cidade do Panamá, Lisboa, Miami e Atlanta, transformando Brasília num importante ponto de partida.


“Hoje, nós somos um rub doméstico, nos conectamos com qualquer cidade do país”, explica o diretor comercial da Inframérica, Daniel Ketchibachian. Representante da empresa, que há dois anos recebeu a concessão para administrar o aeroporto JK por 25 anos, ele conta que o foco agora, após a reforma que investiu R$ 1,2 bilhão no terminal, é transformá-lo em destaque no âmbito internacional. E isso não deve demorar.


Com a inauguração de um voo direto para Punta Cana, agora em novembro, um para Orlando, nos EUA, no primeiro semestre de 2015, e negociações a todo vapor com companhias aéreas que levam a Madri, Cancún e Nova York, o projeto é chegar a 1,5 milhão de passageiros internacionais – hoje, são 600 mil. “Nós queremos consolidar Brasília como um rub internacional, e desfazer a necessidade de ter de ir até Guarulhos ou Galeão, que são aeroportos muito mais cheios”, almeja Ketchibachian.


Cinco moradores de Brasília que carregam na mala o espírito de viajante contam o que leva cada um a fazer (e refazer) os trechos diretos já existentes. E as razões vão muito além do passeio ao topo da Torre Eiffel ou aos outlets de compras da Flórida.

 

 

 (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)

 

A tradição já é sólida: pelo menos uma vez por ano, o voo para qualquer viagem de férias para a Europa tem como porta de entrada e saída Lisboa. Isso porque, desde 2009, quando esteve na capital portuguesa pela primeira vez, Sydney Maciel criou um vínculo com o país de Camões e Fernando Pessoa, e garante que a cidade sempre o surpreende.


Ao todo, já são sete visitas. “Ou eu vou e tento descobrir algo novo, que está fora do roteirão, ou vou para matar a saudade de coisas que já se tornaram memórias afetivas.” Na segunda categoria, está tomar um licor feito de ginja, fruta conhecida pelos brasileiros como amarena. “Há vários lugares em Lisboa vendendo, mas um dos mais tradicionais fica perto da Praça do Rossio”, destaca o funcionário público. A Ginjinha é o nome do estabelecimento eleito por Maciel, que tem uma fachada informal e está sempre cheio de gente em pé, entre locais e visitantes, bebendo o drinque. “Bem próximo dali, fica o Café Nicola, onde se pode sentar a uma mesa, de frente para a praça, tomando o seu imperial geladinho, avistando a fachada do Castelo de São Jorge”, completa, usando o termo pelo qual os portugueses se referem ao chope em Lisboa. “E, logo embaixo, fica o prédio onde viveu Eça de Queiroz. Nem que seja de passagem, eu paro por ali.”


Para se locomover pela cidade marcada por escadarias e ladeiras, o também pós-graduado em turismo indica um passeio pelos bondes. “Ele não é turístico, mas tem um trajeto no centro em que se pode fazer um percurso bem tradicional e se esquivar de uma boa caminhada em subida”, sugere. O passeio acaba sendo uma boa escolha para conhecer ruas mais fechadas, em que dificilmente se percorreria a pé, e onde ônibus grandes e do estilo sighseeing, de turismo, não passam.


Segundo o visitante, Lisboa também é dona de um agito particular durante a noite. “Um detalhe especial do Bairro Alto é a boemia. Fica um bar do lado do outro e as pessoas, especialmente na primavera, do lado de fora, conversando”, descreve. “Geralmente, todo mundo se encontra lá antes de ir para alguma balada, e é esse astral da vida noturna, de estar na rua na parte quente do ano, que encanta.”

 

 

 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
 

 

A primeira vez em que pisou na cidade conhecida como o paraíso das compras foi aos 6 anos, no roteiro clássico de uma viagem à Disney com a família. Vinte anos depois, Camila Veloso já perdeu as contas de quantas vezes desembarcou em South Beach. “Só este ano eu já fui três vezes”, conta. Uma quarta ida está programada para este fim de ano. “Cada vez que eu vou, conheço algo diferente, então não canso”, justifica.


Fã de baladas, boa gastronomia e design, a empresária de 26 anos ainda volta com a mala cheia, resultado dos preços convidativos, mas afirma que os melhores lugares de Miami passam longe do circuito da famosa rua Ocean Drive e dos shoppings Aventura e Sawgrass. A melhor praia, segundo Camila, é a Hollywood Beach, que fica um pouco mais afastada do centro. “Há uma base de restaurantes no calçadão. É um diferencial em Miami”, destaca. Entre as opções de restaurante, uma tornou-se tradição. “Las Vacas Gordas é um restaurante argentino que, para mim, tem a melhor carne da face da Terra”, descreve.

 

“Quando eu estou em Miami, sempre no primeiro dia eu tenho de almoçar lá.” Mesmo quando está em Brasília, Camila costuma acompanhar toda a programação noturna de Miami por meio de um aplicativo americano no celular, o Applauze. Foi por meio dele que chegou a uma das boates mais disputadas atualmente, a Bamboo Miami. “É a minha preferida: é a mais bonita, abre tarde, termina tarde, tem fila na porta, é difícil de entrar, só DJ famoso toca”, comenta, empolgada.


Entre muitas andanças, elegeu a área preferida: o Miami District Design. “Eu gosto muito de ir às lojinhas de lá. É um complexo, com uma atrás da outra, e é tudo barato. São peças diferentes, com uma pegada mais hipster”, conta. Próximo dali, Camila indica um passeio pelo bairro de Wynwood Walls, um reduto artístico, com muros grafitados e galerias descoladas. “É relativamente novo, mas é muito legal.”

 

 

 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)

 

Há oito anos, os ares da capital argentina foram trocados pelo da brasileira, mas, pelo menos uma vez por ano, Pablo André volta à cidade natal, principalmente para acompanhar o movimento gastronômico no país. Chef de cozinha, professor de gastronomia e sócio-proprietário do Laika Café, no Lago Sul, as primeiras sugestões que dá para quem vai visitar Buenos Aires estão sempre relacionadas à boa comida. “Se comparado com Brasília, o cenário gastronômico de lá está bem mais avançado”, observa.


Mais próximo à variedade encontrada no Rio de Janeiro, André conta que uma ida ao país vizinho pede alguns clássicos. Caso do Café El Tortoni. “Não pode não conhecer. Tem mais de 100 anos.” Lá, a boa pedida recai sobre o chocolate quente acompanhado de churros, dupla já tradicional na casa. Conhecida pela qualidade das carnes, ir a uma churrascaria em Buenos Aires também entra no hall de visitas indispensáveis. “Algumas são mais requintadas que outras, mas todas servem carne de excelente qualidade”, garante o chef. Ele destaca a La Cabrera. “Está entre os 50 melhores restaurantes da América Latina e tem um toque mais moderno de parrilla, com acompanhamentos.”


Apesar de menos famosa, André diz que a pizza é outro ponto forte na culinária hermana. Ele sugere a pizzaria El Cuartito. “Tem de pedir a fugazzeta”, recomenda, citando o recheio de cebola. Perguntado se a receita é parecida com a da brasileira, ele compara: “A massa é um pouco mais grossa e a muçarela, completamente diferente. Todos os laticínios de lá são diferentes, a qualidade é melhor e isso se sobressai no sabor”.


Fator que aparece também nos chamados helados, extremamente populares em Buenos Aires. “O argentino dispensa a sobremesa porque ele vai querer um sorvete”, frisa André. “Na Un‘Altra Volta, o que eu mais gosto é o doce de leite”, assume.


Aos turistas de primeira viagem, André dá uma dica importante. “O principal problema são os táxis e o dinheiro falso”, alerta. “O transporte público chega a todos os lugares, por metrô, por trem ou por ônibus. Uma sugestão é usar um desses meios para ir até os Bosques de Palermo. São vários parques integrados e é um lugar muito bonito”, sugere André.

 

 

 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)

 

A quantidade de passaportes e carimbos logo entrega a fama de viajante. E ele não esconde. O promoter Tiago Correia está frequentemente em trânsito e, até por isso, carrega a característica de unir grupos de amigos para viagens animadas. A mais recente foi um roteiro pela América Central, que começou pelo Panamá e seguiu por Equador e Colômbia, com 17 pessoas.


Da parada estratégica na capital conhecida pelos preços baixos e o canal que liga Atlântico e Pacífico, Correia trouxe boas referências e recomendações, principalmente, para quem quer ir para outros destinos e tem a opção de escolher o aeroporto da Cidade do Panamá como ponto de mediação. “O aeroporto de lá virou realmente um grande centro de conexão”, comenta, citando a localização estratégica, que liga cidades tanto da América do Sul quanto do Norte. Para quem pretende seguir viagem, Correia indica pelo menos duas noites de estadia.


Conhecida também pelos arranha-céus na orla da capital, o promoter recomenda a hospedagem em um dos hotéis com esse perfil. No Trump Ocean Club, ele teve a experiência de ficar em uma estrutura similar a uma existente em Dubai. “É um hotel que tem uma torre comercial ao lado e um cassino no térreo. Então, dentro do complexo, já existe uma infinidade de coisas para fazer”, aponta. Com bom café da manhã e quartos amplos, Correia destaca ainda a vista que o empreendimento proporciona. “A região tem um pouco de Caribe. A água não é 100% cristalina, mas ela já tem uma coloração diferente da brasileira.” A 15 minutos de caminhada dali, fica o Multiplaza Mall, um dos mais famosos centros de compras do país. “Um shopping onde se encontram desde produtos locais até lojas americanas, que normalmente só se veem nos Estados Unidos. Além de todas as grifes internacionais: Dior, Chanel, Louis Vuitton”, lista o promoter. Os preços, segundo ele, assemelham-se bastante aos encontrados nos países de origem dos produtos. Correia conta que encontrou o mesmo sapato que havia comprado em uma grife francesa em Brasília, pouco antes de viajar. “Com uma diferença: em Brasília, havia uma cor; lá, oito.”


De acordo com o viajante, o custo-benefício aparece também em bons restaurantes. Para um jantar, o restaurante Bucaneros surge como sugestão de destaque. “Os mariscos, os pescados, são de excelente qualidade e o restaurante tem uma decoração colonial bem típica.” Para acompanhar, um vinho francês. “Nós tomamos um Châteauneuf-du-Pape, com um preço excelente”, sugere.

 

 

 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)

 

A paixão pela gastronomia não é recente, e sempre marcou os encontros semanais com amigos, quando se encarregava de preparar todo o cardápio. Com boa desenvoltura e espaço frequente para viagens na agenda, casar novos destinos e sabores acabou sendo algo natural para o jornalista e blogueiro Rodrigo Caetano.


Responsável pelo portal Gastronomix, ele já reúne um guia com dicas – sobretudo de lugares para comer – de mais de 150 cidades no mundo, além de postar no Instagram (@rodrigocaetano) todas as receitas que experimenta. “A comida é o prato principal, mas eu tenho a música, as conversas que são trocadas à mesa, os passeios, a parte dos vinhos”, explica.


Com o hábito de viajar ao exterior cerca de quatro vezes por ano, Paris, com sua famosa veia culinária e ruas charmosas, acabou se tornando um destino recorrente. Já foram seis visitas à Cidade Luz. “Da primeira vez, há aquela ansiedade de conhecer tudo, querer ver o Louvre todo em um dia”, reconhece. “Hoje, eu já tenho certa experiência de chegar a um lugar mais específico, um restaurante escondidinho, conhecer o chef que está servindo um menu fresco”, compara.


Ávido por ler e reunir o máximo de informações possíveis sobre o lugar que irá visitar, ele mantém uma lista atualizada de sugestões.  Atualmente, uma vedete é o choux à la créme. “É uma espécie de profiterole, que parece uma carolina, com um creme dentro”, explica, recomendando as versões com vários complementos da pâtisserie Popelini. Outra casa que destaca é o restaurante Racines. “O menu muda diariamente, então eles pegam um quadro-negro, com o cardápio, e colocam na sua frente para que escolha”, instrui. Com ambiente despojado e vinhos a preços justos, o lugar serve menu completo, com entrada, prato principal e sobremesa, a 39 euros, e fica na Passage Des Panoramas, entre ruas que encantam pelo charme.


Sempre arriscando-se na cozinha, Caetano não perde também a oportunidade de visitar alguns empórios para comprar bons produtos, como azeites, temperos e o clássico foie gras.


A queijaria Pascal Trotté é parada obrigatória, principalmente antes de algum passeio pelo bairro de Montmartre ou pelo Jardim de Luxemburgo. “São dois lugares batidos, mas eu sempre tenho de ir”, confessa.

 

 

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017