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Cidade-plateia

Habitada por centenas de apaixonados por cinema, Brasília guarda boas histórias com filmes vencedores do Oscar, o maior prêmio no segmento

Jéssica Germano - Redação Publicação:19/02/2015 17:14Atualização:20/02/2015 12:33

A coreógrafa Gisele Santoro, produtora do Seminário Internacional de Dança de Brasília, diz que depois de assistir a Sinfonia de Paris quis dançar profissionalmente (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
A coreógrafa Gisele Santoro, produtora do Seminário Internacional de Dança de Brasília, diz que depois de assistir a Sinfonia de Paris quis dançar profissionalmente
A luz começa a cair, a tela se ilumina e ali, para muitos, a magia começa. Seja com um clássico seja com o blockbuster do momento, a sétima arte carrega a tradição de se destacar entre os meios de entretenimento. No mês em que anuncia os vencedores de sua 87ª edição, o Oscar, invariavelmente, aparece atrelado aos títulos mais comentados e movimenta as rodas de conversa.
A fim de saber o espaço que o cinema ocupa na vida de alguns brasilienses, Encontro Brasília ouviu histórias de figuras que atuam em áreas diversas, mas não deixam de lado as referências e influências que certos longas-metragens tiveram em seus enredos pessoais. No bar revelação da cidade, nos espetáculos de dança ou na música que ecoa pelos eixos, a capital conhecida por sua arquitetura fala também a língua universal dos enquadramentos perfeitos e narrativas marcantes.


“Eu entrava naqueles festivais e ficava a tarde inteira assistindo a três, quatro sessões, um filme atrás do outro”, conta a coreógrafa Gisele Santoro, com um recorte da juventude. Hoje, aos 75 anos, ela acumula um punhado de memórias relacionadas às artes, e a tela grande, segundo ela, é apenas mais uma. À frente de projetos culturais na cidade após ter desenvolvido atividades como musicista, escritora e bailarina, ela mantém o hábito constante de, nas horas vagas, ir ao cinema.


“Eu gosto de tudo”, adianta. “Gosto muito de filme de arte, mas também de ficção científica, filme de ação...”, lista, antes de comentar que, entre os indicados deste ano, já assistiu e adorou A Teoria de Tudo, filmagem sobre a história do físico Stephen Hawking. “Eu acho que o ator está realmente bem”, comenta, referindo-se a Eddie Redmayne, que concorre como melhor ator na premiação.

 

Sua lembrança mais forte, entretanto, aparece com Sinfonia de Paris, um clássico que recebeu a estatueta principal em 1952. “Um musical com Gene Kelly, com a maravilhosa música do (George) Gershwin, excelentes atores e uma bailarina que se tornou uma grande atriz”, resume, fazendo quase uma ficha técnica própria.


Os irmãos José Augusto Junior e Octávio Basso, empresários, ao lado do busto de Corleone: o Paradiso Cine Bar é uma extensão da paixão pela sétima arte (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Os irmãos José Augusto Junior e Octávio Basso, empresários, ao lado do busto de Corleone: o Paradiso Cine Bar é uma extensão da paixão pela sétima arte
Interessada por dança desde muito nova, Gisele guarda como referência afetiva a estreia do longa. “Meu negócio era subir em muro, montar a cavalo em pelo, brincar de mocinho e bandido”, relata a coreógrafa, acrescentando que, por causa disso, a mãe decidiu matriculá-la em aulas de balé para, assim, “tomar jeito de moça”. “E justamente nesse ano foi lançado o Sinfonia”, destaca. “O fato de o filme ter aquela coisa da dança clássica, e ao mesmo tempo o sapateado e também jazzista da música do Gershwin me provocou e me entusiasmou muito.

 

Eu queria dançar como ela, queria participar de um musical, me dedicar”, recorda a ex-bailarina que hoje produz o Seminário Internacional de Dança de Brasília, em sua 25ª edição neste ano. “Juntou tudo: música, dança, Paris... Eu sonhava com aquilo. Sou capaz de vê-lo mil vezes, todo dia”, assume, entusiasmada.


Para o bar dos irmãos José Augusto Junior e Octávio Basso, em parceria com um amigo, o cinema não só serviu de inspiração como acabou se tornando protagonista. Do nome aos pratos e bebidas do cardápio, o Paradiso Cine Bar é uma extensão da paixão pela sétima arte que os sócios compartilham já algum tempo. “Na hora que pensamos em um tema para o negócio, era cinema, definitivamente”, diz Octávio. “É uma coisa universal”, explica Junior.


Hoje empresário, Octávio guarda a lembrança da época em que atuava no teatro e em algumas produções cinematográficas na cidade. “Foi uma das coisas que me trouxe até o Paradiso”, constata, citando um título que marcou essa fase: Crash – No limite. “Eu o vi pela primeira vez em um dos exercícios da nossa companhia de teatro. O diretor passou alguns filmes e pediu para revivermos algumas cenas deles, e o meu foi ele”, lembra. “É um filme que trata de questões pesadíssimas, é muito denso, mas tem alguns pontos que não saem da minha cabeça nunca. Eu penso no filme e me lembro dessa época.”


Já para Junior, foi a história de superação de O Discurso do Rei, vencedor de melhor filme em 2011 que se destacou na lista com mais de 85 obras com melhor estatueta. “Em um momento em que o país precisava que ele demonstrasse confiança para a população, ele superou uma dificuldade pessoal muito grande”, comenta o papel interpretado por Colin Firth. Talvez por isso o filme tenha um prato homônimo no menu de almoço da casa, com uma versão de cordeiro na cerveja preta. Além dele, outros campeões, como o Silêncio dos Inocentes e Quem Quer Ser Um Milionário? estão entre os “longas comestíveis”.


Para Esdras Nogueira, saxofonista da banda Móveis Coloniais de Acaju, a música no cinema é uma coisa fantástica: 'O cinema influencia muito no meu dia a dia' (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Para Esdras Nogueira, saxofonista da banda Móveis Coloniais de Acaju, a música no cinema é uma coisa fantástica: "O cinema influencia muito no meu dia a dia"
Para os dois irmãos, no entanto, O Poderoso Chefão é um clássico atemporal (veja alguns outros na lista de René Sampaio). Tanto que mereceu um busto no andar de cima do bar, além de três drinques exclusivos, um para cada produção. Na carta de bebidas, o Don Vito Corleone (primeiro chefão a se consagrar) aparece em uma leitura de uísque Blue Label, Amaretto, xarope de maçã e suco de limão. “Eu gosto muito”, declara Octávio sobre as produções. “Tem fim de semana que eu assisto aos três.”


Nas partituras ou nas transições de cada cena, música e cinema se entendem. Essa, pelo menos, é a teoria do saxofonista Esdras Nogueira. “São duas coisas que dialogam muito. Inclusive, a música no cinema é uma coisa fantástica: ela ajuda a fazer um filme ou não”, pontua. Um dos integrantes da brasiliense Móveis Coloniais de Acaju, o músico conta que na banda, especialmente, essa relação é muito próxima. No projeto Adoro Couve, de 2010, por exemplo, eles faziam covers de grupos que gostavam e aproveitavam para gravar clipes. “Em cada vídeo a gente buscava uma referência de um cara que a gente gostava muito”, explica, citando exemplos como o cineasta e músico bósnio Emir Kusturica e o diretor americano Quetin Tarantino. “Ter uma banda e buscar identidade, buscar referência, me fez gostar muito de cinema.”


Fã das películas desde criança, o músico guarda a lembrança forte de quando a internet não tinha popularizado ainda o acesso aos filmes em casa e ir ao cinema era algo corriqueiro. No auge das fitas de videocassete, Nogueira frisa facilmente o campeão de assistidas. “Forrest Gump. É o filme que eu mais vi até hoje”, diz. “Acho que ele prende muito a atenção, e foi em uma época em que eu tinha o filme em casa, então era toda hora”, comenta sobre o título protagonizado por Tom Hanks.


Mas é um drama musical, de 1965, que acompanha os relatos mais divertidos em se tratando de cinema na casa do músico. “Minha mãe é viciada em Noviça Rebelde”, diz. “Lá em casa, hoje, está todo mundo adulto, mas, quando a gente era menor, chegava época de fimde ano e ela assistia a esse filme todos os dias”. Segundo ele, a situação ainda hoje é engraçada, especialmente quando seu irmão, um policial formado, entra em cena. “Ele sabe todas as letras das músicas. Ele canta o filme inteiro”, entrega, divertindo-se.


'Você vê uma sinopse simples se transformar em um filme magnífico. Aquela magia da tela grande, do barulho, de emoções em conjunto. Pra mim, nada substitui', diz a cinéfila Margaret Costa (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
"Você vê uma sinopse simples se transformar em um filme magnífico. Aquela magia da tela grande, do barulho, de emoções em conjunto. Pra mim, nada substitui", diz a cinéfila Margaret Costa
E a relação com a cinegrafia não para. Lançado ao público em abril de 2014 e disponibilizado para venda virtualmente no início do mês, o Móveis lançou o documentário musical Mobília em Casa – Móveis Coloniais de Acaju e a Cidade. O longa-metragem, dirigido por José Eduardo Belmonte, mescla músicas do novo álbum da banda com locações brasilienses. “O cinema influencia muito no nosso dia a dia”, conclui. Ele tem em mãos uma listinha com os filmes indicados ao Oscar de 2015 a que pretende assistir. “Este ano eu já tenho o meu favorito: %u2028Birdman. Achei o filme fantástico”, diz.

 

Para a funcionária pública e educadora Margaret Costa, as telonas se tornaram um hobby, mas que merece dedicação. Frequentadora assídua até hoje de uma das poucas videolocadoras existentes na cidade, ela costuma participar de cursos como o de roteiro e história do cinema oferecidos pela Cult. “Era um ritual de todo domingo, com a pipoca ou a balinha, e isso depois virou realmente um vício”, admite, elencando cenários da cidade como o Cine Atlântida, no Conic, e o Cine Márcia, no Conjunto Nacional, para acompanhar as exibições. “Às vezes, você vê uma sinopse simples se transformar em um filme magnífico. Aquela magia da tela grande, do barulho, de emoções em conjunto. Pra mim, nada substitui”, descreve.


Com essa mágica em evidência, Margaret elege dois títulos que representam a sensação diante das telas: Chicago e O Artista. O segundo, em especial. “Afinal de contas, fazer um filme em preto e branco, mudo, em pleno auge da tecnologia no cinema, é genial”, observa. “Para mim, foi o filme mais moderno dos últimos tempos: uma trilha sonora linda, uma fotografia muito bonita, uma atuação brilhante.”


Entre os atuais que disputam o prêmio principal do dia 22, a educadora destaca que O Grande Hotel Budapeste e o polonês Ida lhe chamaram a atenção, mas foi Boyhood: Da Infância à Juventude que conseguiu causar a emoção que espera das grandes histórias. “É muito bacana alguém se dedicar dez anos à filmagem de uma história. E eu acredito que vá levar (como melhor filme)”, aposta. Veja na página 77 algumas produções concorrentes ao prêmio e que, segundo o articulista de Encontro Brasília, José João Ribeiro – levando ou não estatueta – merecem ser vistas.

 

 

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017