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Tecnologia | Saúde »

O vício tecnológico

Especialistas advertem que a conectividade cada vez mais ampla está se tornando um grave problema de saúde pública

Isabela de Oliveira - Redação Publicação:31/03/2015 16:12Atualização:01/04/2015 13:53

 (Divulgação)
A história é repleta de sagas em que comportamentos desequilibrados para o jogo, comida ou sexo, por exemplo, figuram como algumas das principais razões para os dilemas humanos. No passado não há, entretanto, nenhum impasse parecido com o que a parafernália tecnológica oferece à humanidade de hoje. Afinal, quanto nos custa a possibilidade de driblar a física para estar, a partir de um toque, em vários lugares, com diferentes pessoas, e tudo ao mesmo tempo?


Esta é uma resposta difícil de encontrar, dizem especialistas. Isso porque ainda estamos engatinhando para a compreensão do que está realmente acontecendo. Os números, entretanto, oferecem uma visão parcial do cenário. Para se ter ideia da onipresença da plataforma de quase toda tecnologia de hoje – a internet –, o Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic.br) estima que, em 2013, 51% dos brasileiros acima dos 10 anos – ou 85,9 milhões de pessoas – estavam conectadas pela rede.


'Sem o telefone, nem saio de casa. Se eu esquecer, volto para buscar', 
conta a em-presária Camila de Sousa Ribeiro (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
"Sem o telefone, nem saio de casa. Se eu
esquecer, volto para buscar", conta a em-
presária Camila de Sousa Ribeiro
O maior acesso aos smartphones alavancou a popularização da web não somente no Brasil, mas no mundo. Levantamentos da Agência das Nações Unidas indicam que aproximadamente 3 bilhões de pessoas têm acesso à internet atualmente. Para todas elas, as vantagens da conectividade são inegáveis. A principal é a possibilidade de acessar entretenimento, informação e conhecimento de domínio público sem necessidade de se deslocar. A interação entre pessoas distantes, como familiares, amigos e até mesmo desconhecidos, é outra face irresistível das tecnologias.


Mas há o lado escuro também. Para Guilherme Di Angellis, professor do curso de comunicação do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), o perigo das tecnologias está na rapidez e praticidade de obter informações e resolver problemas. “Você acaba ficando escravo dessa praticidade. Tem de responder e-mail e resolver uma série de coisas que não precisaria fazer naquele momento. Acaba que ocupa o dia com isso”, diz ele, que é doutorando na Universidade de Brasília (UnB). “É como se o smartphone fosse um torrão de açúcar, e nós fôssemos o ratinho. Sempre queremos mais.”


Guilherme cita que, em países onde o acesso à tecnologia é facilitado – e a Coreia do Sul merece destaque nesse ponto –, o vício pelos telefones já é uma preocupação. Pesquisas recentes traçaram um aumento do número de adolescentes sul-coreanos em risco para a dependência de smartphones: uma condição que alguns psicólogos chamam formalmente de nomofobia. Um em cada quatro estudantes do ensino médio daquele país é propenso ao vício, revela a Agência Nacional de Sociedade da Informação em um levantamento de março de 2014. O número é mais do que o dobro estimado pelo mesmo órgão em 2013.


O psiquiatra Jerald Block, do Hospital Universitário de Ciência e Saúde do Oregon, nos Estados Unidos, defende que, apesar dos benefícios, a conectividade cada vez mais ampla ganha cara de um grave problema de saúde pública. Ele identificou que o excesso de horas on-line são causas de transtornos compulsivos-impulsivos. Eles são distúrbios de ansiedade em que há pensamentos obsessivos, considerados socialmente inadequados e de difícil controle.


'É como se o smartphone fosse um torrão de açúcar, e nós fôssemos o ratinho. Sempre queremos mais', diz Guilherme Di Angellis, professor do curso de comunicação do UniCEUB  (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
"É como se o smartphone fosse um torrão
de açúcar, e nós fôssemos o ratinho. Sempre
queremos mais", diz Guilherme Di Angellis,
professor do curso de comunicação do UniCEUB
Embora pareça surreal a ideia de que uma pessoa possa ignorar algumas necessidades básicas por causa da tecnologia, isso tem acontecido. Recentemente, um jovem taiwanês de 18 anos morreu em um internet-café depois de jogar, por 40 horas corridas, o game on-line Diablo 3. O caso ganhou espaço na imprensa, que reportou que o rapaz, identificado apenas por Chuang, passou dois dias sem se alimentar.


No Brasil, são numerosos os relatos de pessoas que precisam verificar incessantemente seus e-mails e redes sociais, e é crescente a oferta de clínicas e tratamentos específicos para viciados em tecnologia. Mas há quem esteja na direção oposta ao problema. O funcionário público Orlando Villavicencio Venegas, de 31 anos, é hoje um dos poucos humanos na Terra que não usa telefone celular por livre e espontânea vontade. Ele não teve o aparelho roubado nem esquecido no shopping, simplesmente “se libertou disso”, como define.


Não foram motivos financeiros que influenciaram essa decisão. Em casa, por exemplo, Orlando possui dois smartphones engavetados, sendo um deles um cotado iPhone. “Não quero mais ter celular. Os motivos são um pouco de preguiça e busca de privacidade”, diz o operador de áudio da Câmara dos Deputados. Não que ele seja um eremita tecnológico. “Mas tenho parcimônia. Jogo videogame – mas apenas duas vezes na semana – e tenho somente o Facebook de rede social”, conta.


'Não quero mais ter celular. Os motivos são um pouco de preguiça e busca de privacidade', diz o funcionário público Orlando Venegas, que liga a cobrar ou usa orelhão em casos emergenciais (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
"Não quero mais ter celular. Os motivos são um pouco de preguiça e busca de privacidade", diz o funcionário público Orlando Venegas, que liga a cobrar ou usa orelhão em casos emergenciais
Em casos de emergência, ele usa o orelhão para fazer ligações a cobrar ou para aparelhos fixos. “Se conseguir, até mando uma mensagem pelo Facebook. Mas gosto de fingir que vivo nos anos 1980”, brinca e comemora por ter conseguido evitar uma quantidade extraordinária de informações desnecessárias que chegam por e-mail e mensagem diariamente. “E isso não significa que eu não esteja conectado, só resolvi não ser dependente disso para levar a vida”, diz.


Já casos opostos aos de Orlando não são tão incomuns.  Camila de Sousa Ribeiro é proprietária de uma empresa de serviços de informática com o marido, conta que recebe mensagens de clientes domingo à noite e até mesmo na noite de 24 de dezembro. Por ser administradora de um grupo no Facebook, precisa atender de sete a oito pessoas ao mesmo tempo. “Recebo mensagens de manhã, de noite e de madrugada”, conta Camila. “Tem hora que eu paro e penso que isso está me consumindo e é preciso frear. Quando percebo que estou muito sufocada,  desligo o telefone por um período, mas não mais do que duas horas. Se caso ele descarregar  a noite e no dia seguinte eu puder acordar um pouco mais tarde, eu o deixo carregar desligado, senão perco o sossego.”


Apesar de se sentir pressionada pela quantidade de trabalho que recebe no telefone, Camila reforça também os lados positivos (e igualmente viciantes) do smartphone, que é usado para tudo, menos para ligações. Ela utiliza o equipamento para responder e-mails e mensagens das redes sociais que não estão relacionadas apenas ao trabalho. “Apesar de fazer isso tudo, quando estou com minha família e marido, evito o celular. Mas, para não ficar desconectada, levo um carregar portátil e outro próprio para carro. Sem o telefone, nem saio de casa. Se eu esquecer, volto pra buscar”, conta.


Julian Machado, coordenador de Ortopedia do Hospital Santa Helena: ele ressalta o aumento de pacientes que chegam com lesão por causa de digitação rápida no teclado ou telefone (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Julian Machado, coordenador de Ortopedia do Hospital Santa Helena: ele ressalta o aumento de pacientes que chegam com lesão por causa de digitação rápida no teclado ou telefone
Julian Machado, coordenador de Ortopedia do Hospital Santa Helena e presidente regional da Associação Brasileira de Ortopedia do Distrito Federal, diz que casos como o de Camila são preocupantes por envolver tensão e estresse. “Por exemplo, atividades mais lúdicas, como tocar um instrumento musical, ainda que repetitivas, oferecem menos riscos de lesões como tendinite. Sempre que há prazo e trabalho envolvido, são feitos movimentos mais tensos e que exigem mais concentração, e isso vale para a digitação, videogames e manipulação do smartphone também”, diz o especialista.


Apesar disso, é difícil diferenciar a lesão provocada durante atividades de lazer e de trabalho. No consultório de Machado são comuns pacientes incomodados com dores que apareceram após uma noitada de diversão no videogame ou digitando com pressa para entregar o trabalho dentro do prazo. Dores na coluna cervical e tendinite do polegar são lesões comuns provocadas, especialmente, pela má postura e digitação rápida no teclado ou telefone durante as tarefas.


Di Angellis alerta que, apesar de tudo, não se pode demonizar a tecnologia pelas doenças e síndromes atreladas ao uso inadequado delas.  “Somos viciados em muitas coisas, em cafeína e açúcar, por exemplo, e estamos sempre em uma busca desenfreada por coisas novas. Consequentemente, somos ansiosos por tudo. A questão que não respondemos é como usufruir dessa tecnologia que ainda estamos aprendendo a usar”, pondera o especialista. “Se um dia aprendermos a dosar esse aspecto da nossa vida, vão surgir outras coisas para nos tornar tão perdidos quanto estamos hoje com a tecnologia.”

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017