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Perfil | Camila Márdila »

Talento brasiliense

Sensibilidade é um dos pontos fortes da atriz que cresceu em Taguatinga e agora ganha prêmios em festivais de cinema pelo mundo

Ricardo Daehn - Redação Publicação:20/02/2015 18:42Atualização:23/02/2015 11:20

Camila recebeu o prêmio de melhor 
atriz interpretando Jéssica, filha da babá Val (Regina Casé): Que horas ela volta? 
representou o Brasil nos festivais 
de cinema de Sundance e de Berlim (Diego Bresani / Divulgação)
Camila recebeu o prêmio de melhor atriz interpretando Jéssica, filha da babá Val (Regina Casé): Que horas ela volta? representou o Brasil nos festivais de cinema de Sundance e de Berlim
Ainda que não contasse com a tradição de artistas em família, a atriz brasiliense Camila Márdila apostou alto no talento e, com todo o suporte dos parentes, fez valer cada lição recebida por professores de teatro. “Comecei pequena, fazendo oficinas com André Amaro, Hugo Rodas, Tullio Guimarães e Luciana Martucelli”, relembra, ao telefone, uma esgotada Camila. Mesmo estando a quilômetros – mais precisamente em Utah (EUA) – e cansada, por duas noites sem sono, ao ser entrevistada, a atriz não poderia estar mais ligada a Brasília. Afinal foi daqui que brotou o suporte para uma carreira já vitoriosa, e em escala internacional: ao lado de Regina Casé, Camila conquistou, no Festival de Sundance, a rara honraria de um prêmio de melhor atriz.


“A última temporada teatral que fiz em Brasília foi incrível. Todo mundo nos trata muito bem, e há um orgulho, as pessoas se mostram muito satisfeitas com minhas conquistas. Fico bem feliz com isso”, diz, com o jovial entusiasmo dos 26 anos.


Moradores do Sudoeste, o pai, um aposentado bancário, e a mãe, uma dona de casa, nunca mediram esforços pelo sonho da menina que, por 17 anos, morou em Taguatinga. Ainda muito nova, Camila, às voltas com aulas, deixava a mãe de castigo no carro, esperando o fim das orientações de mestres como Adriano e Fernando Guimarães.


Atualmente morando em São Paulo, com o namorado, Cauê Novaes, um dos fundadores do coletivo Transverso (que propõe poesia e arte urbana), Camila não tem grandes amarras quanto a endereços. Ela conta que, no ano passado, se decidiu pela vinda à capital só para acompanhar o mais tradicional festival de cinema do país. “É o festival mais legal”, conta. Mas a verdade é que o leque tem, progressivamente, ampliado, e, passada a experiência do Festival do Rio (no qual compareceu com o filme de estreia O Outro Lado do Paraíso), o circuito possibilitado pelo longa-metragem Que Horas Ela Volta? (assinado por Anna Muylaert) alcançou não apenas Sundance, mas também o festival de Berlim.


Da passagem pelo Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, porém, ficou a impressão de uma sólida ponte que, dadas as circunstâncias da personagem nordestina defendida em Que Horas Ela Volta?, interessa por demais Camila. “Existe uma troca muito rica entre os cinemas brasiliense e pernambucano. Produções de lá estão sempre no Festival de Brasília. Em peso, as equipes debatem e inflamam diálogos. Podemos não falar das mesmas questões e das mesmas formas, mas nos entendemos muito bem e há uma inspiração mútua”, acredita.


Comparações nunca pautam a atriz quando o assunto é o duelo ficcional estabelecido entre Jéssica (Márdila) e a ausente mãe dela, Val (Regina Casé). Nos bastidores, tranquilidade e confiança nutriram a relação das atrizes. “Regina tem uma pesquisa eterna de vida, dessas pessoas que são a personagem que ela faz no filme (uma babá submissa). O repertório dela é infinito”, elogia a jovem intérprete. “Roteirista de primeira”, aos olhos da atriz, Anna Muylaert é lembrada pela rara qualidade de criar personagens “excelentes”. No Brasil, ainda pesa a máxima de casos raros, especialmente para as atrizes. No set de Que Horas Ela Volta?, em termos de funções, a predominância foi feminina – isso em cargos em que normalmente não são: direção, som e direção de fotografia foram feitos por mulheres. “Foi um caso invertido: havia homens na maquiagem”, conta, aos risos, a atriz.


Apesar de não ver como obrigação a defesa de causas, por ser atriz, Camila, sempre muito discreta, deixa escapar que levanta algumas bandeiras. “Já participei de muita manifestação. Causas surgem, e vamos nos envolvendo”, diz. Dedicar o prêmio às empregadas domésticas do Brasil, no palco de Sundance, não deixou de contemplar uma defesa. “Lembrei que, uma vez, Anna foi para uma sessão com Dilma, e a presidente disse: 'Eu não fui eleita por ser mulher, mas eu sou mulher. Isso, a gente nunca pode esquecer'. No palco, disse que esperava que as personagens não tocassem apenas os corações, mas as mentes das pessoas. Destaquei para que nós possamos questionar sempre esse papel de cidadãs de segunda classe que exercemos, em termos de sociedade”, observa, com sua elogiada sensibilidade à tona.


Enquanto negocia a circulação da peça Plano Sobre Queda, depois de uma temporada no Rio, Camila se prepara para os novos lançamentos na telona: O Outro Lado do Paraíso (de André Ristum). Nele, a atriz interpreta Suely, uma menina de 16 anos, filha do personagem de Eduardo Moscóvis. “Vamos ver se convence “(risos). Há também um filme sobre Cora Coralina, dirigido por Renato Barbieri; e uma produção de José Eduardo Belmonte gravado no litoral paulista, com Fábio Assunção.

 

 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017