..
  • (0) Comentários
  • Votação:
  • Compartilhe:

Pet | Adoção »

Presente para dois

Neste fim de ano, muitos animais passarão o primeiro Natal em um lar. Quem os tira da condição de abandono garante que a adoção traz mais alegrias ao dono que ao pet

Paloma Oliveto - Publicação:21/12/2014 10:00Atualização:21/12/2014 10:50

Silvia Gomes, com seu cachorro Fred, achado na rua: 'Parece que na hora que ele me olhou sabia que seria meu' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Silvia Gomes, com seu cachorro Fred, achado na rua: "Parece que na hora que ele me olhou sabia que seria meu"
O presente de Natal de Edilene Bastos Matos chegou com 10 meses de antecedência. Em 2 de fevereiro, a militar voltava do passeio com seu pinscher, no Cruzeiro, quando um carro passou a toda velocidade e, da janela, foram atiçadas duas bolinhas de pelo assustadas. “Fiquei tão desesperada que nem anotei a placa”, conta. A forma brusca e violenta como os irmãos Susy e Zeus foram dispensados pelo dono anterior poderia ser o prenúncio de uma tragédia.

Mas essa é uma história de amor e superação, com final feliz. Resgatados imediatamente, os cãezinhos ganharam uma família. E a de Edilene cresceu.


A Secretaria de Saúde estima que pelo menos 20 mil animais vagueiam, sozinhos, pelo Distrito Federal. Todos os dias, cerca de 10 cães e gatos são deixados no canil da Gerência de Controle de Zoonoses pelos próprios donos. Porém, recolhidos das ruas, adotados em feiras ou doados por ONGs, muitos recebem uma segunda chance. Neste Natal, em vez de abandono e maus-tratos, vão ganhar carinho, conforto e, com certeza, petiscos. Quem os acolheu garante: não há presente melhor que a companhia desses anjos de quatro patas.


Embora apaixonada por animais, Edilene não imaginava que terminaria 2014 com três cães em casa. O pinscher está com ela há 11 anos e, até então, era o reizinho do lar. Tico acompanhava a militar no dia em que a dupla de vira-latas mestiços com bull terrier foi arremessada pela janela. Naquele momento, a moradora do Cruzeiro Velho não pensou em nada. Pegou os dois, acionou a vizinha e amiga Magda Ushôa, que depois virou “madrinha” dos cachorros, e correu para um hospital veterinário.


Karla de Carvalho Machado com o cão 'sor-ridente' Francisco: 'Ele mudou minha vida para melhor. É muito amor' (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Karla de Carvalho Machado com o cão "sor-
ridente" Francisco: "Ele mudou minha vida
para melhor. É muito amor"
O macho, Zeus, chegou quase sem vida. “A médica falou que só um milagre. Ele estava sem os sinais vitais e teve duas crises de hipotermia. Eu orava muito, pedia muito a Deus. O milagre aconteceu”, recorda. Durante 15 dias, os cãezinhos ficaram internados. Eram pele e osso e estavam com suspeita de cinomose — o que não se confirmou. Na época, deviam ter apenas 2 meses, pelos cálculos dos médicos. Mesmo sem a intenção de adotá-los, Edilene os visitava frequentemente. O coração apertava na hora de ir embora: a fêmea, Suzy, chorava demais. “Parecia que ela tinha reconhecido que eu tinha resgatado os dois”, diz a militar.


O amor falou mais alto. Terminado o período de internação, os irmãozinhos foram para casa com Edilene. Como todo filhote, destruíram tudo que viram pela frente. A ciumenta Suzy já atacou o pequeno Tico e, para melhorar as brigas entre irmãos, os caçulinhas da família fizeram aula com um adestrador. Nada disso, contudo, é um problema. Para Edilene, evangélica, Suzy e Zeus estavam predestinados a ficar com ela. Naquele 2 de fevereiro, ela nem queria passear. “Fui mais para agradar minha mãe, que estava insistindo para eu ir. O passeio já tinha acabado quando jogaram os cachorros pela janela do carro. Eu tinha de estar naquele local, naquele momento. Para mim, eles foram um presente de Deus.”


O destino também parece ter dado uma forcinha para o simpático Francisco, um cachorrão que, sem se dar conta de seu porte avantajado, gosta de cumprimentar todo mundo na rua aos pulos, com um detalhe apaixonante: abrindo um enorme sorriso. Muita alegria para um animal que já sofreu bastante, antes de ser resgatado pela professora Karla de Carvalho Machado.


Até Francisco aparecer em sua vida, ela se definia como “gateira”. Tem três, sendo dois resgatados da rua e um recolhido ainda filhote. Um dia, a moradora do Guará viu, no Facebook, um pedido de ajuda. Um cachorro pequeno e muito magro havia sido visto no Riacho Fundo, em péssimas condições de saúde. Como trabalha lá, Karla resolveu ajudar. Mandou uma mensagem para a pessoa que postou a história e, antes de esperar resposta, foi até o local do anúncio procurar o animal. Voltou para casa sem encontrá-lo.


Para o alívio da professora, o cãozinho havia sido resgatado, informou a moça que havia publicado o post na rede social. Mas, uma semana depois, eis que o mesmo cachorro ressurge na tela do computador de Karla. Dessa vez, o pedido de resgate dizia que ele estava no Guará, justamente onde ela mora.

 

André Luis Gomes Moreira, com o filho, Caio, e os gatos Catarina e Tony: 'Adotar é acolher, cuidar e amar por uma vida toda' (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
André Luis Gomes Moreira, com o filho, Caio, e os gatos Catarina e Tony: "Adotar é acolher, cuidar e amar por uma vida toda"
“Descobrimos que a pessoa que o adotou também morava no Guará e o colocou na rua porque a mãe dela não quis o cachorro”, conta. “Uma voluntária o resgatou e o levou ao veterinário. Ele estava com o rabo necrosado, muito anêmico e com doença de carrapato. Ficou 50 dias internado, foi um tratamento muito caro, precisou de transfusão…”, relembra.


A trajetória do cachorrinho, já batizado de Francisco, foi acompanhada dia a dia por Karla, pelo Facebook. Ela fez contribuições para ajudar no tratamento do cão e decidiu visitá-lo no hospital veterinário. “Fui lá, passeei com ele e fiquei apaixonada. Era tão magro que não andava direito”, conta a professora. Mesmo tendo três gatos e dividindo o apartamento com o namorado, que ainda não sabia de sua intenção, Karla estava decidida a adotar Francisco. Com uma viagem marcada para Nova York, primeiro o abrigou por uma semana, como lar temporário. As voluntárias que o resgataram contaram que, no caminho do hospital para a futura casa, ele já deu mostras de sua característica única: foi sorrindo por todo o trajeto.


Na volta da viagem, no fim de março, Franciso foi adotado em definitivo. Para a surpresa de Karla, o porte médio calculado pelos veterinários se converteu em grande. “Ele é lindo, fortão, enorme, desengonçado. Adora gente, quer ‘falar’ com todo mundo”, derrete-se a “mãe”. O namorado de Karla também não resistiu aos encantos do cão sorridente. “Eu adaptei minha rotina à dele. Francisco mudou tudo na minha vida. Já destruiu um sofá, as poltronas estão em vias de destruição… Tenho de passear com ele todos os dias, ele pula nos vizinhos… Estou até procurando uma casa. Coloquei meu apartamento à venda”, revela a professora que, quando se mudar, pretende adotar um irmãozinho canino para Francisco. “Ele mudou minha vida para melhor. É muito amor. Francisco estava predestinado”, acredita.


A surpresa também faz parte da história de Fred. Quando o cão apareceu na vida da operadora de supermercado Silvia Gomes Costa, ela não tinha intenção de adotar um animal. No ano passado, Babi, a poodle que fez companhia a Silvia por uma década, morreu. “Falei que nunca mais teria outro cachorro. Mas, aí, apareceu o Fred”, conta.


Há quatro meses, ela estava no trabalho quando um colega chegou com um cãozinho no colo. Ele estava tremendo e parecia assustado. “Ele devia ter uns 2 meses. Não resisti àquela carinha me olhando, querendo um dono. Parece que na hora que ele me olhou sabia que seria meu”, diz Silvia. O cachorro passou o dia no mercado. “Não ia colocá-lo na rua de novo, de jeito nenhum.” Naquele dia, ela chegou em casa, no Guará, acompanhada. Levava Fred a tiracolo.


Magda Uchoa, vizinha e madrinha dos cachorros de Edilene Bastos: Suzy e Zeus foram jogados de um carro em movimento (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Magda Uchoa, vizinha e madrinha dos cachorros de Edilene Bastos: Suzy e Zeus foram jogados de um carro em movimento
O cachorro não estranhou a nova rotina. “Ficou todo feliz aqui”, revela Silvia. Os filhos dela, de 15 e 23 anos, adoraram a novidade e se dão muito bem com o danado Fred, cuja especialidade é devorar chinelos. À noite, ele pula da caminha para a cama da “mãe”, que não se importa de dividir as cobertas com o “caçula”. “Quando vejo um bichinho na rua, dá vontade de pegar. Infelizmente, não tem como pegar todos. Acho que não devia ter esse negócio de vender animal. Há tantos por aí que precisam de um lar”, reflete.


A mesma opinião tem o professor universitário André Luís Gomes Moreira. “Adotar é acolher, cuidar e amar por uma vida toda. Para quem já decidiu por ter um animalzinho, penso ser o caminho mais viável”, diz o dono de dois gatos, Tony e Catarina. André sempre teve cachorros, mas,  com um ritmo de vida muito corrido, começou a considerar a adoção de um gatinho. O filho, Caio, de 9 anos, havia sugerido que o pai aumentasse a família com um pet.
Em junho do ano passado, estimulado por uma amiga, André se candidatou a acolher Tony, um animal adulto que, depois de fugir de casa, foi resgatado por uma ONG.


A primeira adoção do “sialata” — ele tem traços de siamês, mas é mestiço — não acabou bem. A irmã do tutor já tinha uma gata, que o rejeitou. André, então, se inscreveu e foi selecionado para ficar com o bichano. A falta de prática com gatinhos não se revelou um empecilho: ele se adaptou muito bem ao apartamento e ganhou vários brinquedos para se entreter.


Mesmo assim, para Tony não ficar só, o professor decidiu adotar uma irmãzinha para ele. Neste ano, chegou Catarina, que aguardava por um lar em uma pet shop. A mesma amiga que havia falado de Tony para André viu a gatinha e mandou a foto pela por WhatsApp. “Hoje eles brincam o dia todo juntos. Ter gato passeando pela casa traz muita tranquilidade, pois eles são espontâneos, sutis e, surpreendentemente para mim, muito carinhosos”, avalia André.

COMENTÁRIOS
Os comentários estão sob a responsabilidade do autor.

EDIÇÃO 55 | Julho de 2017