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Cultura | Fotografia »

Exercitando o olhar

Coletivos de fotógrafos amadores e profissionais registram a cidade, organizam expedições e transformam o hobby num poderoso instrumento de socialização

Rodrigo Craveiro - Redação Publicação:26/02/2015 19:51Atualização:27/02/2015 10:51

Fotoclube Lente Cultural: profissionais  com forte identificação com Brasília (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Fotoclube Lente Cultural: profissionais
com forte identificação com Brasília
É do famoso fotógrafo francês Henri Cartier Bresson (1908-2004), considerado o pai do fotojornalismo, a citação “Fotografar é colocar no mesmo eixo a cabeça, o olho e o coração”. Em Brasília, pelo menos três grupos de apaixonados pelo que as lentes podem registrar levam essa frase a sério. Além de expor novos olhares sobre a capital, os coletivos de fotografias transformaram-se em uma fábrica de amizades e de amores. Ser parte de um fotoclube – como também são chamados – é garantia de viver momentos especiais. Aposentados, profissionais liberais, funcionários públicos ou mesmo repórteres fotográficos têm a oportunidade de extravasar a criatividade sem amarras e fortalecer os laços sociais.

Com 33 membros, sendo 10 sócios-fundadores e 23 associados, o Fotoclube Luz na Lente acaba de completar dois anos. Uma história recente, porém intensa. O grupo surgiu a partir de colegas que faziam cursos em uma tradicional escola de fotografia de Brasília. “Nós temos liberdade para a criação fotográfica. Durante os workshops, é costume focarmos num tema específico. Mas as nossas saídas fluem livremente. Embora possamos estar os 33 fotógrafos num mesmo local, serão 33 olhares diferentes. A diversidade de percepções é muito bacana”, afirma Claudio Cunha de Oliveira, presidente do Fotoclube Luz na Lente.


Integrantes do fotoclube Luz na Lente: dois anos de companheirismo 
e troca de experiências sobre fotografia (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Integrantes do fotoclube Luz na Lente: dois anos de companheirismo e troca de experiências sobre fotografia
Flaubert Barbosa dos Santos, diretor de eventos, exemplifica com uma “expedição” feita por 10 integrantes ao Estádio Nacional Mané Garrincha, antes da inauguração. “Foi uma visita guiada às instalações. Saíram coisas completamente diferentes. Houve pessoas que fotografaram operários, outras focaram em equipamentos e na obra.” Segundo Claudio, os associados também fizeram várias viagens a Pirenópolis, Brazlândia e Chapada dos Veadeiros.

Os encontros do Fotoclube Luz na Lente ocorrem “religiosamente” na segunda segunda-feira de cada mês. “É para ninguém esquecer”, brinca Maythe Souza, diretora de fotografia. Nas reuniões ordinárias, os integrantes participam de sessões de projeção das imagens produzidas no mês anterior. “Discutimos as fotos, explicamos como foram feitas, abordamos as técnicas e debatemos assuntos relacionados à fotografia, como textos e livros”, observa. Em Brasília, um dos pontos preferidos para as chamadas “saídas fotográficas” é o Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek.


O coletivo Candango surgiu com o intuito  de valorizar a fotografia: 60 membros  discutem desde técnicas de  composição a fotojornalismo (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
O coletivo Candango surgiu com o intuito
de valorizar a fotografia: 60 membros
discutem desde técnicas de
composição a fotojornalismo
Eles levam tão a sério o hobby que não se importam em investir no aprimoramento da técnica. Flaubert explica que o Fotoclube Luz na Lente tem buscado orientações com profissionais de primeira linha, como Valter Patrial e Walter Firmo. O fotógrafo português Manuel Madeira veio a Brasília em duas ocasiões ministrar workshops para os associados. Agora, é a vez de uma comitiva da capital visitar Lisboa para novo curso. “Somos um grupo de amadores e de apaixonados pela arte. Já participamos dos festivais de Paraty (RJ) e de Tiradentes (MG)”, comenta o conselheiro Edmilson César Pinto. Segundo o presidente, para se tornar membro é necessário que a pessoa seja amante da fotografia. “Como abrimos nossas casas para as reuniões, de forma muito íntima, trabalhamos basicamente com amigos dos amigos. Há sempre uma indicação para entrar no Fotoclube Luz na Lente. Também é necessário ter um bom equipamento”, sustenta Claudio.


Foto de Jorge Diehi
Foto de Jorge Diehi
“Não temos intenção de ser um curso de fotografia, mas um espaço para trocarmos figurinhas e para aprofundarmos os conhecimentos”, emenda Maythe. Em agosto de 2014, o grupo expôs seus trabalhos em duas estações de metrô. Claudio diz que o hobby tem feito grandes mudanças na vida dos associados. “Nós já tivemos dois casamentos dentro do grupo. O fotoclube promove a amizade, encontros, amores e tudo o mais. É muito bacana”, diverte-se. O Fotoclube Luz na Lente não cobra taxas de manutenção dos sócios. Todas as despesas são rateadas.


Foto de Bruno Bravo
Foto de Bruno Bravo
Mais antigo, outro fotoclube tem até o nome com a cara de Brasília. O Candango Fotoclube surgiu em 19 de outubro de 2006 com o propósito de dividir experiências e conhecimentos fotográficos, além de participar das Bienais Fotográficas organizadas pela Confedereção Brasileira de Fotografias (Confoto). “Foi uma iniciativa de cinco fotógrafos – Arthur Monteiro, Hélio Rocha, José Erigleidson da Silva, Jorge Diehl e Silvia Rossetto. Eles tinham a mesma aspiração de desenvolver, difundir e valorizar a fotografia na capital federal. Para marcar esse compromisso, deram o nome dos pioneiros que construíram Brasília, os candangos”, explica a presidente do grupo, Gisele Porcaro de Oliveira. Dos fundadores, permanecem no fotoclube Diehl e Rocha. Hoje, são cerca de 60 associados, entre fotógrafos profissionais e amadores, dedicados à fotografia independente. Com sede na Asa Norte, o Candango Fotoclube sobrevive de uma contribuição trimestral de R$ 60 dos integrantes.


Foto de Bruno Bravo
Foto de Bruno Bravo
Gisele conta que os encontros ocorrem sempre às quartas-feiras e às sextas-feiras. Tudo é muito democrático. Por ser bastante heterogêneo, o grupo segue um cronograma de discussões acertado anteriormente pelos interessados. “Há mostras de fotografias de estúdio, debates, palestras e projeções fotográficas”, afirma. Os assuntos tratados são amplos e incluem desde os grandes artistas da pintura e da fotografia até técnicas de composição, iluminação, nu artístico, fotografia documental, fotojornalismo, entre outros. Assim como o Fotoclube Luz na Lente, o Candango organiza saídas fotográficas com temas predefinidos, como “Igreja de Planaltina” e “Cavalhadas em Corumbá”.


A forte identidade com Brasília está presente na participação dos chamados varais fotográficos. “Sempre buscamos fazer exposições para mostrar à sociedade brasiliense nosso trabalho. Um varal fotográfico histórico foi o ‘Brasília Outros 50 anos’, uma exposição a céu aberto realizada em 2010, ao lado da Funarte”, comenta Gisele. Para ela, um dos grandes benefícios de um coletivo de fotografia são as amizades que ele proporciona. “Ter ao seu lado amigos que gostem de conversar, aprender, ensinar o que você gosta, que é fotografar. Para mim, a fotografia é fazer história. Mostrar ao outro o que vejo, penso e desejo”, diz a presidente.


Segundo a candangueira Mariana Almada, fazer parte de um fotoclube permite encontrar pessoas de profissões, religiões, gostos diferentes e, ainda assim, debater temas afins em torno da fotografia. “Nós nos ajudamos, discutimos composições, enquadramento e técnica, sem espaço para competição”, observa. De onde vem tanta paixão pela fotografia? Mariana tem uma explicação poética: “Ali, congelamos a paisagem sem mudar o ambiente, imortalizamos a pessoa sem torná-la eterna, prendemos o passarinho permitindo que ele continue livre”.


Foto de Rita Serejo
Foto de Rita Serejo
Outro coletivo de fotografia, o Lente Cultural, foi fundado em maio de 2009 para apoiar e elaborar projetos e programas de difusão de fotografia em todos os seus formatos e sua integração com as artes em geral. O repórter fotográfico Eraldo Peres da Silva, presidente da associação, afirma que o coletivo tem 16 fotógrafos membros-associados, todos profissionais. A adesão é feita somente por meio de carta-convite da diretoria, o que isenta a cobrança de mensalidade ou anuidade. O grupo se mantém com a realização de projetos. “Sua riqueza está depositada na experiência e nos trabalhos desenvolvidos pelos integrantes, que, com ampla e consolidada atuação no campo da fotografia, se destacam com as realizações de exposições fotográficas, premiações nacionais e internacionais, publicações de livros e ações no âmbito da produção cultural”, explica Peres.


As reuniões ocorrem de acordo com as necessidades de cada projeto em andamento. “Cada associado possui o próprio equipamento. Quando organizamos uma produção coletiva, como ensaios, exposições e documentação, há empréstimo de equipamentos entre os membros, quando necessário”, comenta o presidente. As exposições fotográficas são oferecidas à sociedade por meio do Festival Mês da Fotografia e do Fotobarragem – um encontro de fotógrafos que ocorre sempre na Churrascaria Paranoá, junto à barragem do lago Paranoá. O Lente Cultural também organiza e viabiliza projetos de terceiros.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017