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Entrevista | Vasco Gonçalves »

"A empresa que pensar só no Plano Piloto vai errar"

Para consolidar a identificação da marca BRB com a capital do Brasil, o novo presidente do banco não poupa esforços. Entre os planos da equipe que trabalha na instituição há mais de 20 anos, está a expansão, inclusive para o Entorno

Tereza Rodrigues - Publicação:30/03/2015 17:32Atualização:31/03/2015 14:02

 (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Dizer que a história do Banco de Brasília (BRB) se confunde com a história da capital não é exagero. No ano em que a cidade completa 55 anos de fundação, o banco criado para atender seus “novos” habitantes passa por mudanças importantes. Em 48 anos de BRB, neste ano, pela primeira vez, um funcionário de carreira chega à presidência. Vasco Gonçalves acaba de assumir o mais alto posto à frente de 3.240 empregados, quase 700 mil clientes e 122 agências, sendo seis delas fora do Distrito Federal.


Filho de pai português e mãe goiana, Vasco aprendeu a trabalhar desde cedo. Com as duas irmãs, ajudava na padaria que a família teve na Asa Norte, e aos 14 anos se virava para vender sapatos. A veia de comerciante o ajudou a crescer nas profissões que teve. “O bom de começar cedo é que aprendemos a dar valor ao trabalho”, diz. Antes de prestar concurso para o BRB, em 1992, trabalhou em outro banco, onde entrou como office-boy e chegou a operador de caixa. No BRB, já passou pelas mais diversificadas áreas, inclusive na controladoria, onde pôde conhecer todo o funcionamento interno da instituição.


Hoje, mais do que nunca, ele se mostra incansável para melhorar os números e a imagem do BRB. Diz que sofre com notícias negativas sobre o banco e explica por que os principais gastos da instituição em 2015 e 2016 serão com tecnologia e informática. A questão da privatização, que é sempre colocada em pauta, está descartada nesta gestão. Por causa da regra do período de silêncio, o presidente não pode apresentar os números da instituição, mas não fugiu de questões delicadas, como o rebaixamento da nota de crédito do BRB pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s. A seguir, os principais trechos.



ENCONTRO - Sua indicação para a presidência do banco foi uma surpresa para o senhor?
VASCO GONÇALVES - Foi um movimento construído ao longo de um tempo. A escolha acabou culminando na fase de transição de governo, da qual eu estava participando de algumas reuniões e conversas com a equipe do Rodrigo Rollemberg. Tinha ali muitas pessoas conhecidas que me chamaram porque sabiam que eu conhecia bem o banco. Fui para ajudar. A transição é o momento que quem está chegando tem para entender, conhecer, saber como encarar o que vem pela frente. E a equipe estava muito engajada, animada, isso me atraiu bastante. Dava para ver que o pessoal estava empolgado com a eleição em si, mas já com muita vontade de ajudar. As conversas fluíam bem, foi muito engrandecedor. E aí fomos nos aproximando. Depois de alguns encontros, em uma fase mais avançada, já analisando currículos, o próprio governador me chamou um dia e fez uma minissabatina. Fiquei surpreendido com a quantidade de informações que ele já tinha do banco, a facilidade que tem de absorver informações. Ele fez as perguntas-chave. Um tempo depois, recebi o convite efetivamente.

E quais são os maiores desafios nessa nova função?
São muitos. Tanto por causa desse conturbado mercado bancário, em que temos muita concorrência – Brasília está em uma área em que o PIB (Produto Interno Bruto) é um dos melhores do país, temos uma renda mais estável, com muitos funcionários públicos e os bancos concorrem muito aqui dentro – quanto pelo momento econômico que o país vive. A situação que estamos vivenciando cria certa dificuldade para o nosso sistema.

Em que medida?
É que estamos em um momento de modernização tecnológica do BRB. Isso já começou e é um caminho em que não dá para diminuir o ritmo ou parar. Só dá para acelerar ou, pelo menos, manter o ritmo. E, efetivamente, nós precisamos é acelerar esse investimento em tecnologia. Mas culminamos com um ano ruim para a economia, e então precisamos medir bem a dose de investimentos. Não dá para negar que investimento é dispêndio num primeiro momento, vai dar frutos só mais à frente, representa um grande desafio no ajuste de contas.

Os investimentos na área de tecnologia são uma prioridade agora?

Sim, mas há outras. Estamos concentrados em algumas medidas, como a reforma estatutária, que vai possibilitar a redução da quantidade de diretores. Está em fase de estudos, mas devemos diminuir de 14 para oito ou nove diretores.


Quanto vai dar para economizar?
Ainda não dá para saber, estamos ajustando, mas queremos reduzir cerca de R$ 6 milhões por ano em salários e encargos. É bastante significativo.

Existe uma intenção de expandir a atuação do BRB?
Sempre há, não é? Estamos constantemente pensando em como aumentar a rede, a capilaridade. Abrimos recentemente agências em Alexânia (GO) e em Unaí (MG), por exemplo. Há estudos preliminares de novas agências em Goiânia, onde só temos uma. Mas o banco precisa de um tempo para concluir esses levantamentos, e tudo precisa estar no planejamento. O que temos para 2015 foi aprovado pelo conselho no final de 2014. Estão previstas agências em Vicente Pires, no hospital de Brazlândia e na Estrutural. Há outras, mas estão em estudo ainda, não dá para adiantar.

Recentemente a agência de classificação de risco Standard & Poor’s rebaixou em um nível a nota de crédito do BRB depois de verificar as condições financeiras do governo do Distrito Federal. Mesmo assim, o banco se encontra cinco níveis acima da nota mínima. Foi uma notícia preocupante?
Isso é bem comum, um movimento normal. Às vezes um banco perde uma nota, depois recupera rapidamente. A Standard & Poor’s faz avaliações com frequência. Assim como outras empresas de rating internacional. Elas fazem avaliação anual acompanhando o nosso balancete trimestral. O que houve agora é que a Standard está reavaliando o rating de todos os bancos brasileiros, mesmo sem o balanço recente. E, no nosso caso, eles fizeram depois de muitas notícias negativas em relação ao acionista controlador, que é o GDF. Eles são muito conservadores, e o entendimento deles é que neste momento a nossa nota deveria diminuir 1 ponto. Tínhamos uma nota muito boa em relação ao mercado, que era duplo A e caiu para A. Continua boa ainda.

O senhor acha que as ações na bolsa serão afetadas?
Não tem movimento significativo. Depois de mais de uma semana da divulgação, na bolsa não mudou nada. E a nota é de grau de investimento, não é ruim. É que a quantidade de ações que temos no mercado é pequena. No caso do BRB, 96,85% das ações são do governo. Somente 3,15% estão no mercado com acionistas privados.

E há previsão de reverter essa nota?
Nós explicamos que a administração do banco é completamente separada e que esse caso não nos afeta diretamente. De todo modo, o GDF já está colocando as contas em dia. Mas a agência deixou claro que é cautela quanto ao acionista. Avisaram que isso pode mudar rapidamente, mas é no tempo deles. Não existe essa previsão. E eu entendo isso. Entendo que é uma condução normal, que acontece eventualmente no mercado. A agência, inclusive, está realizando um maior número de avaliações agora por conta das condições econômicas do país: talvez tenhamos até um PIB negativo neste ano, taxa de juros maior, tendência de inadimplência no mercado. E aí eles avaliam tudo com mais cuidado. Inclusive outros bancos, que não têm governo como acionista, estão tendo notas rebaixadas. Todos têm colocado um pouco o pé no freio.

O senhor disse que quer que o BRB seja comparável a outros grandes bancos. O que falta?
Falo comparável quanto aos serviços. Esse investimento em tecnologia que o banco iniciou no último ano – e estamos aprofundando – é justamente para dotar de serviços e acesso como qualquer banco de alto nível. Hoje utiliza-se muito o smartphone. Nós precisamos aperfeiçoar o que oferecemos no mobile banking.

Isso está sendo feito com base em reclamações de clientes?
Não, internamente já tínhamos identificado o que devemos buscar. É atualização mesmo, acompanhamento do mercado. Estamos caminhando na mesma linha dos maiores. Ficamos um pouco para trás, por isso estamos precisando acelerar. Mas é uma questão também do tamanho, o BRB não tem a velocidade e os recursos de outros grandes bancos. É normal lançarmos depois, mas estamos caminhando para a modernização tecnológica e os multicanais estão sendo aperfeiçoados. O home banking, que chamamos de banking net, por exemplo, deve sair mais rápido, neste semestre. É um site com navegação mais amigável, simples e moderna. Vai refletir em melhorias para os clientes e para os funcionários.

E as máquinas de autoatendimento, vão mudar também?
Sim, serão todas trocadas. Estamos na fase da preparar a licitação e o objetivo é também modernizar. Buscamos modelos de navegação mais simples, ágil e com estabilidade de acesso. Devo confessar que eu sofro com notícias negativas sobre o banco, como a onda de reclamações sobre dificuldades de acesso por parte dos clientes no final de 2013 e começo de 2014. Quando acontece, fico muito preocupado. Internamente, debatemos muito isso, porque queremos um banco forte, seguro, bem reconhecido.

O BRB tem uma identificação forte com Brasília. Como vocês trabalham essa questão?
Queremos cada vez mais fortificar isso para que todos possam enxergar o Banco de Brasília como o banco da cidade. Nosso esforço é, sim, concentrado nisso. E quando falamos de Brasília, incluímos o Entorno. A empresa que pensar só no Plano Piloto vai errar. Queremos dar atenção à região toda. E é importante frisar que investimos aqui e o nosso resultado também é aplicado aqui, já que parte do lucro é distribuída em dividendos. O GDF, como nosso acionista majoritário, recebe dividendos e este dinheiro retorna para a população, vai para os cofres do governo.

Sem contar a política de expansão da marca, não é?
Pois é. O BRB é hoje o maior patrocinador de esportes do DF, apoiamos o basquete, o vôlei e todos os times de futebol. Temos investido muito em esporte, cultura e lazer. Tudo aqui no banco é muito voltado para a região, e esta identificação é muito forte. Queremos que toda a população sinta isso e aí as coisas vão acontecendo de acordo com as demandas. Por exemplo, temos tido muita busca de crédito para energias alternativas. Resolvemos, então, promover fóruns sobre sustentabilidade. Vamos lançar brevemente um edital público de credenciamento para apoiar projetos culturais locais. É uma expansão que vamos fazendo medindo os passos, mas a ideia é massificar a marca em todo o cerrado.

O banco tem políticas para atrair clientes de diferentes faixas etárias, não é? Quais são elas?
Recentemente, o BRB participou de um leilão e ganhou o direito de ter as contas do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Estamos prestando esse serviço e os aposentados podem receber pelo BRB. Antes era o Itaú. Foi uma meta do banco e conseguimos. Temos programas para conseguir uma proximidade com o público jovem. É um foco novo, estamos com campanha para atraí-los, desenvolvendo produtos pelos quais eles se interessam mais. O negócio é acelerar, atrair de jovens a aposentados.

No início do mês, o senhor foi sabatinado na Câmara Legislativa do DF pela Comissão de Orçamento e Finanças, que depois se pronunciou a favor do seu nome para a presidência do BRB. Logo em seguida, os 20 deputados distritais presentes na votação no Plenário aprovaram a indicação por unanimidade. Como foi esse processo?
Foi com muita alegria e senso de responsabilidade que aceitei a missão de conduzir o BRB a um patamar de destaque, como sempre esperamos. Nossa meta é que o banco seja capaz de crescer com a própria cidade e seja reconhecido como a melhor instituição financeira do Centro-Oeste. Na Câmara falamos sobre a reforma estatutária e os ajustes que precisam ser feitos no curto prazo para que a máquina fique mais azeitada. Foram pautados também os resultados que vamos conseguir com os investimentos que estão sendo feitos em tecnologia.

A concessão de empréstimos e a geração de emprego e renda entraram na pauta?
Sim, nossa modelagem de limites de crédito está ficando mais moderna, com práticas mais avançadas e estatísticas mais acessíveis para termos um modelo mais rápido, ágil e seguro. Para ter uma melhoria de todo o conjunto de serviços do banco, vamos também passar por uma discussão da nossa relação com as empresas que nos atendem, como a de cartão, de seguros, etc. No longo prazo esperamos resultados vigorosos.

O senhor falou na Câmara de programas motivacionais para funcionários. Quais são os planos?
Precisamos melhorar a motivação da equipe e estou dividindo esse desafio com a Cris, diretora de pessoal. Ela também está no banco há muitos anos e conhece bem a realidade dos funcionários. Estamos estudando práticas de participação nos lucros para melhorar o reconhecimento pela performance no trabalho. Temos um modelo de participação hoje que não está adequado à prática bancária. A ideia é implantar a meritocracia, mas tudo isso passa por uma negociação sindical. Queremos promover mais treinamentos também.

Os funcionários do banco parecem animados com as mudanças. O senhor também está otimista?

Estou, muito. Sempre trabalhei com muita vontade, como toda a turma aqui, e agora temos mais energia e motivação ainda. Toda sexta-feira estou fazendo visitas a agências. Comecei pela mais distante, Cuiabá, mas pretendo ir a todas. Não é uma visita muito formal, e por isso mesmo prefiro a sexta-feira, um dia mais descontraído. Isso é interessante não só para estar com as pessoas, mas para entender as demandas. A ideia é ouvir mais, anotar o que eles dizem, registrar e entender as expectativas deles também. São ações de proximidade, porque cada um tem uma realidade.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017