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Hospitalidade candanga

A rede hoteleira de Brasília é formada por uma centena de hotéis. O setor cresceu e atraiu investimento estrangeiro, mas lida com a baixa ocupação. Atrair o público de fim de semana é uma das estratégias para melhorar o movimento

Leilane Menezes - Colunista Publicação:27/03/2015 14:17Atualização:05/05/2015 15:31

Cenário paradisíaco à beira do Paranoá: o Eurostars Brisas do Lago oferece descanso e conforto (Vinicius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Cenário paradisíaco à beira do Paranoá: o Eurostars Brisas do Lago oferece descanso e conforto
Basta olhar ao redor para constatar a expansão dos setores hoteleiros de Brasília. De norte a sul, há hotéis em construção e outros tantos com cheiro de novos recém-abertos ao público. Mais de 10 edifícios foram reformados ou erguidos do zero em terrenos antes desocupados ou no lugar de prédios demolidos para construir estruturas mais modernas e abrigar turistas durante a Copa do Mundo. O mundial, porém, não é a única justificativa para a chegada de novos empreendimentos hoteleiros à capital do país.


Redes nacionais e internacionais apostam no movimento de negócios gerado pelo governo federal e por empresas para se estabelecer no mercado brasiliense. A procura por flats, que misturam moradia com hospedagem, é outro fator levado em consideração pelas construtoras, que captam investidores e erguem seus empreendimentos em sistema de pool (onde os donos de unidades destinam seus apartamentos para exploração hoteleira).


Até 2011, eram 19,2 mil leitos disponíveis. Atualmente, são 25 mil unidades, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Distrito Federal (Abih-DF). O aumento de 30,21% na oferta preocupa o setor. “O que nós já prevíamos na época da Copa do Mundo está acontecendo. O parque hoteleiro cresceu muito e, passado o evento, esse movimento não se sustenta. Muitos hotéis nem sequer ficaram prontos para o mundial e inauguraram depois”, explica o presidente da Abih-DF, Helder Carneiro.


Os cariocas da rede Windsor viram em Brasília a oportunidade de expandir seus negócios para além da região Sudeste. Em dezembro, assumiram a administração do hotel Naoum. Outra unidade com a mesma bandeira está em construção no Setor Hoteleiro Norte (SHN) desde 2008. A multinacional Eurostars inaugurou o Eurostars Brisas do Lago em 2014, com proposta de luxo à beira do lago. A brasiliense Hplus, a maior empresa do ramo no Centro-Oeste, inaugurou o Cullinan há quatro meses, o Fusion há apenas um; e o Athos Bulcão, há nove meses. A Hplus ainda pretende lançar outras duas unidades neste ano, totalizando seis hotéis em Brasília.


O perfil dominante do hóspede em Brasília permanece dentro do clichê: são pessoas que vêm à cidade a trabalho. De terça a sexta-feira, a ocupação pode ser de até 80%, a depender da época do ano, embora essa não seja a expectativa para 2015, graças à instabilidade da economia brasileira. “Os problemas com a economia levam à diminuição de eventos de grande porte, como conferências e congressos, bem como diminui o fluxo de hospedagem a negócios. Até junho não temos nenhum grande evento previsto em Brasília. Em janeiro e fevereiro deste ano, tivemos 35% a menos de hóspedes do que no mesmo período, em 2014, quando ainda não estávamos na Copa. Mesmo assim, estamos esperançosos com o turismo espontâneo, as viagens de dois dias. A ocupação no fim de semana tem melhorado muito. A minissérie da Globo Felizes para sempre? também ajudou as pessoas a descobrirem o que tem de bonito aqui e despertou a curiosidade sobre os hotéis”, afirma Carneiro.


Aos sábados e domingos, era comum encontrar hotéis vazios até pouco tempo atrás. O cenário, porém, começa a mudar, especialmente nos hotéis com perfil de resort. “A taxa de ocupação no fim de semana era de 20%. Hoje, já está em 35%, em média. No carnaval, tivemos ocupação de 90%. A maioria era de pessoas de Brasília. É o resultado de um trabalho feito a longo prazo para atrair o público local, que começa a dar resultados”, afirma Paulo Amaral, um dos gerentes do Royal Tulip e do Golden Tulip.


Os números e relatos apontam para o nascimento de um novo hábito entre os brasilienses com bom poder aquisitivo: o de se hospedar por diversão. Encontro Brasília selecionou seis hotéis bem avaliados pelo público de fim de semana para saber o que eles oferecem de melhor. Oásis em meio ao cerrado, hotéis brasilienses têm se tornado destino de casais e famílias em busca de lazer sem pegar a estrada ou passar pelo aeroporto. As diárias de fim de semana são até 50% mais baratas, se comparadas às de dias úteis. A expansão da rede hoteleira abriu novas e boas oportunidades de hospedagem à beira-lago e no centro de Brasília.

 

O hotel mais antigo da capital, o Brasília Palace, é também o mais charmoso e um dos mais procurados aos fins de semana. Projetado por Oscar Niemeyer e fundado em 1958, o local permaneceu fechado entre agosto de 1978 e setembro de 2006, depois de um incêndio. Tem 13 mil metros quadrados de área construída e um amplo gramado à beira do lago. Duas gameleiras enormes atraem casais que desejam casar-se à sombra das árvores e hóspedes à procura de calmaria.


O Brasília Palace encanta o visitante logo na chegada à recepção. Móveis e peças de Athos Bulcão, Oscar Niemeyer, Sérgio Rodrigues, Pierre Paulin, entre outros, compõem a decoração. Poltronas do mobiliário original foram preservadas e reforçam o toque vintage de glamour característico do local. É comum receber excursões do mundo inteiro em busca do turismo de arquitetura. O farto café da manhã é servido no restaurante italiano Oscar, que também abre para almoço e jantar. A área da piscina (que peca apenas por não ser aquecida) não tem bar, mas os garçons servem bebidas e petiscos aos banhistas.


Todos os apartamentos oferecem produtos franceses de banho e alguns têm vista parcial do lago Paranoá. A suíte especial, também chamada Oscar, é mais uma homenagem ao arquiteto. O apartamento tem decoração modernista e móveis assinados, piso de madeira, além de cama king size, sala, varanda estendida, banheira, TV LCD de 40 polegadas, minibar e cofre. A diária do quarto comum é menor que R$ 200 nos fins de semana. A suíte Oscar custa pelo menos o dobro.


A história do Brasília Palace atraiu Tawana Oliveira e o marido dela, Tyago Bernardes, para um fim de semana de descanso. “Queria aproveitar o clima harmonioso, histórico e calmo. Caminhamos pela área verde e vimos vários pássaros. Foi como tirar miniférias”, diz Tawana. “É o ideal para quem deseja se desligar da rotina”, complementa Tyago.


Já os funcionários públicos Flávia Nery Fonseca e Reiner Araújo Fonseca escolheram o hotel como cenário do ensaio fotográfico antes do casamento e hospedaram-se na noite de núpcias. “O hotel é muito confortável, apesar de ter uma limitação quanto aos quartos, que não têm muita variedade. A suíte Oscar é concorrida, mas compensam esse detalhe com um bom custo-benefício”, opina Reiner. “O Brasília Palace é diferente de tudo que se tem em Brasília. Não é um hotel luxuoso, mas ganha pontos pela originalidade e localização privilegiada”, acrescenta Flávia.

 

As maiores novidades em termos de hospedagem estão no Setor Hoteleiro Norte (SHT). O Cullinan, da rede Hplus, leva o nome do maior diamante encontrado no mundo. O espaço tem sido bem avaliado por quem passou por ali. É a aposta de bandeira premium da rede brasiliense. Inaugurado em julho de 2014, o hotel representa investimento de R$ 300 milhões e teve ocupação de 60% nos primeiros meses. “Brasília tem um parque hoteleiro muito antigo, com hotéis cheios de carpete. Os velhos começam a dar espaço para os mais modernos. Não existe excesso de oferta na cidade”, acredita o diretor corporativo da Hplus, Otto Sarkis.

 

Os quartos são espaçosos e a limpeza ganha destaque nas críticas dos hóspedes. O atendimento foi classificado mais de uma vez como “impecável”. O café da manhã também é um dos destaques, de acordo com clientes. O espelho de aumento, a iluminação do quarto, o cardápio de travesseiros e os itens de banho também receberam elogios. A flexibilidade nos horários de check-in e check-out, especialmente nos fins de semana, também é mencionada como uma das vantagens desse local. Há sauna, piscina aquecida e academia, além de restaurante italiano que funciona para almoço e jantar. “Finalmente surgiram hotéis com nível internacional em Brasília. Esse tem preço compatível com o mercado, quartos amplos e equipados com materiais de primeira”, elogia o hóspede Arno Jerke, em sua avaliação na internet.

 

O Windsor chegou a Brasília com duas unidades. A principal, no SHN, está em construção e deve ser inaugurada ainda neste ano. A outra, no SHS, tomou lugar do antigo Naoum e reabriu em 19 de janeiro. Reformaram todos os quartos e áreas comuns e estabeleceram ali o mesmo padrão de funcionamento dos hotéis Windsor no Rio de Janeiro. Os administradores mantiveram a tradicional feijoada servida aos sábados no Naoum e acrescentaram toques cariocas à receita. “Hoje, o principal atrativo do hotel no fim de semana é a feijoada. Os clientes vêm para o almoço e acabam ficando, aproveitam o conforto, a piscina”, afirma o gerente regional de vendas do Windsor, Demetrius Guerra.


No Rio de Janeiro, onde tem 11 unidades, o Windsor é famoso pela hospitalidade e por se preocupar com a excelência em bebidas e alimentos. A capital foi escolhida para receber os primeiros hotéis dessa rede fora de solo carioca por ter vocação para negócios, mas há investimento também no público de fim de semana. Na área de check-in VIP, o cliente é recebido com uma taça de champanhe, trufas e, se optar por esse serviço, pode tomar café da manhã privativo, na cobertura, com vista para o Plano Piloto.


O café da manhã tem chef exclusivo para fazer ovos mexidos, omeletes e tapiocas recheadas na hora. Há variedade de cafés. Todos os quartos têm banheira e oferecem produtos de banho de qualidade. Há ainda piscina e ofurô à disposição.

 

 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017