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Pet | Tratamento »

Mais ciência, menos sofrimento

O uso de células-tronco tem trazido alívio para cães e gatos - e seus donos - em casos de doenças consideradas praticamente sem solução por veterinários

Thiago Soares - Da redação Publicação:30/03/2015 17:49Atualização:31/03/2015 14:38

'Quem olha hoje não imagina 
que a Malu passou um ano inteiro 
sem andar direito', diz Lilianna Rabello, dona da cadelinha que passou por três aplicações de células-tronco  (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
"Quem olha hoje não imagina que a Malu passou um ano inteiro sem andar direito", diz Lilianna Rabello, dona da cadelinha que passou por três aplicações de células-tronco
De uma lesão ocasionada por uma simples queda até o desenvolvimento de doenças com diagnóstico complexo, tratamentos com células-tronco em cães e gatos têm demonstrado grande eficácia em casos dados praticamente como perdidos por veterinários. Diversos donos ouvidos por Encontro Brasília relatam que depois de submeterem seus animais a vários procedimentos, como cirurgias ou o uso excessivo de medicamentos, a nova tecnologia tem se mostrado um alívio para quem não aguenta mais ver o sofrimento do bichinho de estimação.




A técnica já é usada há bastante tempo, mas na capital do país ainda não é tão conhecida, mesmo que no Distrito Federal existam pelo menos 20 hospitais e clínicas veterinárias capacitadas para realizar a prática. De acordo com especialistas, o uso de células-tronco em lesões, por exemplo, tem várias vantagens sobre os tratamentos tradicionais, já que a recuperação ocorre pela regeneração de tecidos lesados e pela liberação de fatores de crescimento (veja os principais casos em que a técnica pode ser usada no quadro na p. 48).


Nos primeiros meses de vida, a cadela Malu sofreu uma fratura grave. Ela é da raça spitz alemão anão e estava no colo de uma visita quando caiu do sofá de casa. A altura pode ser considerada pequena para alguns, mas, em virtude da baixa estatura da cadelinha, o deslize foi suficiente para lesionar sua pata esquerda. Ela teve fratura exposta e precisou passar por diferentes procedimentos cirúrgicos, mas as feridas não fechavam e os movimentos foram reduzidos.


Mesmo com todos os cuidados dos veterinários, a placa e os parafusos eram expulsos da pele e os rompimentos não cicatrizavam. Os objetos que deveriam servir para restabelecer o animal o machucavam ainda mais. Foram nove meses de tratamento entre o uso intenso de medicamentos e processos operatórios. Sua dona, a relações públicas Lilianna Rabello de Morais, chegou a pensar no pior. “A Malu ficou sem poder se locomover direito. Tudo que fazíamos não adiantava e o meu medo era de que ela perdesse a patinha”, conta.


A esperança ressurgiu quando os veterinários falaram do procedimento envolvendo células-tronco, e Lilianna se agarrou a ela. Três aplicações foram suficientes para mudar o cenário. Ela passou de uma pequena debilitada para uma cadelinha espevitada que hoje adora correr por todo o apartamento, na Asa Norte. “Já na primeira aplicação percebemos as reações: a pele cicatrizou e o ossinho dela se regenerou. Quem olha hoje não imagina que ela passou um ano inteiro sem andar direito”, comenta. Atualmente, Malu apenas passa por sessões de fisioterapia.


A técnica de aplicação de células-tronco, que foi fundamental na melhora da saúde de Malu, também é precisa em outros diagnósticos, inclusive em animais com doenças ortopédicas, como displasia coxofemoral (uma doença hereditária com incidências em cães de grande porte) e osteoartrose. É bem usada ainda em cachorros e gatos com insuficiência renal e hipoplasia de medula (baixa produção medular) ou casos em que há dificuldades em cicatrização de feridas. O tratamento pode ser eficiente também em cães com sequelas neurológicas em virtude da contaminação pela cinomose – um vírus que causa transtornos psicológicos e altera o organismo do animal.


A médica veterinária Patrícia Malard, uma das fundadoras do laboratório Bio Cell, que tem sede em Brasília e hoje atua em diversas cidades do país, explica que o tratamento com células-tronco não é somente uma forma de cura para os diagnósticos dos animais, mas uma busca de mais qualidade de vida para o pet. No entanto, segundo ela, a evolução nos quadros depende da reação de cada animal: “O que se observa, independentemente da patologia, é que na maioria dos animais ocorre a diminuição de dores e uma melhora clínica, além de melhorar o apetite. Eles ficam com mais disposição. Se o diagnóstico é feito corretamente e a aplicação da célula-tronco é utilizada no momento certo, os benefícios são enormes”, explica.


O procedimento é relativamente simples. O animal é primeiramente submetido a exames que analisam se ele tem condições de passar pelas aplicações. Se sim, existem duas possibilidades de extração das células-tronco: com células antólogas, que são retiradas a partir de próprio receptor; ou com halógenas, extraídas de outro animal. Na primeira, as células são isoladas e cultivadas em laboratório. Depois de dez dias, ficam prontas para serem aplicadas e o veterinário injeta as células-tronco no local propício para melhoria do bichinho.

 

Segundo Patrícia, independentemente do método, todo o processo é seguro e certificado, e não há possibilidade de incompatibilidade, já que a célula-tronco é indiferenciada. “Após a aplicação, a célula agirá conforme a patologia do animal. Pode ser adaptando as células vivas de modo a compensar as mortas ou secretando os fatores que impedem o crescimento de partes do corpo, como osso ou pele”, explica.


A estudante Jaqueline Alves de Oliveira pensou que James, seu cão de raça não definida, ficaria paraplégico por causa de uma sequela neurológica em virtude da cinomose – uma doença que geralmente trava as patas traseiras do animal. Os primeiros sintomas surgiram quando o cachorro tinha três meses de vida. “Percebi que ele estava perdendo os movimentos. No primeiro exame nada foi apontado. Num segundo, mais complexo, descobrimos que estava com essa doença”, conta Jaqueline. Nesse meio-tempo, o pet perdeu o movimento de três patas.


Jaqueline e o noivo, o técnico de informática Sérgio dos Anjos Ferreira, tiveram que dedicar mais tempo a James, que passou a ficar depende dos donos para fazer praticamente tudo. “Foram noites perdidas de sono. Quando eu vi meu cachorro perdendo os movimentos, pensei que não tivesse cura”, relata Sérgio. O animal fazia uso diário de medicamentos e vitaminas, que fizeram com que ele não perdesse o apetite, apesar de todo o desgaste. Mas surpresa mesmo os donos tiveram com os resultados do procedimento com células-tronco: “Logo no início ele começou a mexer as patas e depois de um mês conseguiu ficar de pé”, conta Jaqueline, empolgada. James está ainda em tratamento, mas suas melhoras são perceptíveis. Hoje a situação é bem diferente de quando tivemos o diagnóstico. A cada dia ele apresenta uma melhora”, diz Jaqueline.


A doença do carrapato, também conhecida como hemoparasitose, é uma das mais temidas pelos donos de cachorro, pois, apesar de possuir tratamento e cura, tem sintomas que podem ser fatais. Por isso, quando Aika, a bichon frisé da advogada Iolanda Lima Correia, adquiriu a enfermidade, há dois anos, o susto foi enorme. A dona conta que começou a perceber que a cadela foi mudando o comportamento gradativamente. “Ela começou um processo de enfraquecimento grande. Achamos que era por causa da idade avançada (ela tem 13 anos). O primeiro exame detectou a doença, e aí começou nossa batalha pela sobrevivência da Aika”, conta Iolanda. Além de transfusão de sangue, o tratamento da cadelinha passava por uso excessivo de medicamentos.


O processo durou cerca de nove meses até a Iolanda tomar conhecimento do trabalho com células-tronco. “A Aika estava cada vez mais fraca. Eu não queria vê-la definhando. Achava que ela não iria resistir. Quando fiquei sabendo desse novo tratamento, encarei como a última possibilidade de mantê-la viva.” A primeira aplicação foi em abril do ano passado, e logo as melhoras começaram a aparecer. O comportamento dela mudou e, segundo a dona, ela rejuvenesceu e até voltou a brincar com os donos. “Fiquei impressionada. Na segunda vez que aplicamos célula-tronco a doença já foi curada”, diz Iolanda. 

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017