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Um porto seco no DF

Mesmo depois de 10 anos de funcionamento, a estrutura instalada no Polo JK, em Santa Maria, não usa nem 10% de sua capacidade. Por que isso acontece?

Tereza Rodrigues - Publicação:20/02/2015 18:26Atualização:25/02/2015 12:05

Edward Martins, gerente geral Porto Seco DF, defende o grande potencial da empresa, mas diz que a estrutura de escoamento precisa melhorar: esperança de que o novo governo invista na região (Vinícius Santa Rosa / Encontro / DA Press)
Edward Martins, gerente geral Porto Seco DF, defende o grande potencial da empresa, mas diz que a estrutura de escoamento precisa melhorar: esperança de que o novo governo invista na região
Trazer dos Estados Unidos uma embarcação de 8 toneladas, quase 14 metros de comprimento, 4 de altura e mais de 5 de largura não é tarefa fácil para ninguém. Quando a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) conseguiu recursos com o Banco Mundial (Bird) para adquirir um barco para despoluir as águas do lago Paranoá, certamente teve de planejar tudo muito bem. Um problema, no entanto, foi rapidamente solucionado: fazer chegar a solo brasiliense um trambolho dessa magnitude. Mas como?


Pois o barco chegou via Porto Seco DF, uma estrutura que muita gente sequer sabe que está disponível na capital do país. “O barco chegou desmontado, em vários contêineres, claro, mas foi todo montado e ‘desembaraçado’ aqui, em um espaço de tempo curtíssimo, se comparado ao que é gasto em grandes portos como o de Santos ou do Rio do Janeiro”, conta Edward Líbano Martins, gerente geral Porto Seco DF.


Além de “desembaraçar” – expressão usada para “nacionalizar” –, o porto que temos disponível bem perto do Plano Piloto (veja mais na p. 54) é referência pela agilidade em transformar “carga vermelha em carga verde”, de acordo com Edward: “Os órgãos anuentes ficam disponíveis aqui nos nossos galpões. Isso significa que auditores da Receita Federal, da Anvisa e da Agricultura podem tirar dúvidas e dar informações aos importadores na hora que eles precisam. O que facilita muito e dá segurança para quem utiliza o serviço”, detalha o gerente.


Até o trem chegar: como está no centro do país, a região do Porto Seco DF 
é estratégica, mas falta melhorar a logística para o escoamento das mercadorias (Vinícius Santa Rosa / Encontro / DA Press)
Até o trem chegar: como está no centro do país, a região do Porto Seco DF é estratégica, mas falta melhorar a logística para o escoamento das mercadorias
Mesmo que sejam de “uso público” (conforme a descrição no site da Receita Federal), a maioria dos 66 portos secos em operação no país são empresas privadas. E o do DF não é diferente. Os proprietários formaram um consórcio, chamado Logserve, e venceram uma licitação pública em 2003 para construí-lo.

 

Atualmente, eles tentam fazer parcerias com o Governo do Distrito Federal (GDF) para aperfeiçoar os serviços prestados, mas deixam claro que as atribuições de cada órgão são bem diferentes.  De acordo com o gerente, Edward, quando a Logserve construiu o Porto Seco DF, havia uma promessa de que seria feito um grande investimento na região, o chamado Polo JK – que atrairia dezenas de empresas de grande porte, que importariam e exportariam milhões de reais em mercadorias todos os meses – e que a ferrovia chegaria até o pátio do porto.

 

“Mas até hoje esperamos que isso aconteça. Falta vontade política. O governo precisa investir mais em estrutura, fomento e divulgação dessa região aqui”, diz Edward Martins, que, mesmo citando investimentos da Medley, da União Química, da Gerdau e outras grandes empresas que têm base na vizinhança, diz que a área opera com menos de 10% de sua capacidade.


No GDF, o novo secretário de Economia e Desenvolvimento Sustentável, Arthur Bernardes, disse, por meio de sua assessoria, que está fazendo um levantamento das demandas do porto seco e estudando as necessidades das empresas que atuam no Polo JK para saber o que precisa ser melhorado. E que, mesmo que ainda não haja planos concretos, o objetivo é investir para valorizar.


Para a farmacêutica Arianni dos Santos, a armazenagem correta em câmaras climati-zadas é um diferencial do porto seco de Brasília: 'É comum chegar ampolas de R$ 1 milhão', diz a funcionária (Vinícius Santa Rosa / Encontro / DA Press)
Para a farmacêutica Arianni dos Santos, a
armazenagem correta em câmaras climati-
zadas é um diferencial do porto seco de
Brasília: "É comum chegar ampolas de
R$ 1 milhão", diz a funcionária
As esperanças estão renovadas principalmente porque uma das promessas de campanha do governador Rodrigo Rollemberg foi promover o desenvolvimento sustentável, uma política pública mais eficaz para o empresariado. Na opinião do presidente da Associação Comercial do Distrito Federal, Cléber Pires, é preciso haver celeridade: “Temos uma infraestrutura fenomenal com o porto seco de um lado, mas, de outro, oferecemos lotes caros e problema de infraestrutura (como a falta de energia) a quem quer vir para o DF. O investidor quer facilidade, e não brigar contra as dificuldades”, resume. Para ele, mesmo tendo um bom aeroporto, como é o caso de Brasília, é importante que a estrada de ferro chegue para qualificar a logística, especialmente no transporte de cargas. “A demora na ferrovia faz com que muitos empresários desacreditem do potencial do porto”, diz Cléber Pires.


Enquanto o trem não chega, o transporte das mercadorias que passam pelo Porto Seco DF é feito em operações multimodais, principalmente aéreas, rodoviárias e marítimas (até onde é possível). Diariamente, passam por lá os mais diversos tipos de carga, como materiais específicos para embaixadas – desde papel higiênico a eletrônicos – instrumentos musicais (como uma carga de pianos vinda da China, exposta no pátio em um dia de visita da reportagem), além de barcos, caminhões de bombeiros e até um avião, que chegou de Nova Orleans para um empresário de Brasília que quis um modelo bastante específico. O ramo que mais utiliza a estrutura do porto, entretanto, é a indústria farmacêutica, que responde por cerca de 85% dos serviços prestados.


Graduada em farmácia, Arianni Eleutério dos Santos é a responsável técnica da empresa. Ela diz que os empresários que visitam a estrutura do Porto Seco DF geralmente optam por utilizá-lo em suas importações. Um atrativo é que grande parte das cargas não chega a ter as embalagens abertas, pois o porto dispõe de um escâner de alta resolução que identifica se o produto tem origem vegetal ou não. “Outro diferencial é a facilidade para descarregar direto nas câmaras frias. A armazenagem geralmente é complicada para medicamentos climatizados, mas aqui damos conta de diferentes temperaturas e por isso recebemos medicamentos caríssimos. É comum chegar ampolas de R$ 1 milhão”, conta Arianni.


Os grandes galpões: agilidade para desem-baraçar 
e armazenagem correta são dife-renciais da empresa (Vinícius Santa Rosa / Encontro / DA Press)
Os grandes galpões: agilidade para desem-
baraçar e armazenagem correta são dife-
renciais da empresa
Por mês, passam em média 20 milhões de dólares em cargas pelo Porto Seco DF, que tem atualmente 40 funcionários diretos. O lucro do negócio é calculado de acordo com o valor da carga recebida, e atualmente corresponde a 0,43 sobre o valor do CIF. CIF é a sigla para Cost, Insurance and Freight, que em português significa Custo, Seguros e Frete. Nesta “conta”, o fornecedor é responsável por todos os custos e riscos com a entrega da mercadoria, incluindo o seguro marítimo e frete, e esta responsabilidade finda quando a mercadoria chega ao porto de destino designado pelo comprador.


Acostumado com esse tipo de transação, Junior Staikos, CEO da Methabio, diz que, especialmente para empresas do ramo farmacêutico, ter controle do processo de importação e exportação é vital para garantir a competitividade. “Uma grande preocupação nossa é conseguir realizar a entrega dos produtos dentro dos prazos estabelecidos e, neste aspecto, o Porto Seco DF é um parceiro com o qual podemos contar”, relata. Ele destaca a segurança de que todas as transações são mapeadas e rastreadas: “Temos transparência.”


Outra empresa que aprova a atuação do porto é a Rexam, fabricante de embalagens de alumínio para bebidas e refrigerantes que tem unidade no Gama. Rodrigo Vieira, gerente de comércio exterior, conta que no ano passado foi feito um investimento 13 milhões de dólares em uma nova linha de produção e que diversos equipamentos importados chegaram pelo Porto Seco DF.  “Foi a primeira vez que optamos pelo porto seco, outras importações que fizemos vieram aéreas. Mas agora, sempre que precisarmos, vamos preferir trazer com eles, porque o serviço foi bem prestado e a receptividade da equipe foi excepcional. Superou nossas expectativas”, diz.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017