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Onde o crime não compensa

Park Way, Candangolândia, Jardim Botânico e Lago Norte são algumas das regiões onde o número de delitos registrados é menor. Para especialistas, questão da segurança depende de estrutura, planejamento urbanístico e envolvimento da comunidade

Dominique Lima - Redação Publicação:19/02/2015 14:11Atualização:19/02/2015 15:25

O Lago Norte é uma das regiões com reduzido número de crimes: área de lazer muito usadas e poucas rotas de fuga (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
O Lago Norte é uma das regiões com reduzido número de crimes: área de lazer muito usadas e poucas rotas de fuga
Logo na entrada da Candangolândia, a praça das bandeiras oferece diversas opções de atividades. Aparelhos para exercício físico, gazebos, campo de futebol. À tarde, é comum encontrar crianças brincando no espaço e adultos fazendo ginástica. A poucos metros do local, numa sexta-feira, uma blitz policial faz a revista de alguns carros. Um dos policiais está fortemente armado. A cidade é uma das regiões com o menor índice absoluto de crimes contra a vida e contra o patrimônio do Distrito Federal. Lá, 714 ocorrências de crimes foram registradas entre 2013 e 2014, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública do DF.


O Lago Norte é outra das regiões com reduzido número de crimes. De dia, a quantidade de pessoas na rua é considerável para uma área residencial. Parques e praças, como a praça das Garças, atraem constantemente pessoas que usufruem desses lugares. Por lá, foram 1.115 crimes nos últimos dois anos. Um passeio pelo Jardim Botânico, outro bairro com baixo índice de insegurança, mostra cenário bem diferente. Fora a pequena região de comércio, a paisagem é composta dos muros e guaritas dos condomínios fechados. A região predominantemente residencial somou 252 crimes de 2013 a 2014. Nesse período, houve queda de 28,6% das ocorrências.


Baixa renda não é sinônimo de insegurança: na Candangolândia, espaços públicos de lazer e comunidade unida quebram a violência (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Baixa renda não é sinônimo de insegurança:
na Candangolândia, espaços públicos de lazer
e comunidade unida quebram a violência
A outra cidade do Distrito Federal que também teve diminuição nos índices de violência nos últimos dois anos foi o Park Way. Área residencial pouco densa, ela divide espaço com reservas ecológicas. A região somou 741 crimes entre 2013 e 2014 e queda de 16,6%.


O que faz um lugar seguro, afinal? É a soma de fatores um tanto complexos. Essas características constroem uma rede de causas e consequências que vai muito além do policiamento das ruas. A estrutura de uma cidade influencia na qualidade de vida, mas também no índice de crimes. Tudo começa no planejamento, segundo especialistas em segurança pública e urbanismo. Políticas sociais também fazem parte da construção de uma cidade segura. E educação é um elemento imprescindível.


A relação entre concentração de renda e segurança, por exemplo, não é tão direta quanto se imagina. Outros elementos entram na equação. “É interessante ver como o desenho de uma cidade aumenta ou reduz o número de crimes. A facilidade de fuga é um fator importante”, explica o cientista político e pesquisador da UnB Antônio Flávio Testa. Espaços abertos, com opções de rotas, são favoráveis aos crimes. Penínsulas, como o Lago Norte, com poucas saídas, são desfavoráveis. Pouco comércio também diminui drasticamente o número de crimes. Para delitos como furtos e roubos, há predileção entre os criminosos por pequenas lojas, como farmácias e padarias. Essa é uma das explicações para a diferença no número de ocorrências do Lago Norte e Lago Sul, por exemplo.


Feira do Park Way: a interação das pessoas com a cidade também tem forte influência sobre a criminalidade (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Feira do Park Way: a interação das pessoas com a cidade também tem forte influência sobre a criminalidade
A interação das pessoas com a cidade também tem forte influência sobre a criminalidade. Quanto maior a ocupação dos espaços, menos furtos, roubos, atentados contra a vida enfrentam os cidadãos. Parques, praças e áreas verdes com movimento raramente são locais com alta criminalidade. Nesse quesito, a participação do Estado é essencial para criar e manter lugares propícios ao bom uso e seguros. Áreas bem conservadas dão menos chance ao crime. Iluminação adequada, boa pavimentação e vegetação bem cuidada atrapalham a ação criminosa. Por essa razão, o administrador regional do Lago Norte, Marcos Woortman, ressalta que o Estado precisa estar presente não apenas por meio da polícia. “A violência está ligada à cultura. Uma ruptura dos laços comunitários leva à perda do vínculo de solidariedade”, diz.


Em análise similar, o administrador regional do Lago Sul, Aldenir Paraguassu, responsável também pela região do Jardim Botânico, relaciona o movimento de uma cidade viva com a diminuição dos crimes: “A efervescência urbana é igual a maior segurança”.  Outra questão de planejamento que afeta o índice de crimes é a diminuição dos muros. Apesar de parecer contraditório, estatísticas mostram que a estratégia é mais eficiente do que cercar as residências. “Um vizinho atento, que note movimentação estranha e seja capaz de avisar a polícia inibe a ação criminosa muito mais do que uma residência toda fechada e escondida”, diz o chefe da Diretoria de Avaliação, Fiscalização e Análise da Secretaria de Segurança Pública do DF, major Célio Roberto Dias Dutra.


Essa constatação reforça a ideia de que a relação mais próxima entre vizinhos, e entre os cidadãos e sua cidade, de maneira geral, contribui com a segurança. É o caso da Candangolândia, cidade com baixa concentração de renda – média de 1,6 salário mínimo por habitante – se comparada com as demais no topo do ranking dos menores números de crimes. Os laços dos moradores com a região é uma das causas do bom resultado, de acordo com o administrador do local, Roosevelt Vilela. São muitos os que moram por lá há três, quatro, cinco décadas. As pessoas se conhecem pelo nome, conversam nas ruas e nos comércios, criando uma relação de respeito e, também, de certo controle.


Região de condomínios: o Jardim Botânico registrou queda no índice de violência  (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Região de condomínios: o Jardim Botânico
registrou queda no índice de violência
Diminuir os muros, ocupar espaços públicos, interagir com a cidade. Tudo isso tem forte influência na redução do crime. Mas o trabalho não acaba por aí. Políticas sociais e educação são fundamentais. Quando se estuda a dinâmica da vida de um criminoso, essa lógica se torna mais clara.


O combate ao crime começa na atenção a crianças e jovens, segundo Dutra, porque é nessa fase vulnerável que se entra para o ciclo da criminalidade. A vida atribulada de uma mãe solteira e com poucos recursos é apontada pelo major e pesquisador como uma das maiores causas do problema. Sem ter tempo para se dedicar aos filhos e sem dinheiro para lhes oferecer atividades construtivas, eles passam muito tempo sozinhos na rua, onde encontram todo tipo de oportunidade, inclusive para praticar crimes. O apoio do Estado e da sociedade a essas mulheres e famílias é essencial para o combate ao crime.


Geralmente quem comete crimes começa praticando pequenos delitos, muitas vezes incentivado pelo consumo de drogas. E uma vez dentro, é difícil sair, como explica o professor Antônio Testa, que trabalhou com a conscientização de jovens sobre os riscos das drogas. Para ele, não há melhora da segurança sem políticas públicas vinculadas à educação. São necessárias mudanças profundas e concretas para que as perspectivas de um futuro em que o crime pare de crescer se tornem realidade. Ele acredita que é preciso uma definição política das responsabilidades de Estado e sociedade. No curto prazo, Testa sugere uma discussão aberta do GDF com a sociedade civil organizada – federações, organizações, escolas – e famílias sobre a melhor maneira de cuidar e oferecer oportunidades para jovens e adolescentes.

 

Para o especialista em segurança pú-blica Antônio Testa, a segurança está ligada a muitos fatores: regiões com pouco comércio e poucas rotas de fu-ga, por exemplo, são mais seguras (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Para o especialista em segurança pú-
blica Antônio Testa, a segurança está
ligada a muitos fatores: regiões com
pouco comércio e poucas rotas de fu-
ga, por exemplo, são mais seguras
O consumo e o tráfico de drogas são outro ponto importante no circuito da violência. A necessidade de conseguir dinheiro para manter o vício leva ao alto índice de delitos no Distrito Federal, e no Brasil, de maneira geral, como mostram estudos sobre crimes contra o patrimônio. Essa é a maior motivação para praticantes de furtos, roubos, sequestro relâmpago.


A lentidão da Justiça para penalizar os praticantes de pequenos delitos é outro complicador, nas palavras do major Dutra. É comum para a polícia assistir a um criminoso ser preso por mais de um delito enquanto aguarda a definição de sua pena. E a tendência normal da prática de crimes é que a natureza do delito se torne cada vez mais grave, levando ao ciclo de liberdade e prática de crimes intercalados por tempo de prisão sem reabilitação.


Ainda em relação ao sistema de justiça e sua relação com índices de crimes, Roberto Dutra aponta a despenalização do consumo de drogas como um dos maiores causadores do aumento da criminalidade. “Há um sentimento de impunidade que deixa o criminoso confortável”, explica. Para além do papel do Estado, no entanto, especialistas lembram que há responsabilidades individuais na construção de uma sociedade mais segura. A terceirização impessoal de todo o esforço para a administração pública é um equívoco, segundo Antonio Testa. “Movimento individual é essencial para a transformação”, diz.

 

 

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017