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Entrevista | Antônio Valdir »

Entrevista | Antônio Valdir

Diretor-superintendente do Sebrae/DF está otimista diante do cenário econômico do Brasil, pois acredita que mesmo os tempos difíceis geram novas oportunidades de negócios

Tereza Rodrigues - Publicação:23/06/2015 15:31Atualização:23/06/2015 17:08
'Os empreendedores 
estão respondendo de forma positiva  à crise', diz diretor-superintendente do Sebrae/DF (Vinícius Santa Rosa / Encontro / DA Press)
'Os empreendedores estão respondendo de forma positiva
à crise', diz diretor-superintendente do Sebrae/DF

O otimismo é uma das características mais marcantes do diretor-superintendente do Sebrae/DF, Antônio Valdir. Nenhuma conversa séria parece tirar dele a facilidade em responder as demandas de maneira propositiva. Para falar de números negativos da economia brasileira, por exemplo, ele não titubeia ao demonstrar que a crise “provoca” bons negócios, porque muitos empresários precisam se reinventar e encontrar suas verdadeiras vocações quando se vêm diante de uma frustração ou falência. E assim, segundo ele, surgem muitos cases de sucesso.
“Se quer um emprego, abra uma empresa” é um dos lemas que espalha em seu trabalho, pelo qual é um apaixonado. Mas gostar do ofício não seria suficiente se não houvesse bons resultados. E a competência desse cearense radicado em Brasília foi reconhecida recentemente com suas reeleições na diretoria do Sebrae/DF e na Associação Brasileira dos Sebraes Estaduais, órgão que nunca havia tido um presidente representando o Distrito Federal antes. “Estamos fazendo um grande movimento”, diz, ao comentar de ações como os seis grandes eventos da instituição programados para este ano. Confira a seguir por que Antônio Valdir não teme o futuro com um cenário negativo para o Brasil, como tem sido com muitos economistas.

 

ENCONTRO - Qual o lugar das micro e pequenas empresas (MPE) e dos microempreendedores individuais (MEI) na economia do país hoje? O que representam?

 

Antônio Valdir - Eles são os grandes geradores de emprego. Por isso que apostar nas MPE é apostar no desenvolvimento. As pesquisas do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que Brasília é um retrato do Brasil, e a concentração de empregos – mesmo o setor público sendo muito forte aqui – está nas micro e pequenas empresas. Esse segmento representa a socialização das oportunidades, da geração de emprego e renda, de realização de sonhos. Porque ter um negócio próprio é o segundo sonho de todo brasileiro, o primeiro é ter uma casa. Mas eu falo sempre: se você tem um sonho, realize. Essa coisa de se frustrar ou de quebrar faz parte da vida. Todo empreendedor quebra pelo menos uma vez, justamente porque ele tem de arriscar. O segredo é saber dar a volta por cima.

Então os empreendedores têm um papel de destaque no cenário econômico pelo qual o Brasil está passando?

 

O pequeno empreendedor entra e sai da crise com um movimento diferente do médio ou grande empresário. Um exemplo clássico que dou sempre é o do rapaz que engraxa sapatos na Praça do Cebolão, perto de onde era a sede do Banco do Brasil. A caixa de engraxate fica sem proteção, então quando chove ele ficaria sem trabalhar. Mas sabe o que acontece? Ele tem um guarda-chuva grande e faz corridas levando quem sai do estacionamento e precisa atravessar a praça. Ele cobra R$ 1 pelo percurso e acaba ganhando mais dinheiro do que nos dias em que trabalha como engraxate. Isso mostra como esse menino vê a crise como oportunidade e como precisamos apostar nas micro e pequenas empresas.

Tem alguma área em que as MPE precisam crescer ou se desenvolver mais?

 

Elas precisam crescer muito na exportação. A representatividade dos negócios delas pode ser bem maior. Acho que o governo precisa investir, a Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) e nós do Sebrae também. As MPE podem ajudar muito as contas brasileiras, elas representam cerca de 99% das nossas empresas.

E como é a realidade no Distrito Federal?

 

A informalidade ainda é muito expressiva. Temos aproximadamente 200 mil pessoas nessa situação, mas enxergo um potencial enorme. Hoje o número de microempreendedor individual (que fatura até R$ 60 mil por ano e tem no máximo um empregado) já é maior que o número de micro e pequenas empresas (com faturamento de até R$ 360 mil). E vai crescer muito mais. Eu sou otimista, acredito no empreendedor brasileiro. Porque ele se vira, é impressionante. Tem estudos antropológicos que mostram isso. Ele sobrevive bem porque entra e sai da crise com facilidade, com jeitinho. Aqui no DF vemos de perto isso. No ano passado, atendemos mais de 50 mil pessoas e neste ano nós vamos superar tudo. Com a crise, traçamos a meta de fazer um movimento enorme e, pelas projeções, o Sebrae/DF vai atender perto de 70 mil pessoas neste ano, um número recorde para a nossa realidade.

 

Mas, em momentos de crise, não é mesmo de esperar que as pessoas procurem mais por formação ou aperfeiçoamento?

 

Depende muito do segmento. O ideal é que as pessoas nos procurem antes. No seio da crise, é mais difícil elas terem a iniciativa de enxergar a necessidade. Mas essa resposta que estamos tendo está sendo muito em função da forma como o Sebrae/DF encara a crise. A cada evento que promovemos aqui, eu me surpreendo com os números, porque eles ultrapassam em muito a expectativa. Brasília sempre teve o discurso de ser a “terra do concurso”, mas agora assistimos ao esgotamento do setor público, o número de concursos está diminuindo, as contas públicas estão em dificuldades, e aí as pessoas estão buscando alternativas e descobrindo novas oportunidades.


O senhor disse que 2015 é um ano de grandes eventos no Sebrae/DF. Quais são eles?

 

Já fizemos dois. Em fevereiro tivemos o Encontro de Franquias, e o foco foi proposital porque, quando se fala em crise, precisamos ir para segmentos mais consistentes, que dão mais segurança para quem quer investir. E franquia é bem isso. É claro que, na relação de negócios, quanto mais riscos, mais possibilidade de ganhos. Mas ser franqueado pode significar mais segurança e uma boa fonte de renda. Neste momento nosso, o negócio seguro tem um bom apelo.

Qual foi o diferencial do evento realizado aqui?

 

Não queríamos fazer mais um evento de negócios, tem um monte de eventos para venda de franquia no Brasil. Preferimos preparar os nossos empreendedores para este segmento, falar de direitos, de deveres, de como é o fluxo para se montar uma franquia, qual o momento de abrir o CNPJ, etc. A intenção era capacitar 3 mil pessoas, mas, para a nossa surpresa, precisamos de salas extras. Mais de 7 mil visitaram o evento em três dias. Isso mostrou que os empreendedores estão respondendo de forma positiva à crise, nos deixou empolgados. Depois veio a Semana do Microempreendedor Individual, em abril, que também foi muito bacana. Fomos ousados e fizemos uma proposta de quebrar os paradigmas ao montar 21 pontos de atendimento em Regiões Administrativas (RAs) e levar equipes de todas as áreas aqui do Sebrae (não só as que já fazem atendimento) para conhecer a realidade deste trabalho. O resultado foi que atendemos mais de 11 mil pessoas e capacitamos mais de 2,6 mil em 5 dias. Foi uma loucura! Porque não foi só uma ação externa, foi para nós aqui de dentro também. Depois, na avaliação, ouvindo as experiências, vi que cada um chegou contando uma história. Eu mesmo sentei na unidade que montamos em Ceilândia e, lá pelas tantas, estava fazendo atendimento também.

 

 (Vinícius Santa Rosa / Encontro / DA Press)
 

QUEM É

 

Antônio Valdir Oliveira Filho,

48 anos, Casado, 3 filhos

 

ORIGEM

Crato (CE), em Brasília desde 1982

 

FORMAÇÃO

 

Graduado em administração de empresas pela UDF, tem duas pós-graduações pela Fundação Getulio Vargas na área de economia; uma em elaboração, análise e avaliação de projetos em habilidade econômica e outra em finanças públicas

 

CARREIRA

 

É funcionário do Banco do Brasil, onde ingressou por meio de concurso público em 1992. Na instituição, participou da criação do Programa de Geração de Emprego e Renda (Proger), com o objetivo de fornecer crédito para informais, micro e pequenas empresas e cooperativas.

Foi também diretor da Fundação Banco do Brasil, na área de Apoio

às Comunidades Urbanas e Rurais, mais especificamente na implantação das Salas do Empreendedor,no âmbito do Programa Brasil Empreendedor.

Em 2011 foi eleito diretor-superintendente do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Distrito Federal (Sebrae/DF), para ocupar o cargo

até  2014. No último dia 5 de janeiro, foi reeleito diretor-superintendente para o quadriênio 2015-2018. Também pelo segundo mandato consecutivo, é presidente

da Associação Brasileira dos Sebraes Estaduais (Abase)

 

 

 

O senhor vivencia o trabalho de forma muito apaixonada, não é?

 

Vou contar uma história. Eu fui com a minha filha de 13 anos assistir à Cinderela no cinema, adorei. A última frase eu achei fantástica, a Cinderela continuava a ver o mundo como ele deveria ser, e não como ele era. E foi isso que eu disse na reunião aqui no Sebrae, enquanto nos preparávamos para a semana do MEI. Nesse evento, encontramos pessoas que não têm as oportunidades que nós fomos lá para dar, e nós demos isso de graça a elas. Isso é fazer com que as pessoas vejam o mundo como ele deveria ser, e não como ele é. São pessoas que muitas vezes são frustradas na relação com o estado, na relação com a comunidade. E tenho certeza de que mudamos algumas delas. Então não é só o papel de fomentar o empreendedorismo e a economia, é mais que isso. Isso é o que eu acredito, pelo qual sou apaixonado, é um papel de transformação. A gente muda as pessoas. O carinho com que as nossas equipes foram recebidas mostrou isso.


Esse movimento de ir para as RAs é muito interessante. Ele veio para ficar?

 

Sim, nós temos esse compromisso de descentralizar. O fluxo para o Plano Piloto é enorme. Mais de 400 mil pessoas vêm diariamente para trabalhar, mas precisamos mudar isso porque Brasília não aguenta mais. Como somos conhecidos como o centro administrativo do país, a política toma conta da pauta. Mas a nossa realidade econômica é muito rica, temos coisas maravilhosas para contar. Então eu tenho uma luta que é trazer a pauta econômica para mostrar para os brasilienses uma Brasília que Brasília não conhece. Por exemplo, neste ano, duas empreendedoras do DF ganharam prêmios nacionais do circuito do sistema Sebrae. Uma delas é a Noilde Maria de Jesus, que tem 45 anos e sustenta nove filhos plantando morango. O modelo de negócio dela ficou em 1º lugar no Brasil na categoria Produtora Rural. Nós tivemos também uma escola em Vicente Pires que ganhou o prêmio em gestão de educação. Temos muita história bacana para contar.

O senhor acha que a economia do DF tem condições de ser referência no Brasil?

 

É só contarmos para que as pessoas possam conhecer. Nós temos aqui um apicultor que ganhou o prêmio de qualidade pelo melhor mel do Brasil, mas tem gente que nem sabe que aqui tem agronegócio, fica achando que Brasília é só o asfalto da Esplanada dos Ministérios.

Voltando aos eventos, que outros estão previstos para este ano?

 

Iniciamos o Showroom Brasil Original no dia 1º de maio, no Park Shopping, e vamos até 31 de julho. É uma bela vitrine com 100% da renda das vendas para o artesão. O que o Sebrae faz é estruturar o espaço, pelo qual devem passar quase 1 milhão de pessoas ao longo dos três meses. E esse evento é muito bacana porque consegue convergir duas coisas: o incentivo ao artesanato no DF e a nossa iconografia. Nós estamos fazendo um trabalho de profissionalização desses empreendedores mostrando a eles a importância da qualidade dos produtos, o design. E eles estão chegando a uma qualidade invejável. Estamos valorizando esse artesão dando voz empreendedora à sua arte, ele põe ali a alma e pode transformar em negócio, viver disso. E exercer a nossa iconografia é fixar as marcas da cidade. Quem não conhece o croqui do Plano Piloto? As nossas tesourinhas, os nossos ipês, a caixa-d’água de Ceilândia, o relógio de Taguatinga? Nós fizemos um projeto para que esses artesãos apliquem essa iconografia na sua arte, de forma que o comprador não leve só um artesanato do DF, leve uma marca do Distrito Federal. É uma identidade.

Como vai ser a Feira do Empreendedor?

 

Será o nosso quarto grande evento e vai acontecer de 26 a 30 de agosto, fora do Centro de Convenções, pela primeira vez na história. Nós vamos montar uma grande estrutura no Taguaparque, em Taguatinga, e queremos receber 20 mil pessoas em cinco dias. Neste ano, a feira tem um mote: qualidade de vida. Queremos aproveitar as oportunidades de negócios nessa linha, por exemplo, a alimentação saudável e o segmento fitness. Porque temos uma renda per capita privilegiada e pessoas que se dão ao luxo de pagar um pouco mais e ter um consumo diferenciado. Temos de aproveitar isso. Em setembro teremos o quinto evento, o Fomenta. É uma preparação dos nossos empreendedores e queremos dar um foco mais forte nos microempreendedores individuais para as compras governamentais. Se juntarmos o orçamento do governo federal e o orçamento do GDF, os dois dão um universo de oportunidades de R$ 250 bilhões em compras que podem ser aproveitadas pelos MEIs.

Há uma tradição de que esse tipo de negócio seja feito por grandes empresas?

 

O que mostramos é que dá para distribuir para algumas pequenas empresas. Por exemplo, uma escola de Vicente Pires pode contratar uma empresa de lá para fazer o seu processo de limpeza, de segurança. O posto de saúde e a delegacia também. Claro que algumas grandes empresas fazem movimento de pressão, e isso é natural do mercado, não estou aqui para ser contra as grandes. Mas é aí que o Fomenta entra, é preparar pequenas empresas para ter estrutura, gestão e profissionais adequados. Porque se socializarmos essas compras governamentais, daremos um grande passo para o desenvolvimento, porque isso dá oportunidades, alavanca e segura emprego e renda no DF. Dá uma perenidade para o negócio.

O Alimenta, último grande evento agendado, também tem um foco bem definido. Qual é?

 

É uma feira voltada para a indústria da alimentação. O polo gastronômico do DF é o segundo ou terceiro no Brasil, e é fortíssimo. São aproximadamente 10 mil empreendimentos, entre bares e restaurantes, segundo o Sindhobar (Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Brasília). Essa Alimenta será a maior já feita, vamos levá-la para dentro do estádio. Queremos trazer caravanas do Brasil todo para conhecer oportunidades e ter acesso, por exemplo, à Cozinha Show, com grandes nomes da culinária nacional. Queremos mostrar que existe vida além do estado. Queremos que enxerguem isso e invistam no sonho de ter um negócio.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017