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Arquitetura | Sustentabilidade »

Era uma casa muito engraçada

Conheça ambientes que têm teto, paredes, chão e banheiro idênticos às residências convencionais, porém são construídos com material 100% sustentável e pouco impacto no meio ambiente

Bruna Sensêve - Redação Publicação:25/11/2014 12:00Atualização:25/11/2014 13:40

Casa contêiner no Setor Habitacional Tororó: em dois, meses os cômodos foram perfeitamente moldados e a estrutura foi assentada em alicerces de concreto (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Casa contêiner no Setor Habitacional Tororó: em dois, meses os cômodos foram perfeitamente moldados e a estrutura foi assentada em alicerces de concreto
Em vez de tijolo, cimento e concreto, paredes feitas de sacos de areia, bambu e contêineres reaproveitados. A bioconstrução consiste em edificações nas quais a preocupação ecológica está presente desde sua concepção até a ocupação em si. O impacto no meio ambiente deve ser reduzido ao mínimo, buscando o reaproveitamento de materiais e uso dos recursos disponíveis localmente. Porém, esqueça aquele aspecto “bicho-grilo” que as soluções de moradias sustentáveis imprimiram até então. Aqui, o bambu é trabalhado e transformado em uma imitação perfeita de “madeira ecológica”. O barro consolidado, ensacado ou apenas moldado dá forma a paredes e depois passa por revestimento e pintura. No final, nada parece, mas é sustentável.


Eduardo Rocha, diretor do Instituto de Permacultura: Organização, Ecovilas e Meio Ambiente (Ipoema), explica que grande parte das técnicas usadas pela permacultura – como chama o método de planejamento e execução de ocupações humanas sustentáveis – utiliza o barro cru e algum tipo de “malha” que faça a sustentação e fixação do barro (essa malha é como um alicerce ou um suporte que pode ser de qualquer material desde ferro à madeira velha).


A engenheira civil Elisandra Medeiros desen-volveu um tijolo a partir de resíduos: cinza de casca de arroz, cinzas de lenha e lodo originado do tratamento de água (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
A engenheira civil Elisandra Medeiros desen-
volveu um tijolo a partir de resíduos: cinza
de casca de arroz, cinzas de lenha e lodo
originado do tratamento de água
“No começo, usávamos ferro, hoje usamos madeira velha que é mais conhecida como pau a pique. Primeiro são fixados os pilares da casa, a malha e, em seguida, a parede é preenchida com barro cru.” Areia, argila, palha e água se misturam para formar uma massa chamada cob. Ela é usada para esculpir a parede e partir de uma fundação, em uma peça única. As paredes de uma casa de cob têm geralmente cerca 24 centímetros de espessura e as janelas são correspondentemente profundas, dando uma aparência interna característica. Segundo Eduardo Rocha, as grossas barreiras fornecem uma massa térmica excelente para se aquecer no inverno e refrescar o verão.


A técnica é bem parecida com outra, chamada adobe, comum no México e no sudoeste dos Estados Unidos, mas implica o uso dessa massa para a formação de blocos, como tijolos. Se o processo inicialmente pode levar a imaginar que essas estruturas não têm a resistência necessária para a sustentação de uma casa inteira, a história diz o contrário. O equipamento tem uma vida útil longa, mesmo em climas chuvosos. Para se ter uma ideia, o adobe é um dos materiais de construção mais antigos da história e foi usado em civilizações no Egito e na Mesopotâmia. A estrutura mais antiga do mundo em adobe é a pequena cidade iraniana de Bam, considerada Patrimônio Mundial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).


'Com a permacultura, usamos o barro 
do próprio local 
e o tempo de confecção 
é ba-sicamente 
o mesmo de uma casa normal', diz Eduardo Rocha, diretor do Ipoema
"Com a permacultura, usamos o barro do
próprio local e o tempo de confecção é ba-
sicamente o mesmo de uma casa normal",
diz Eduardo Rocha, diretor do Ipoema
A construção data de pelo menos 500 a.C., foi habitada até 1850 e só veio a ruir após um grave terremoto em 2003. Monumentos, residências e igrejas de adobe estão espalhadas por todo o globo. Somente a industrialização do século XIX foi a responsável pelo abandono dessa técnica, que passou a ser reservada àqueles com menos recursos disponíveis. No entanto, atualmente é possível perceber um rompimento dessa visão, com um novo olhar sobre uma arquitetura vernacular, em que são empregados materiais e recursos do próprio ambiente em que a edificação será levantada. As vantagens são grandes, como o baixo custo, o conforto térmico e a rapidez de preparação dos tijolos.


Eduardo explica que a opção é mais ecológica porque o barro não passa pelo processo de queima industrial ,como acontece em uma olaria comum. “Queimam madeira, normalmente, de desmatamento, a mão de obra é semiescrava, sem contar a poluição atmosférica, os custos de transporte. Com a permacultura, usamos o barro do próprio local e o tempo de confecção é basicamente o mesmo de uma casa normal.”  Eduardo conta que ele mesmo mora em uma casa construída com uma técnica similar a essa, conhecida como superadobe. A diferença é que os tijolos são modulados em um saco de areia que, empilhados, formam as paredes. Essa estratégia foi desenvolvida pelo iraniano Nader Khalili, em 1984 (lleia mais ao lado).


Exemplo de construção sustentável com superadobe, pau a pique, cob e bambu (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Exemplo de construção sustentável com superadobe, pau a pique, cob e bambu
Mais moderna e atual é a casa do publicitário Robson de Oliveira Paiva. No começo, a residência destoou das outras moradias em seu conjunto no Setor Habitacional Tororó. As enormes casas de alvenaria em nada combinavam com a tímida residência de um andar e paredes de ferro. Há quase dois anos, Robson mora em uma casa-contêiner. Nesse período, viu sua ideia ser aprovada pelos vizinhos e até copiada por três deles. O primeiro investimento imobiliário dele foi em um apartamento em Águas Claras, mas a vontade de viver em uma casa fez com que deixasse o ambiente urbano e buscasse um terreno em condomínio fechado. “Eu queria algo que me deixasse com uma obra rápida, ecologicamente correta e economicamente viável. Pesquisei e conheci os contêineres, muito usados nos Estados Unidos e na Europa”, diz.


Quando morou no exterior, Robson teve a oportunidade de entrar em diversas casas construídas com o material. O contêiner marítimo usado para o transporte de cargas entre continentes tem uma vida útil de aproximadamente dez anos. Depois disso é descartado. “Ao comprar o contêiner você aproveita de maneira útil algo que apenas ia se acumular.”


O professor Jaime Almeida e o arquiteto e pesquisador André Crispim, ambos do Centro de Pesquisa e Aplicação de Bambu da Facul-dade de Arquitetura e Urbanismo da UnB: tecnologia aliada ao material natural (Vinícius Santa Rosa / Encontro / DA Press)
O professor Jaime Almeida e o arquiteto e
pesquisador André Crispim, ambos do Centro
de Pesquisa e Aplicação de Bambu da Facul-
dade de Arquitetura e Urbanismo da UnB:
tecnologia aliada ao material natural
Ele conta que a construção foi rápida: “Só precisei de um serralheiro para abrir as portas e janelas e um arquiteto para um pequeno projeto da casa.” Em dois meses, os cômodos foram perfeitamente moldados e a estrutura, assentada em alicerces de concreto. Esses são alguns dos cuidados necessários para evitar o enferrujamento e degradação.


O revestimento das paredes para esconder a carcaça de ferro é uma opção. Porém, Robson gosta do aspecto industrial que o esqueleto dos contêineres reserva ao ambiente e escolheu deixar expostas as identificações das caixas. “É inusitado pensar que estou morando em um contêiner que viajou o mundo. Sabe-se lá por quantos portos ele parou e andou. Gosto dessa sensação.” Sem o revestimento, no entanto, o ambiente pode ficar um pouco mais quente que o desejado. A situação pode ser contornada com enormes janelas para a circulação de ar, varandas e telhas ecológicas que cobrem toda a superfície da casa. “Por isso eu deixei um espaço entre o telhado e o teto que esfria a estrutura”, conta.


Uma matéria-prima para quem busca opções sustentáveis, mas torce o nariz para paredes de barro ou de metal, é o bambu. Esqueça o visual rústico e praiano de tubos da planta amarrados com cipó e, acredite: o vegetal pode ser usado de maneira idêntica à madeira. O trabalho do professor Jaime Almeida, diretor do Centro de Pesquisa e Aplicação de Bambu da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (CPAB/UnB), consiste na industrialização do bambu. “Transformamos o bambu cilíndrico em peças retangulares ou quadradas. Desenvolvemos um processo industrial que veio da China, chamado de bambu laminado colado. Transformamos o bambu em ripa, as ripas são coladas umas às outras e, então, resulta em uma peça igualzinha à madeira.”


A partir das ripas, são fabricados móveis, estruturas para a construção e objetos de decoração. O processo abre espaço para uma maior utilização do bambu, uma vez que, por ser cilíndrico, tem seu uso limitado. “Evitamos o uso de materiais com impacto ambiental. Aliamos a tecnologia, a ciência e o material natural.” O professor considera que para a produção da madeira é preciso uma área extensa de plantação. Já a industrialização do bambu pode ser descentralizada para a agricultura familiar, garantindo um baixo impacto ambiental e alto rendimento social. Junto ao professor, o arquiteto e pesquisador do CPAB André Crispim já conseguiu aplicar o processo industrial de aproveitamento do bambu em móveis e esqueletos de construções.


Mas se a resistência para usar outro tipo de material na composição das paredes for muita, a engenheira civil Elisandra Medeiros tem ainda outra opção. Sua tese de doutorado defendida na UnB confirmou a possibilidade de usar os resíduos resultantes do tratamento de água, do preparo de arroz e até da própria indústria de tijolos para compor uma “argila” que, após um processo de aquecimento, pode ser usada como blocos estruturais e revestimentos para paredes e edifícios. “Já morava em Brasília há algum tempo e busquei na região a utilização de resíduos locais para que fosse possível viabilizar o reaproveitamento por empresas daqui.” A escolha foi por três tipos mais viáveis: cinza de casca de arroz, cinzas de lenha e o lodo originado do tratamento de água. Segundo ela, mesmo que haja um uso reaproveitável desses compostos, a maior parte do material vai para o lixo.


O desafio seguinte foi descobrir se os compostos, juntos, seriam capazes de reproduzir a baixa absorção e a resistência exigidas para a produção de tijolos e revestimentos. “Incorporei os resíduos junto à argila em diversas proporções para verificar qual teria o melhor resultado e três opções chegaram a uma qualidade desejável. É preciso ter cuidado porque, quando é colocado muito resíduo, o material perde a qualidade.” Ela chegou a uma proporção de 25% de resíduo adicionado à mistura de argila. Ainda que comprovadamente viável, a proposta da engenheira ainda não é adotada por indústrias da construção civil. Mas, como se sabe, quando a necessidade bate à porta, a oportunidade pode sorrir da janela.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017