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A vida sobre rodas

Ter uma casa móvel é viajar sem amarras de tempo e espaço; é optar pela liberdade e pela informalidade; é esbarrar com pessoas e lugares que não conheceria num roteiro convencional. Em Brasília, os adeptos do motor home desconhecem a palavra monotonia

Larissa Leite - Publicação:23/06/2015 17:53Atualização:23/06/2015 18:49
Encontro de motor:  homes do grupo de campismo Gaviões do
Planalto: as famílias tornam-se amigas e viajam juntas
 (Vinícius Santa Rosa/Encontro/D.A. Press)
Encontro de motor: homes do grupo de campismo Gaviões do Planalto: as famílias tornam-se amigas e viajam juntas

Liberdade é escolher o destino da viagem no meio da estrada. É assim para a jornalista Nilva Rios e o engenheiro Marcelo Macedo. “Aconteceu de verdade. Programamos a data da viagem, colocamos a roupa no carro e somente quando vimos uma bifurcação nos perguntamos se iríamos para o Sul ou para o Nordeste”, conta a jornalista, divertindo-se. O espírito aventureiro se instalou cedo na história do casal. Já na lua de mel, há 29 anos, eles pegaram um trailer emprestado de um amigo e percorreram capitais do Nordeste, de Salvador a Fortaleza. Foi o suficiente para a estrada se tornar um inusitado ingrediente dessa história de amor.

 

Mas as viagens em família não se tornaram um marco por acaso. Já ouviu aquela história de que o processo para a conquista de algo é tão importante quanto o resultado final? Pois, para Nilva e Marcelo, o meio escolhido para viajar é tão importante quanto a viagem em si. Aonde forem, eles preferem ir de motor home. Com uma casa sobre rodas, conquistaram a praticidade que gostariam para sair por aí com total flexibilidade. “Gostamos quando acontece alguma coisa inesperada. Uma vez, decidimos andar sem rumo definido por Santa Catarina e coincidiu de chegarmos à cidade de Pomerode no dia da Festa Pomerana, uma tradicional festa alemã. Foi uma ótima surpresa”, conta Marcelo. Já Nilva enumera algumas vantagens práticas: “Não precisamos nos preocupar em marcar hotel e não preciso fazer nem desfazer mala. Na verdade, até desaprendi a fazer mala”.

 

O envolvimento com o motor home – motor casa ou casa sobre rodas – integrou o casal ao grupo de campismo Gaviões do Planalto, criado em Brasília em 2006. Atualmente, é Nilva a responsável por coordenar o grupo, que acolhe 30 proprietários de motor homes. Integrantes do grupo já viajaram juntos para destinos como Machu Picchu (Peru) e Ushuaia (Argentina), além de cidades brasileiras como Maragogi (AL), Porto Seguro (BA) e Santa Helena (PR).

 

A reportagem de Encontro Brasília foi convidada para o encontro do grupo realizado no último mês, em área particular de um condomínio do bairro Grande Colorado, na região de Sobradinho. Ali, cerca de 40 pessoas se encontraram ao longo de dois dias para trocar ideias sobre viagens, equipamentos e para se divertir. “Nós nos encontramos basicamente para conversar. Esse é um grupo pautado pela informalidade, no qual todos contribuem da forma como desejam. A única regra é o respeito ao próximo”, afirma Cláudio Costa Ferreira, o fundador do grupo. Dito isso, vários presentes fizeram um adendo para incluir a importância da tradição do “tiquinho”. Funciona assim: cada um leva um “tiquinho” de comida e pronto, está assegurado o banquete coletivo no almoço ou o jantar de logo mais.

 

Um dos mais empolgados com as viagens e os encontros entre campistas é Casimiro Reis, funcionário público que inclui toda a família no programa. A mulher, Patrícia Santana, e os filhos, Laís Santana Reis, de 12 anos, e Kallil Santana Reis, de 7, já adotaram o campismo como estilo de vida. “É engraçado, mas aqui eu já me sinto em família”, comenta Laís. O pai diz que a escolha pelo tipo de viagem diz respeito às experiências que ele gostaria de viver com a família. “Isso aqui é investimento em qualidade de vida. Vendi um carro mais luxuoso e comprei um carro popular e um motor home. Posso finalmente dizer que esse veículo está me servindo, e não que eu estou servindo a ele”, afirma.

Casimiro orgulha-se de já ter conhecido cinco países (Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina e Chile) a bordo do motor home desde que o adquiriu, em 2012. “Eu jamais conseguiria ter feito viagens como as que fiz sem um motor home. O carro me deu possibilidades de conhecer pequenas cidades, pontos turísticos interessantes que eu não visitaria de outra forma. Posso dizer que conheci praticamente tudo o que eu gostaria nos países onde estive”, comenta.

 

Vislumbrando a aposentadoria, o médico Masahiko Yoshimo   e a mulher, Luzia, compraram um motor home:   'Não ficaria trancado em casa'
 (Vinícius Santa Rosa/Encontro/D.A. Press)
Vislumbrando a aposentadoria, o médico Masahiko Yoshimo
e a mulher, Luzia, compraram um motor home:
'Não ficaria trancado em casa'
As viagens elaboradas fazem parte dos planos do médico Masahiko Yoshimo e da mulher, a técnica de enfermagem Luzia Biscaro Yoshimo. “Comecei a me questionar sobre o que eu faria depois da aposentadoria. Só tinha certeza de que eu não ficaria trancado em casa”, comenta Masahiko, que ainda conduz uma clínica particular. Ele conta que sempre gostou de viagens ligadas à natureza e já chegou a ficar uma semana em um barco a vela no lago Paranoá. O médico cita a viagem que fez saindo do Brasil para a Argentina, o Chile e o Peru. A volta foi pelo Acre. No entanto, o que ele faz questão de destacar é o espírito de grupo encontrado no universo do campismo. “Em uma viagem em grupo, se um carro quebra, todos param sem hesitar. Num grupo como este, não existe autoridade, nem doutor, nem status”, resume.

 

A solidariedade encontrada no campismo integra a própria trajetória da odontopediatra Emery Tiveron. Isso porque o motor home, além das habituais viagens, também é usado para um serviço social: atender, gratuitamente, pessoas carentes de serviço odontológico. Ela utiliza o motor home para carregar o material e chegar às áreas necessitadas. “Dedico as minhas férias de julho me deslocando até essas comunidades. Sempre usei minha profissão para ajudar os que não têm acesso à odontologia”, diz. Com esse intuito, a dentista já esteve em agrovilas da Rodovia Transamazônica, em um barco hospital no Amazonas e em cidades do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul. A ação é realizada por meio do projeto missionário “Uma Semana para Jesus”, da Igreja Metodista.

 

A odontopediatra Emery Tiveron usa o motor home também para um serviço social: atender comunidades sem acesso à saúde (Arquivo pessoal)
A odontopediatra Emery Tiveron usa o motor home também para um serviço social: atender comunidades sem acesso à saúde
Emery explica que o motor home é fundamental para o desenvolvimento desse trabalho, já que um veículo convencional não seria ideal para transportar o material necessário às consultas. “No motor home, eu transporto meus equipamentos odontológicos que, mesmo portáteis, são volumosos e pesados para um carro comum. O consultório é montado em escolas juntamente com outros colegas, formando assim um grande mutirão de atendimento de saúde”, conta. Além disso, Emery afirma que o veículo a deixa confortavelmente instalada onde quer que ela vá.

 

Na direção de veículos como motor homes desde 1973, o aposentado Luiz Edgar Tostes defende que uma viagem a bordo de casas sobre rodas costuma render inúmeras oportunidades de conhecer pessoas diferentes e, inclusive, de fazer amigos. “Em primeiro lugar, eu só dirijo de dia. Se tenho de parar na estrada, basta encostar em um posto de gasolina que tenha a presença de caminhoneiros, para pernoitar. Normalmente, somos bem acolhidos e ainda ganhamos dicas sobre a estrada.”

Luiz Edgar Tostes e sua mulher, Luiza Carvalho, mostram   o interior do motor home: na vida a bordo não tem rotina (Vinícius Santa Rosa/Encontro/D.A. Press)
Luiz Edgar Tostes e sua mulher, Luiza Carvalho, mostram
o interior do motor home: na vida a bordo não tem rotina

 

Há 14 anos, Luiz divide a direção do seu motor home com a mulher, Luiza Carvalho. Ela, que até então só havia dirigido carros pequenos, empolga-se ao comentar a experiência: “Eu coloco óculos escuros, um boné para disfarçar os cabelos brancos e sigo na estrada. É uma aventura, um estilo de vida. Para mim, reúne um monte de coisa boa: mobilidade, liberdade, informalidade”. Luiza lembra, no entanto, que viajar dentro de casa também significa arrumar a casa durante a viagem. “Tenho colegas que só querem viajar para serem servidas. Essas pessoas não podem viajar de motor home, porque existe louça para lavar depois do café”, pontua Luiza.

 

Segundo o casal, outro ponto alto da viagem em motor home são os encontros possibilitados pelas estadias em campings. “Geralmente, as pessoas recebem muito bem umas às outras. Já tivemos a oportunidade de conhecer gente de várias partes do mundo”, comenta Luiz. Quanto à qualidade da hospedagem, pode variar bastante, de acordo com a estrutura dos campings: “Na Europa, a estrutura das áreas para acampamento costumam ser ótimas. Algumas chegam a oferecer lavanderia, piscina, áreas de lazer. Os nossos irmãos latinos também têm mais tradição em receber campistas”, diz o aposentado, lembrando roteiros feitos por Portugal, Espanha e França; e pelos vizinhos Argentina, Uruguai e Paraguai.

 

Morador de Brasília desde 1957, Luiz Tostes é atualmente um dos diretores da Associação Brasileira de Campismo (Abracamping). Ele explica que o Brasil ainda não tem a mesma cultura de campismo dos Estados Unidos e Europa, mas que o movimento vem ganhando força nos últimos anos. “Vem se acentuando o interesse pela vida ao ar livre, e o aumento do número de pousadas e albergues com preços baratos trouxe uma competitividade com a hospedagem em campings”, diz. Um problema enfrentado pelo setor, no entanto, é a valorização dos terrenos nos últimos anos: “É um fator que tem dificultado o surgimento de novas áreas de acampamento e a manutenção das existentes”, afirma.

 

No Distrito Federal, por exemplo, o camping projetado por Lucio Costa como parte integrante do Plano Piloto, que funcionou no fim da Asa Norte, foi desativado em 2009. Sem um camping público, uma das únicas opções de estadias é o Albergue da Juventude de Brasília, localizado também na Asa Norte. Apesar de não ser um espaço exclusivo para a prática de camping, pois conta com estrutura de hostel, o albergue tem uma área com capacidade para cerca de 40 motor homes. No local, a diária é cobrada por pessoa, no valor de R$ 30.

 

O outro espaço de camping da cidade disponível para turistas é o Clube do Congresso, localizado no Lago Norte, que conta com 21 vagas para motor home. No clube, a diária é cobrada por veículo – com até cinco pessoas – e custa R$ 100. Para os que querem se associar ao clube e deixar o motor home estacionado no local, a mensalidade é de R$ 620. Nesse caso, os proprietários podem utilizar o motor home, dentro do clube, nos fins de semana e feriados. Ou seja, é proibido o uso como local de moradia. Das vagas disponíveis, que incluem ponto de energia individual, 10 estão ocupadas. A falta de estrutura na cidade faz com que a maioria dos proprietários da cidade guardem os veículos nas próprias residências ou em áreas particulares. Os encontros mensais do grupo Gaviões do Planalto, por exemplo, costumam ficar mais restritos a almoços no Parque da Cidade, onde os campistas preferem não pernoitar por questões de segurança. O grupo já chegou a fazer parcerias com o Zoológico de Brasília, para eventos com pernoite no local.

 

A Secretaria de Turismo do DF informou à reportagem que o governo elaborou um projeto arquitetônico, paisagístico e complementar do Camping Público de Brasília, previsto para ser implantado em uma área do Parque das Aves, em frente ao zoológico. No entanto, a implantação estaria sujeita à captação de recursos junto ao governo federal, ainda sem previsão de data.

 

Essas casas sobre rodas, têm, no mínimo: banheiro (com chuveiro, pia e sanitário), cozinha (com pia, fogão e geladeira) e uma mesa que pode se converter em cama. Os veículos ganham estrutura de acordo com o tamanho e luxo do equipamento – os custos para adquirir um modelo podem variar de R$ 40 mil a estrondosos R$ 6 milhões. Como adicionais, eles podem ganhar mais espaço interno, além de itens como teto solar, ar-condicionado, micro-ondas, máquina de lavar e secadora de roupas. As unidades mais luxuosas podem vir com banheiras de hidromassagem e um espaço interno para carro de passeio.

 

Dados divulgados no evento Brazil MotorHome Show, cuja segunda edição ocorreu em abril, em Jundiaí (SP), apontam que o segmento movimentou aproximadamente 140 unidades no Brasil em 2014, volume que representa um aumento de 40% sobre o número de 2013. Estima-se que no Brasil existam cerca de 10 mil unidades de motor homes. Eles se diferenciam dos trailers, que precisam ser rebocados por outros veículos, e de campers, que costumam ser carregados em cima da carroceria.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017