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A vida debaixo do bloco

Pesquisa mostra que os pilotis, considerados as grandes varandas do Plano Piloto, já não são tão usados quanto antigamente. Restrições de uso por parte dos condomínios transformam uma antiga área de convivência em local subaproveitado

Leilane Menezes - Colunista Publicação:20/02/2015 15:18Atualização:24/02/2015 11:46

Interação entre concreto e natureza: os pilotis são cenários de memórias cotidianas da maioria dos brasilienses (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Interação entre concreto e natureza: os pilotis são cenários de memórias cotidianas da maioria dos brasilienses
Todo fim de tarde, os raios de sol poente preenchem o espaço vazio debaixo dos pilotis. Basta a luz em tons dourados para pintar a paisagem. É um espetáculo quase sem plateia, graças ao esvaziamento da rotina de estar debaixo do bloco. Há quem diminua o passo e esqueça a pressa para se encantar com a delicadeza da interação entre concreto e natureza, no espaço que é cenário de memórias cotidianas de tantos brasilienses.


A arquiteta Cristina de Oliveira, professora da Universidade de Brasília (UnB), é uma dessas pessoas. Ela olha com admiração para o projeto arquitetônico original dos prédios do Plano Piloto, em especial para os pilotis, estruturas que permitem a entrada da iluminação natural e o livre trânsito de pessoas (para ela, os cercamentos são agressões aos olhos e ao bom senso).


As amigas Camille Chaves, Nathalya Ferreira, Gabriela Dorneles e Camila de Moura: brincadeiras embaixo do bloco, especialmente durante as férias escolares (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
As amigas Camille Chaves, Nathalya Ferreira, Gabriela Dorneles e Camila de Moura: brincadeiras embaixo do bloco, especialmente durante as férias escolares
O encanto da arquiteta somou-se ao conhecimento acadêmico e se transformou em dissertação de mestrado, concluída em 2014, na universidade onde ela trabalha. Cristina optou pela pesquisa de campo, que deu origem ao estudo Debaixo do Bloco: os Pilotis e seu Significado em Brasília. A professora e um grupo de alunos visitaram quase 400 blocos residenciais da capital, cerca de quatro ou cinco prédios de cada bloco das asas Sul e Norte, em busca de respostas. Cristina quis descobrir o que os pilotis proporcionam aos brasilienses, o que representam para os moradores e quais são as principais formas de apropriação. Para isso, foi além da teoria bem elaborada e conversou com quem trabalha, vive e nasceu debaixo do bloco. “Na essência da arquitetura, um espaço não tem sentido se não for usado, eu quis fazer uma leitura e queria muito que ela provasse que esse espaço dos pilotis é capaz de resgatar os atributos sociais das ruas. Os dados levantaram muitas possibilidades”, explica Cristina.


Descobriu-se que 37% dos edifícios instalaram cercas vivas, 54% têm jardins que atrapalham a circulação, 2% têm cercamento de arame, 27% usam grades, 11% têm paredes no meio do caminho e 31% mostraram outros tipos de empecilhos à passagem de pessoas. Há ainda presença de bicicletários (56% dos prédios) e salão de festa (42%), entre outras estruturas. Os pesquisadores constataram também a proibição de muitas atividades nos pilotis, que perante a lei são espaços públicos.


Adriana Melo diz que nunca deixou de brincar com os filhos Leonardo (esq.) e Arthur (dir.) debaixo do bloco: 'Os meninos descem todo dia, e têm liberdade' (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Adriana Melo diz que nunca deixou
de brincar com os filhos Leonardo
(esq.) e Arthur (dir.) debaixo do
bloco: "Os meninos descem todo dia,
e têm liberdade"
Em 86% dos blocos é proibido jogar bola e andar de bicicleta, em 34% não é permitido correr, 32% não permitem namoro debaixo do bloco, 41% não toleram que toquem violão, 57% expulsam quem tentar beber ou fumar nos pilotis, 47% proíbem ouvir música, 25% não deixam que andem com cachorros e 16% não permitem conversas ou reuniões debaixo do bloco. “A utilização dos espaços embaixo do bloco é bastante restrita, considerando a apropriação dos síndicos na voz dos porteiros. Se as pessoas não ocupam um espaço, ele vive abandonado e aí sim se torna propício à violência. A sociedade está entregando o espaço”, lamenta Cristina.


Investigou-se também o que é mais comum acontecer nos pilotis. Entre as respostas mais comuns estão os passeios com crianças pequenas, a circulação de frequentadores da superquadra, os namoros avançados (como descreveram os porteiros), mesmo que proibidos, as brigas de família, assim como os roubos e assaltos. Encontraram também bazares e até exposições de arte nos pilotis. A solidão dos mais velhos ameniza-se ali, ao descer para bater papo na portaria.

 

Descobriu-se a importância da figura do porteiro, muito além de vigilantes, esses se mostraram grandes amigos e protetores, queridos pelas crianças e outros moradores. “Concluímos que o espaço debaixo do bloco, assim como os espaços públicos abertos da cidade, sofre de um esvaziamento urbano. Entretanto, as muitas formas de apropriação encontradas, as diferentes formas de vigilância, as mais bem-intencionadas reformas servem para demonstrar o quanto esse espaço representa na vida dos brasilienses”, afirma Cristina.


A arquiteta Cristina de Oliveira pesquisou o significado dos pilotis em Brasília no seu mestrado: conversas com quem nasceu, cresceu, vive ou trabalha debaixo do bloco (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
A arquiteta Cristina de Oliveira pesquisou o
significado dos pilotis em Brasília no seu
mestrado: conversas com quem nasceu,
cresceu, vive ou trabalha debaixo do bloco
Cercada de peculiaridades, Brasília sustenta o clichê de não ter esquinas ou nomes tradicionais para suas ruas. Talvez por isso tenha criado seu próprio jeito de moldar o convívio entre seus habitantes, uma forma única de morar. “As diferentes apropriações do espaço construído produziram na arquitetura moderna algumas surpresas. Um dos lugares perdidos do urbanismo moderno é o lugar da rua. Esse espaço na cidade moderna é o pilotis, que não representa o local público da rua, tampouco a sala de estar do apartamento. Podemos dizer que durante muitos anos, para Brasília, o pilotis fez as vezes das varandas da casa brasileira”, diz Cristina, no resumo de sua dissertação. De acordo com a pesquisa, era comum nos primeiros anos da cidade ver mulheres fazendo crochê debaixo do bloco.


O conceito de pilotis descreve um conjunto de pilares que elevam um edifício e deixam livre o térreo. A frieza técnica, porém, não é suficiente para descrever a importância dessa representação de espaço, na identidade brasiliense. “Para a população de Brasília o pilotis é o local que ‘criou’ seus filhos, que ‘vigiou’ seus namoros e que serviu de cenário para as primeiras transgressões da infância. Ele representa no cenário da cidade o espaço que se estende fora da residência, o espaço, como definido por Bachelar, onde encontramos os registros do tempo, o cenário de nossa memória”, complementa Cristina.


O levantamento não conclui se o espaço dos pilotis venceu ou fracassou, mas crava a incontestável importância dessa estrutura na vida dos brasilienses. Embora não se vejam tantas crianças debaixo do bloco como antigamente, ainda há quem valorize essa vivência. Em alguns casos é preciso brigar com o síndico ou com porteiros pelo direito de ocupar o espaço público. No dia a dia, não faltam exemplos.


Daniela Perdigão e Domingos curtem os espaço com o filho Tito todos os dias: o pequeno aproveita o ambiente da quadra, sempre sob o olhar atento dos pais (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Daniela Perdigão e Domingos curtem os espaço com o filho Tito todos os dias: o pequeno aproveita o ambiente da quadra, sempre sob o olhar atento dos pais
A 306 Norte é cenário da amizade entre as vizinhas Camilla Ferreira, Gabriela Dorneles, Camille Helena Chaves e Nathalya Lima (que está em Brasília a passeio, mas entrou para o grupo). Há dois anos, elas se encontram debaixo do bloco, especialmente durante as férias escolares, para jogar cartas, andar de patins e de bicicleta. “Só reclamam se fizermos muito barulho. É bem tranquilo brincar aqui, porque os porteiros são amigos e ajudam a cuidar da gente”, explica Camille. Havia uma casa de bonecas no pilotis, mas a presença de usuários de drogas no interior do brinquedo durante a madrugada fez com que o condomínio retirasse a estrutura.


Há quatro anos, quando os filhos da moradora da Asa Norte Adriana Magalhães eram pequenos, as babás da superquadra faziam piqueniques com as crianças na área externa dos prédios. A síndica proibiu o encontro. Ciente dos próprios direitos e da filosofia de Lucio Costa quando criou o projeto de Brasília, Adriana contestou as restrições e jamais deixou de brincar com Leonardo e Arthur debaixo do bloco. “Hoje, a realidade é outra e há poucas proibições. Os meninos descem todo dia para brincar e têm liberdade”, comemora Adriana. Ela promoveu a festa de aniversário da cadela de estimação debaixo do bloco. “Acho um barato fazer festa no espaço público. Reunimos vários cachorros em um sábado de manhã e ninguém reclamou”, relata.


No bloco onde moram as irmãs Letícia e Beatriz Wosiach, na Asa Norte, as crianças menores têm regalias. Podem andar de bicicleta e triciclo, por exemplo. Acima dos 13 anos, os jovens não ganham a mesma autorização e podem ser impedidos pelo síndico de pedalar no pilotis. “A alegação é de que os menores andam devagar e não causam acidentes. Temos algumas regras, mas que não atrapalham”, diz o pai das meninas, Luciano Wosiach. A quadra onde a família vive tem parquinho e churrasqueira na área pública.


Na quadra onde Luciano Wosiach mora com as filhas, Letícia e Beatriz, crian-ças de até 13 anos podem andar de bicicleta e triciclo (Minervino Júnior/Encontro/DA Press )
Na quadra onde Luciano Wosiach mora
com as filhas, Letícia e Beatriz, crian-
ças de até 13 anos podem andar de
bicicleta e triciclo
Moradores da Asa Sul, Daniela Perdigão e o marido, Zeca Domingos, descem com o filho Tito todos os dias para brincar no pilotis e na área verde ao redor. A primeira festa de aniversário de Tito foi realizada debaixo das árvores do bloco, com toalhas de piquenique. “É preciso aprender a usar esse espaço e a valorizá-lo como se fosse a sua casa. Aqui pode-se jogar bola e ninguém reclama das festas, os vizinhos participam e deixamos tudo limpo no final”, diz Daniela.

 

Os pais de Tito foram criados no Plano Piloto e vivenciaram a liberdade de brincar nos pilotis. “Tenho amigos dessa época até hoje”, afirma Daniela. “Brincava sem qualquer supervisão dos pais, tinha uma turma grande de amigos. Era muito tranquilo”, lembra Zeca.Hoje, Tito aproveita o ambiente da quadra, sempre sob o olhar atento dos pais.


Na 307 Sul, a vizinhança se reúne e promove tardes culturais, onde as pessoas tocam violão, alugam brinquedos infláveis e promovem várias atividades de lazer. Morador da quadra desde a infância, Marcel Vieira já foi prefeito comunitário e guarda boas memórias dos tempos em que brincava debaixo do bloco. “O pilotis tem um ar de inocência, de namoro encostado na pilastra. Eu descia de manhã e só voltava à noite. Naquela época não tinha condomínio fechado, hoje as famílias estão procurando mais segurança nesse tipo de moradia. Quem ainda aposta nesse modelo da superquadra descobre que o potencial se mantém”, observa Marcel. Ainda que sejam novos tempos, é possível construir memórias valiosas no vão dos pilotis.

 

'O pilotis tem ar de inocência, de namoro encostado na pilastra. Eu descia de manhã e só voltava à noite', conta Marcel Vieira, morador da 307 Sul (Minervino Júnior/Encontro/DA Press )
"O pilotis tem ar de inocência, de namoro encostado na pilastra. Eu descia de manhã e só voltava à noite", conta Marcel Vieira, morador da 307 Sul
 

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017