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Nas telas | José João Ribeiro »

Bichos engaiolados e soltos

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:20/11/2014 15:19

Cena de Relatos Selvagens, de Damián Szifron: o filme engloba seis curtas-metragens eletrizantes (Divulgação)
Cena de Relatos Selvagens, de Damián Szifron: o filme engloba seis curtas-metragens eletrizantes
O longa-metragem Relatos Selvagens (Relatos Salvajes), compilação de curtas, dirigido pelo argentino Damián Szifrón, é um filmaço de encher a vista. Com produção dos irmãos Almodóvar, Pedro e Agustín, além do empenho de sua produtora, a El Deseo, o filme mereceu entrar na disputa pela Palma de Ouro no Festival de Cannes. O diretor filmou seis histórias como curtas-metragens, com tramas distintas, mas que têm em comum o limite da tolerância dos personagens, a violência, alcançando níveis extremos e o sabor da vingança.


Nesse bem-sucedido exercício, o hermano Szifrón consegue nos prender em todas as  narrativas. Interessante pontuar que todos nós, em algum momento, dependendo das circunstâncias, estamos sujeitos a perder a compostura. Uma grande sacada do cineasta vem exatamente daí: nos créditos iniciais, Relatos Selvagens  lança fotos e closes de animais, não muito distintos das atitudes escolhidas pelos personagens dessa coprodução Argentina/Espanha.


Os seis episódios são excelentes. No primeiro, Pasternak, a história se desenrola dentro de um avião. De conversa em conversa, os passageiros e a tripulação descobrem que conhecem um tal Pasternak, vítima de bullying ou de atos de hostilidade por parte de todos, sem exceção, em algum momento de suas vidas. O que começa como uma curiosa coincidência encerra-se como uma trama diabólica de vingança. Na segunda história, Las Ratas, uma doce garçonete de um posto de beira de estrada, reconhece, no restaurante vazio, um cliente desprezível, que arruinou a vida de toda a sua família no passado. A partir do choque, começa uma discussão, entre a moça e uma truculenta e sádica cozinheira, sobre se as batatas fritas devem ser servidas (ou não) com chumbinho para matar ratos. Para fechar a primeira parte do filme, o terceiro enredo, El Más Fuerte, retrata a briga de dois motoristas machões que se estranham em uma rodovia deserta. Com certeza, o mais engraçado, bem executado e absurdo de todo o filme. Impossível não gargalhar.


Na quarta empreitada, o sabor especial da presença do titã argentino Ricardo Darín, sem dúvidas, o melhor ator do cinema latino-americano. No curta Bombita, um engenheiro notável e competente não suporta a burra burocracia estatal, que faz com que seu carro seja rebocado muitas vezes. Mesmo com semelhanças indisfarçáveis com Michael Douglas em Um Dia de Fúria (1993), é sempre um prazer assistir à autenticidade do nosso representante máximo continental, o brilhante Ricardo Darín, que esnoba Hollywood.


La Propuesta é o quinto segmento de Relatos Selvagens. Um filhinho de papai riquíssimo atropela e mata uma grávida. Com a insistência da mulher, o poderoso empresário aciona seu advogado para convencer o velho caseiro a assumir a culpa, livrando o menino da prisão. Nas tratativas, com muito dinheiro em jogo, a ganância encobre qualquer traço de lealdade e compaixão.
E, para encerrar com perfeição o longa-metragem, Hasta que La Muerte nos Separe é a sequência de uma grande e nababesca festa de casamento em que a noiva tem a infelicidade de descobrir quem é a amante de seu novíssimo marido. Uma esbórnia banhada a sangue que resume todo o capricho e o impacto de Relatos Selvagens.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017