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ENTREVISTA | Leany lemos »

No olho do furacão

À frente de um dos órgãos mais estratégicos do governo, a nova secretária de Planejamento, Orçamento e Gestão do DF fala do desafio de lidar com pressões para definir quais projetos devem ser considerados prioritários em uma administração atolada em dívidas

Tereza Rodrigues - Publicação:19/02/2015 15:01Atualização:23/02/2015 11:22

 (Fotos: Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
O assunto pode até não estar na pauta, mas as contas em aberto deixadas por Agnelo Queiroz (PT) não escapam a praticamente nenhuma reunião que a secretária Leany Lemos tem feito desde que foi convidada a assumir a pasta de Planejamento, Orçamento e Gestão pelo governador Rodrigo Rollemberg (PSB). Ao chegar ao gabinete, onde concedeu entrevista a Encontro Brasília, ela automaticamente desligou o ar condicionado enquanto dizia “precisamos economizar”.


Conter grandes e pequenas despesas é regra. E tudo é contabilizado em um governo que pretende, por exemplo, diminuir em 30% o uso de papel nas repartições públicas, economizar combustível e suspender  passagens aéreas e diárias por pelo menos três meses.


Diante do desafio de quitar dívidas que passam por salários de servidores e chegam a contratos com terceirizadas e empreiteiras, ela mira a construção de uma gestão para resultados visando resolver problemas que transitam também entre agendas de eventos esportivos e culturais, invasões de áreas públicas e outras decisões que estão agora nas mãos de um núcleo denominado Governança-DF (composto por Leany e outras cinco pessoas para dar diretrizes gerais ao governo. Elas têm autoridade de mexer no orçamento de todas as pastas do GDF).


Dona de um currículo invejável, a nova secretária lista vantagens e desvantagens em não ter experiência com o Poder Executivo e diz conseguir enxergar na prática o que aprendeu na teoria em seus longos anos de estudos. Falante, Leany gosta de contar histórias e demonstra que tem no seu histórico familiar a crença no esforço pessoal e o gosto por desafios.


Mesmo entusiasmada por estar trabalhando pela sua cidade, ela não esconde o cansaço físico pelo excesso de trabalho nos primeiros dias na nova função. Sensível e emotiva, diz que a vida é feita de fases e que acredita que logo vai conseguir voltar a fazer seus programas preferidos em Brasília, como correr no parque, nas entrequadras da Asa Sul, ir ao CCBB, ao cinema, frequentar restaurantes, cafés e livrarias. “Por enquanto, nas horas vagas eu estou gostando mesmo é de dormir”, diz.

A senhora ocupa uma das funções mais importantes do governo. Mesmo conhecendo o governador há pouco tempo, rapidamente conquistou a confiança dele. Como foi esse processo?
Eu conheci o Rodrigo há três anos, quando ainda morava nos Estados Unidos e vim a Brasília em um mês de janeiro para fazer uma pesquisa de campo do meu pós-doutorado. Um amigo em comum quis me indicar para chefe de gabinete e deu meu número de telefone para ele. Eu já sabia que só voltaria ao Brasil em setembro e não me encaixaria na vaga. Mesmo assim fui conversar e tivemos muita empatia. Acho que temos personalidades parecidas. Quando voltei, liguei o celular e em 15 minutos recebi uma ligação agendando uma reunião com ele. Inacreditável. Eu não sabia para qual cargo iria quando voltasse para o Senado, estava de licença sem vencimentos para estudar e recebi vários convites, mas acabei preferindo ir para a comissão da qual o Rodrigo era presidente, a de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle. Foi um trabalho intenso, com Código Florestal, Rio +20 e tudo mais, muito acelerado, mas foi muito bom. Depois fui trabalhar na liderança do PSB no Senado.

E como chegou ao cargo de secretária?
Como a bancada do partido era pequena, o Rodrigo como líder absorvia muito. Eu fiquei acompanhando de perto o diagnóstico do DF que ele fazia como senador e acabei participando da formação do plano de governo no que era possível, no que era razoável. Vi o processo acontecer. Até tirei férias para participar da campanha. Um colega de trabalho fala sempre que o Rodrigo é um mago, que todo mundo trabalha com ele até meia-noite e sai feliz. Mas acho que é porque é uma pessoa muito bacana, horizontal, ele ouve. E isso vai nos ganhando. E aí fui para a transição e em seguida veio o convite para compor o governo. Fiquei lisonjeada, mas é também uma responsabilidade muito grande. Não vamos enganar ninguém, não tenho experiência de Executivo. É tudo novo para nós, inclusive para o governador.

E isso é bom?
Tem as vantagens e as desvantagens.  Quando se tem experiência e já sabe o que se quer, ajuda muito. Mas não ter experiência significa não ter vícios, não ter uma única forma de pensar. E chegar assim me permite experimentar mais. Sinto segurança porque estou na composição de um secretariado que tem experiência. É uma mistura boa. Temos um perfil muito técnico para essa área da governança. O Colombini (Leonardo Mauricio Colombini, secretário de Fazenda), por exemplo, é fantástico, tem uma trajetória de 40 anos de carreira, uma experiência enorme. Isso nos ajuda muito a tomar decisões conjuntas. Há equilíbrio.

O que considera mais difícil nessa nova função?
Eu acho que a coisa mais difícil é realmente dar conta de olhar o todo e ao mesmo tempo administrar os problemas do dia a dia. É um grande desafio. Porque problemas surgem a toda hora, mas é preciso que não percamos o foco de que estamos governando para mais tempo e de que é preciso também tomar iniciativas, tomar decisões que afetam em longo prazo. Acho que não é só um desafio da Secretaria de Planejamento, mas de todas as secretarias.

O cansaço físico da equipe de frente do governo está visível. Em algum momento bateu um arrependimento por ter aceitado o desafio?
Que estou arrependida eu não digo (risos), porque estou entusiasmada, mas é muito demandante. Estou em um gabinete de crise. Vejo pouco o meu  filho que mora comigo e tenho de me esforçar para conseguir almoçar com meus pais aos domingos, ou seja, não trabalhar das 12h às 15h uma vez por semana. Mas sabia que seria assim nesse começo. Vinha acompanhando e enxergava as dificuldades que estariam por vir. Uns 90% dos problemas que enfrentamos agora estavam antecipados: dificuldade nos pagamentos dos servidores, essa situação com os sindicatos, contratos não honrados, serviços prestados sem contrato, etc. Já fazia parte de um cenário, porque o Rodrigo venceu as eleições graças ao fracasso de um governo. O Agnelo foi muito rejeitado, rejeitado no primeiro turno. A mensagem da sociedade foi “não queremos mais esse governo”. Mesmo sem saber de todas as informações que estão surgindo agora. Vemos nos serviços, especialmente na saúde, que estão insatisfeitos os profissionais e os usuários. É um desafio muito grande, que não vai se resolver do dia para a noite. Então por um bom tempo nós vamos conviver com uma situação na cidade que é resultado de más escolhas. Quando se fazem más escolhas na política pública, algumas consequências são imediatas, outras são de médio ou longo prazo.

 (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Dá para enxergar bem essa diferença?

Eu enxergo. Acho que nem todo mundo consegue, porque é difícil distinguir, mas a teoria ajuda muito nessas horas. Sou da área de política comparada e tenho uma cabeça “analítica”. Costumo comparar a cidade de agora com a de outros tempos; o DF com outras unidades da federação; o DF e o Brasil em relação a outros lugares do mundo, etc. Então sei que o que acontece aqui acontece em outros lugares. E para sair do sufoco é preciso fazer a intervenção certa, na hora certa.

E a senhora acha que isso é possível?
Acho que é possível fazer. É difícil, porque não depende só da vontade do governo. Como vivemos uma democracia, a vontade do governo é uma das vontades – e ela está ali como uma ação legítima a partir do que a sociedade escolheu; eleito, o governo tem legitimidade –, mas existem muitos interesses. Interesses corporativos, interesses de grupos econômicos, interesses dispersos... são todos bem-vindos, mas o que acontece no final é o resultado desse embate. É possível fazer sim, mas é uma construção.

Será complicado cumprir a promessa de campanha de fazer um governo austero?
Não acho que vai ser complicado. Já temos demonstrado isso como um princípio de governo. É um exemplo que vem de cima. A própria medida que foi tomada sobre a licitação dos alimentos para a residência oficial de Águas Claras mostra. Havia uma licitação anual para alimentos de R$ 2,5 milhões que foi reduzida para R$ 200 mil. Isso prova que este é um governo que olha para a questão da austeridade, especialmente neste momento que estamos vivendo. Mas acho que em todos os momentos a austeridade é importante.

 (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Há no governo Rollemberg a intenção de tornar o orçamento público mais transparente, acessível e interessante à população?

De fato, percebemos que orçamento é uma matéria árida, algo que às vezes é difícil explicar. Um dos compromissos do governador é abrir mais, dar transparência aos números, e isso temos tentado fazer no dia a dia. Temos um projeto que é de gestão colaborativa. Queremos implementar um gabinete digital e dar ferramentas tecnológicas que permitem que o cidadão acesse o orçamento de forma mais amigável. Isso é possível, está em construção.

A criação da Governança-DF foi outro passo inédito no GDF. Como se pensou este projeto?
O grupo é composto pelo governador, pelos secretários de Fazenda, de Administração e Desburocratização, pelo chefe da Casa Civil, pelo procurador-geral do DF e por mim. A frequên-%u2028cia prevista no decreto é de que a Governança se reúna a cada 15 dias. O problema é que, com essa situação que enfrentamos hoje, praticamente todos os dias nos reunimos para dar os direcionamentos necessários. O grupo foi criado por duas razões principais. A primeira é dar diretrizes mais gerais ao governo. Diretrizes, claro, em consonância com os demais secretários, em discussões estratégicas. E foi também para que pudéssemos ter uma centralidade das decisões que têm impacto financeiro e orçamentário. Nós percebemos que um dos problemas da gestão anterior foi justamente que essas decisões eram tomadas de forma desalinhada, e isso gerou um grande desequilíbrio.

Muitos brasilienses estão ainda sem entender como o governo anterior conseguiu deixar tantos problemas financeiros de uma gestão para a outra. Nada poderia ser feito para evitar que isso acontecesse?

Desde o primeiro ano o Agnelo estava governando muito mal. Ele foi aumentando o passivo de um ano para o outro. Recebeu um governo no azul, com dinheiro em caixa. Foi reduzindo e no segundo ano já entrou no vermelho. No terceiro só piorou. Isso é tudo publicado, tem relatórios de execução, mas interpretar um balanço contábil é uma arte. Do ponto de vista de acompanhamento, existem indicadores, mas eu acho que talvez tenha faltado informação para a sociedade. Não só na imprensa, mas é que na própria Câmara Legislativa faltou oposição. Ele construiu a maioria com mais de 20 deputados. Uma enorme maioria. Aí as coisas não aparecem mesmo...  Agora, com um oposição marcando forte, tudo o que fizermos (o governo Rollemberg), vai aparecer. Acho saudável.

 (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
A senhora fala de Brasília com brilho nos olhos. Como é a sua história com a cidade?

Meu pai veio da Paraíba em 1958, é de uma família muito humilde e tem dois anos de escolaridade. Ele trabalhou na construção do Conjunto Nacional, do Banco Central, do Hospital de Brasília... Foi assistente de pedreiro no Congresso (emociona-se). Quando eu entrei no Senado como servidora, foi muito legal. Meu pai é uma pessoa muito lutadora, inteligente, autodidata. Lê jornais, revisas, sabe tudo de política. Graças a essa natureza, ele conseguiu ascender, construir uma vida. Quando trouxe minha mãe – os dois são primos... aquela coisa de nordestino que se casa em família –, ela já chegou com duas crianças, uma filha biológica e uma adotiva. Eu nasci aqui e tenho ainda outra irmã, mais nova que eu. Moramos no Núcleo Bandeirante, em Brasilândia, Taguatinga e depois na Asa Sul. Eles compraram um terreno no Lago Sul quando era tudo baratinho, na década de 1970, e até hoje moram na mesma casa, há 50 anos. Acho que vem dos meus pais essa coisa aguerrida de querer estudar, trabalhar, acreditar no esforço pessoal.

Não por acaso, sua trajetória acadêmica foi cheia de percalços, não é?

Sim, sempre trabalhei e estudei. Eu fiquei grávida quando cursava letras na UnB e logo fiz concursos. Cheguei a trabalhar no Judiciário, mas não era o que eu queria. Sempre tive muitos interesses. Como fiz tradução, tive de estudar muita coisa. Sociologia, economia e direito, por exemplo, fazem parte da formação. Além de linguística e literatura, claro. Tive uma formação abrangente e fui lutando. Passo isso para os meus filhos porque sempre achei importante, além da formação escolar, a formação cosmopolita. Quando fui morar fora do Brasil para estudar, levei todos os três. Tinha vontade de mostrar a eles que vivemos numa cidade, mas, para além, vivemos  no mundo. Foi ótimo. z

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017