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Quintal tamanho família

São 500 hectares de verde, mas apenas 10% da área do Jardim Botânico de Brasília está aberta ao público. É o suficiente para usufruir da natureza, conhecer espécies, fazer piquenique e compartilhar com amigos um dos locais mais queridos e aprazíveis da cidade

Cecília Garcia - Redação Publicação:19/02/2015 15:09Atualização:17/03/2015 16:34

O brasiliense já escolheu seu lugar preferido para tomar café da manhã: o Jardim Botânico (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
O brasiliense já escolheu seu lugar preferido para tomar café da manhã: o Jardim Botânico
Ao atravessar os portões do Jardim Botânico de Brasília (JBB) começa uma experiência diferente. A trilha a ser seguida para chegar às principais áreas de visitação é de tirar o fôlego. Tanto que a velocidade da via, de 40 km/h, deveria ser menor, para se aproveitar melhor a vista das árvores, que criam quase um túnel. Esse caminho, por si só, já vale a visita. Correr ou caminhar com fones de ouvido lá é quase um pecado. O barulho das folhas, do vento e dos pássaros compõe uma trilha sonora para o exercício matinal.


A área de visitação pública tem atraído cada vez mais pessoas nas manhãs de terça a domingo. Isso é facilmente percebido pela quantidade de famílias e grupos de amigos reunidos na área de piquenique, primeiro local de repouso após a trilha. Ali, mesas e coretos misturam-se a brinquedos. A quantidade de crianças frequentadoras da área é impressionante. Super-homens, Batmans e Homens-Aranhas se unem a princesas de todos os reinos em brincadeiras à moda antiga. Longe de toda a tecnologia de informação. Aliás, o uso de celulares e tablets é basicamente para o registro do momento.


Para os adultos, o jardim japonês é o mais atraente: meditação, ensaios fotográficos e pedidos de casamento (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Para os adultos, o jardim japonês é o mais
atraente: meditação, ensaios fotográficos
e pedidos de casamento
Os pequenos se divertem tanto que algumas famílias da cidade começaram a fazer as festinhas de aniversário no local. É o caso de Davi. Com uma mesa cheia de guloseimas típicas de piqueniques, a comemoração dos 5 anos de idade foi no JBB.  “Ele que pediu”, conta a mãe, Raquel Zamberlan. E os pais concordaram prontamente. “Nós gostamos do local, da natureza”, complementa o pai, Jorge Faria. Enquanto os pais arrumavam os últimos detalhes para receber os amigos, Davi brincava com a gaiola-labirinto.


Caminhando mais um pouco se chega à outra área repleta de visitantes. Nas dependências do Jardim há um bistrô famoso por seu café da manhã servido em mantas no chão, como se fossem mesas. O espaço é uma boa alternativa para quem esqueceu a canga, mas quer aproveitar o ambiente de piquenique. Mas é bom chegar cedo, porque rapidamente o local fica lotado.


Contudo, o entretenimento oferecido aos visitantes não é só relacionado à comida. Há o Jardim Evolutivo, com espécies diferentes como vitórias-régias em um laguinho com peixes. Há também uma antiga casa de chá. Apesar de vazia, permite aos visitantes uma bela vista. Mais à frente há o orquidário com espécies instaladas em troncos e galhos de árvores, espécies terrestres, rupestres e aéreas.


Biblioteca da Natureza, repleta de livros educativos: há também quadro-negro e insetos dissecados  (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Biblioteca da Natureza, repleta de livros educativos: há também quadro-negro e insetos dissecados
Muito procurada por crianças é a Biblioteca da Natureza, repleta de livros educativos, quadro-negro e insetos dissecados em exposição. Próximo a ela está o jardim sensorial, com mudas de capim-santo, mastruz, ora-pro-nóbis entre outros. Para os adultos, o jardim japonês é o mais atraente. O espaço é usado para meditação, ensaios fotográficos e pedidos de casamento. O JBB conta ainda com um jardim de contemplação, uma unidade de permacultura e uma bioconstrução.  Em todas as áreas há placas informativas e os funcionários do local, inclusive os seguranças, estão sempre dispostos a esclarecer dúvidas dos visitantes. Alguns preferem aproveitar o Jardim para andar de bicicleta. Esse é o caso do policial Márcio de Matos. Pela primeira vez no local, trouxe a família toda para um passeio por indicação de amigos. “Estou achando ótimo. É um ambiente bem familiar”, comenta.


O espaço aberto à visitação é apenas uma pequena porção do Jardim Botânico e voltou para o cotidiano do brasiliense com mais força há poucos anos. “Aumentou muito a visitação, mas isso foi um processo. Tivemos de vencer alguns desafios para atrair as pessoas”, explica o diretor executivo do JBB, Jeanitto Sebastião Gentilini Filho. “As coisas foram mudando porque fomos qualificando mais o espaço, criando atrativos. Há um esforço dos jardins botânicos de socializar a informação que é produzida no meio acadêmico.”


Márcio de Matos, com a família no Jardim Botânico: a primeira visita vai render muitas outras (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Márcio de Matos, com a família no Jardim
Botânico: a primeira visita vai render muitas
outras

A ideia inicial de onde se instalaria o JBB era muito diferente. Primeiro, Lucio Costa escolheu colocá-lo onde hoje é o Parque da Cidade. Mas quando foram analisar o local viram que não havia água e tanta diversidade de espécies. Criou-se um grupo para analisar os lugares até a escolha de uma estação experimental florestal, por isso o JBB tem muitos pinos e eucaliptos. Além disso, dentro do Jardim encontram-se todas as nascentes do córrego Cabeça de Veado.


Poucos sabem, mas o Jardim Botânico de Brasília está situado numa categoria institucional que desenvolve pesquisa, tem obrigação de fazer publicações científicas e ainda conta com uma interface muito forte de educação ambiental. Por isso, há as estruturas de visitação pública. O desconhecimento sobre a sua função é um dos motivos que levam muitas pessoas, erroneamente, a colocá-lo na categoria de parque.


Seu espaço total é de 500 hectares. Cinquenta deles destinados à área de visitação e à administração. O restante do espaço é a unidade de conservação, não aberta ao público.


A estrutura do Jardim é diferente. No DF, está vinculado à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do governo local. Também é associado a uma rede nacional de jardins botânicos e se articula a uma rede internacional. O trabalho é amplo. Um deles é o plano de ação dos JB de serem fiéis depositários de coleções botânicas. Os espaços se comprometem a ter em suas instalações coleções de plantas ameaçadas de extinção.


Davi com os pais, Jorge Faria e Raquel Zamberlan: aniversário comemorado em meio à natureza (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Davi com os pais, Jorge Faria e Raquel Zamberlan: aniversário comemorado em meio à natureza
Um dos trabalhos do JBB é trabalhar com coleções botânicas e, com isso, são enquadrados na categoria de museu.  Assim, essas plantas têm registro, informações sobre local onde foram coletadas e curadoria. Um dos locais que realizam esse trabalho é o herbário. Trata-se de uma coleção de plantas desidratadas em estufa para garantir a conservação da maior quantidade de características possíveis das espécies. A atividade de catalogação e conservação é feita pelas mãos habilidosas da técnica em herbário Valdina Ferreira da Paiva e de mais dois integrantes da equipe.


A área guarda em seu arquivo espécies da flora do JBB, do DF, de outros estados, da floresta amazônica e de alguns outros países. Provê informações precisas sobre as plantas e coordenadas georreferenciais do local de coleta. Além disso, conta com uma carpoteca – destinada ao armazenamento de uma coleção de frutos in natura –, uma xiloteca – arquivo de madeiras –, e um cactário. Este, composto em grande parte por doações da família do pesquisador Gilberto Brasil, desaparecido em meados dos anos 2000.


No herbário, por sua estrutura de climatização e conservação, encontra-se a coleção completa do livro Flora brasiliensis produzida no século 19 por Carl Friedrich Philipp von Martius, August Wilhelm Eichler e Ignatz Urban. A obra contém tratamentos taxonômicos de 22.767 espécies reunidos em 15 volumes, divididos em 40 partes.


Há no JBB uma coleção de 3.420 espécies de orquídeas, tanto no orquidário quanto nas dependências do laboratório de pesquisas. A diretora de manejo de recursos naturais, Lílian Breja conta que o espaço receberá doação de espécies pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). Entre as plantas que virão está a “maior orquídea do mundo”, apelido dado à espécie Grammatophyllum speciosum.


No laboratório é realizada grande parte do trabalho de pesquisa do JBB. O espaço conta com uma cozinha onde se preparam as sementes de orquídeas para reprodução in vitro. O próximo passo é a incubação em ambiente com condições ambientais controladas. Dependendo da espécie, pode demorar até cinco anos para que a planta esteja em condição de ser transportada para a estufa, onde há muitas espécies em extinção. Há outra área que abriga mais de 2 mil espécies de orquídeas nativas e híbridas. Nessa parte, ficam as mais sensíveis, que exigem um cuidado maior, diferentemente das expostas no orquidário.


Diretor executivo do Jardim Botânico,Jeanitto Filho: 'Tivemos de vencer alguns desafios para atrair as pessoas' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Diretor executivo do Jardim Botânico,
Jeanitto Filho: "Tivemos de vencer alguns
desafios para atrair as pessoas"
O viveiro, à semelhança, é onde se faz a produção de mudas de árvores. Jacarandá-do-cerrado, ingá-mirim, ipês e cedros são algumas das espécies crescendo no local, mais tarde transportadas para a estufa e depois levadas a sol pleno, antes de serem plantadas na natureza. No viveiro, há ainda um estoque de sementes que chegam por doações, coleta ou licitações. “Coletamos muitas sementes no Eixão. Todo mundo aqui do Jardim que viaja traz sementes”, conta o educador ambiental e funcionário há quase 30 anos do JBB Augusto César Soares.


O Jardim Botânico é um espaço ecológico. Isso faz com que a pesquisa desenvolvida lá não seja só botânica. Precisa ser mais abrangente. Por isso, as Gerências de Preservação e de Monitoramento e Controle realizam projetos de preservação dos animais. A maioria dos projetos envolve identificação, monitoramento, atualização e controle tanto de aves, mamíferos, animais domésticos e outros. Nesse trabalho, já identificaram 18 espécies de serpentes, além de relatos da presença de veados, tamanduás e gatos-do-mato.


Poucos pontos da cidade abrigam tamanha diversidade ecológica e promovem esse tipo de lazer. Mesmo aos fins de semana, quando chega perto do limite de sua capacidade, o que predomina no Jardim Botânico de Brasília é o som da natureza. Os funcionários são poucos, mas a maioria gosta do que faz, e isso é perceptível aos visitantes. As trilhas de bicicleta e a pé, os locais para meditação, a gastronomia, os ambientes para curtir com a família, amigos e até mesmo sozinho são sempre uma boa opção. z

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017