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Nas Telas | José João Ribeiro »

Mike Nichols: o teatro filmado

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:23/12/2014 13:00Atualização:23/12/2014 13:26
 (Divulgação)
No ano de 2014, saíram de cena artistas atuantes, que deixarão um imenso vazio na melhor da produção cinematográfica mundial. Do cerebral e subversivo Philip Seymour Hoffman, passando pela sofisticada e discreta dama Lauren Bacall, até o inesquecível e histriônico Robin Williams, o cinema contabiliza desaparecimentos precoces de pessoas que foram determinantes na evolução de sua história. Sem esquecer, é claro, a morte do nosso mestre documentarista Eduardo Coutinho, referência maior para todos os amantes e discípulos do gênero.
 
Foi, no entanto, em 19 de novembro que a ausência mais representativa aconteceu, quando partiu o diretor Mike Nichols, um gênio que perseguia a delicadeza e a força das palavras, selecionando sua obra pela junção de clássicos do teatro, adaptados com muito êxito para a película.
 
Nascido na Alemanha assombrada pelo ideário nazista, Mike Nichols foi para os Estados Unidos ainda muito menino. O bom gosto e a sensibilidade o fizeram, desde cedo, um homem assumidamente inclinado para as artes. Sua produção inteira, sempre acima de qualquer média, nunca foi seduzida por pirotecnias visuais e tecnológicas. Na contramão, seus filmes têm a marca dos conflitos cotidianos, das comédias de costumes, sempre com o forte componente de diálogos afiados e a sabedoria toda própria na condução dos atores, na maioria as grandes estrelas, em cena.
 
Na estreia, logo de cara, aos 35 anos, enfrentou a hercúlea tarefa de domar o ego gigante das feras Elizabeth Taylor e Richard Burton, na brilhante adaptação da peça de Edward Albee, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, um dos maiores sucessos do teatro no século passado. Uma aparição melhor, impossível, com a indicação recorde de 13 prêmios para a cerimônia dos Oscars em 1967 e a consagração da diva Taylor, premiada em uma das maiores interpretações de todos os tempos. Criou-se o padrão classe A do teatro contemporâneo filmado.
 
Na sequência, Mike Nichols conquista o Oscar pela direção do revolucionário A Primeira Noite de um Homem, que também ganhou os palcos da Broadway. Um Dustin Hoffman novinho já insinuava a sua gloriosa carreira, enquanto era seduzido por uma irresistível e ácida Anne Bancroft, na pele da personagem símbolo Mrs. Robinson. A comédia, que sempre pontua em listas de melhores obras do cinema, já imprimia um padrão simples e de recorte impecável a ser desenvolvido pelo mestre.
 
Na década de 1980, o cineasta trabalha com grandes estrelas do quilate de Meryl Streep, Jack Nicholson, Matthew Broderick, Christopher Walken, Harrison Ford. Com este último, retoma o sucesso com a deliciosa comédia Uma Secretária de Futuro, no duelo das lindas Sigourney Weaver e Melanie Griffith. Recebeu a quarta e merecida indicação como melhor diretor a Mike Nichols pela Academia.
No confortável plano das fontes teatrais, a sensacional e subestimada refilmagem de A Gaiola das Loucas, com Robin Williams, Nathan Lane e um impagável Gene Hackman travestido de Barbara Bush. No filme posterior, Mike Nichols aceita adaptar o polêmico best-seller Primary Colors e escala John Travolta para ser o presidente Clinton, terror das secretárias e estagiárias, em Segredos do Poder. Em 2004, Mike Nichols engata novamente no trilho dos diálogos cortantes em Closer. Foi seu último grande momento em Hollywood.
 
Mike, sempre um gentleman, deixará saudades com seu sofisticado estilo. Na Broadway (A Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, montagem de 2012), na televisão (Angels in America, para a HBO, premiado com o Emmy) e em toda a sua contribuição para o cinema, Mike Nichols foi um grande professor do começo ao fim.
 
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017