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Gravidez assistida

Período em que ocorre uma série de mudanças no corpo, a gestação pode ter reflexos nos olhos, na pele e nos dentes. Saiba quais cuidados devem ser tomados no pré-natal

Jéssica Germano - Redação Publicação:25/06/2015 16:39Atualização:25/06/2015 17:11
Durante a gestação do segundo filho, Lívia Guerra fez consultas ao oftalmologista todos os meses: problemas oculares a levaram ao centro cirúrgico na primeira gestação (Vinícius Santa Rosa/Encontro/D.A. Press)
Durante a gestação do segundo filho, Lívia Guerra fez consultas ao oftalmologista todos os meses: problemas oculares a levaram ao centro cirúrgico na primeira gestação

Algumas precauções são de conhecimento geral: as grávidas devem evitar comidas cruas e bebidas alcoólicas, não podem tingir o cabelo nem se submeter a atividades radicais. Outras, todavia, só costumam vir à tona durante o pré-natal. Os cabelos, a pele, a visão e a saúde bucal também merecem atenção especial durante essa fase, pois ficam mais suscetíveis a problemas.

O coordenador da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Iphis Campbell, lembra que, devido à grande variação hormonal pela qual a mulher passa durante a gravidez, muitas questões podem surgir. Certas manchas na pele, por exemplo, são comuns, segundo ele. “O escurecimento de algumas áreas, como aréola mamária ou daquela linha central do corpo, e sinais pretos – conhecidos como nevos melanocíticos – especialmente”, lista. Ele explica que essas alterações, de modo geral, não costumam influenciar a pele do rosto, porém, uma ou outra paciente pode desenvolver um quadro de acne. “É algo fisiológico, que ocorre durante a gravidez. Depois, volta ao normal.”

Iphis Campbell, dermatologista, alerta sobre os cuidados com a pele durante a gravidez: manchas são comuns, mas não se podem usar medicamentos (Vinícius Santa Rosa/Encontro/D.A. Press)
Iphis Campbell, dermatologista, alerta sobre
os cuidados com a pele durante a gravidez:
manchas são comuns,
mas não se podem usar medicamentos


Outro reflexo, bastante comum em mulheres hispânicas ou morenas, de acordo com o médico, é a mancha marrom no rosto, chamada de melasma, que pode aparecer em ambas as bochechas ou no nariz. Esta pode ser tratada ainda durante a gestação. “Podem-se usar alguns cremes clareadores para que não se intensifiquem, mas sem ácido retinoico”, orienta.

O dermatologista explica que a substância deriva da tretinoína, vitamina que, se tomada durante a gravidez, pode provocar alterações neurológicas, de formação e oculares no feto. Por conta disso, a prescrição de qualquer tratamento deve ser feita pelo médico. Cremes hidratantes podem ajudar a pele a ficar mais macia e evitar estrias, por exemplo, mas nenhum ácido deve ser aplicado nesse período, alerta o especialista.

Cabelos e unhas também estão suscetíveis a transformações. No primeiro caso, Campbell cita que é frequente a queda de fios após o parto. “A queda pode se iniciar até cerca de oito meses depois e durar até seis”, complementa. O processo se dá por conta da situação hormonal, que começa a voltar ao normal no período de quarentena e se concentra, principalmente, na lateral do couro cabeludo, próximo às orelhas. “Acontece com a maioria das pacientes, embora em graus diferentes, mas depois se normaliza também.” Já nas unhas, a mudança costuma ser sutil e recai apenas sobre o fortalecimento, segundo o especialista.

Em relação aos olhos, as sensações podem ser mais variadas. “Na gestação, há uma série de alterações hormonais e também da parte hemodinâmica, que se volta, basicamente, para o acúmulo de líquido”, diz o oftalmologista Renato Diaz. “O volume de sangue aumenta muito e isso pode causar algumas alterações transitórias, que podem ser importantes ou não tanto.” Nesse contexto, inchaço nas pálpebras, sensibilidade maior à luz, sentir o olho seco, ter desconforto com lentes de contato ou sofrer uma mudança leve, e temporária, de grau são comuns.

 

O oftalmologista Renato Diaz alerta para alguns sintomas da gravidez: inchaço nas pálpebras, sensibilidade maior à luz e olho seco são alguns deles (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
O oftalmologista Renato Diaz alerta para
alguns sintomas da gravidez: inchaço nas
pálpebras, sensibilidade maior à luz e
olho seco são alguns deles
Para evitar desconfortos, o especialista em retina e vítreo do Hospital de Olhos INOB sugere algumas precauções básicas que podem ser tomadas em casa mesmo. “Preocupar-se em ter uma boa hidratação com água e tomar cuidados gerais: com o ar-condicionado, com a exposição prolongada à frente do computador – quando se pisca menos diante da tela, e que pode ajudar a descompensar um eventual olho seco”, recomenda. Se a gestante não estiver seguindo nenhuma dieta com restrições específicas, alimentos como linhaça e salmão, ricos em ômega 3, também podem ser benéficos. “Eles ajudam bastante na lubrificação ocular.” O oftalmologista pondera, porém, que nem toda mulher têm queixas em relação à visão nesse período. “Se a pessoa está bem, ela pode nem chegar a perceber ou manifestar algum sintoma”, frisa. Para essas, Diaz afirma que uma visita ao oftalmologista não chega a ser necessária.

Pacientes que já têm histórico de pressão alta ou diabetes, todavia, precisam estar mais atentas. Mães que desenvolvem pré-eclâmpsia, quando se tem aumento da pressão arterial a partir da 20ª semana de gestação, podem ter as primeiras manifestações da doença nos olhos, de acordo com o oftalmologista. Nesses casos, relâmpagos de luz, manchas escuras ou visão embassada são indícios de algum problema. “Pode haver hemorragia na retina e, eventualmente, descolamento, por conta desse aumento súbito da pressão”, destaca. Sintomas assim indicam que a paciente também deve ser acompanhada por um cardiologista, além das outras especialidades médicas.

Mulheres diabéticas, por sua vez, têm a tendência de desenvolver uma retinopatia, causada especificamente pela doença, que é quando o excesso de glicose no sangue danifica os vasos sanguíneos na retina. Se não tratada, a visão pode ser seriamente comprometida e levar à cegueira. Para grávidas com esse perfil, o médico recomenda visitas periódicas a cada três meses. “Às vezes, é preciso fazer tratamento até durante a gestação”, contextualiza.

No caso da bancária Lívia Guerra, uma alta miopia de quase nove graus e um histórico familiar de descolamento de retina a fizeram ir para o centro cirúrgico 15 dias antes do nascimento do primeiro filho, há seis anos. “Eu percebi algumas coisas diferentes na vista, como se fossem flashes”, lembra. Na ocasião, foi o doutor Renato Diaz quem teve de operá-la de emergência. “A pessoa com miopia muito alta tem um risco maior de descolamento de retina, porque ela geralmente é mais fina”, explica ele, que, na segunda gestação da paciente, acostumou-se a recebê-la mensalmente no consultório. “Ela ficou tão assustada, que vinha todo mês para ver se estava tudo bem”, conta.

Com o filho mais novo de apenas 2 meses nos braços, Lívia recomenda a todas as grávidas uma cautela maior em relação à vista. “Eu fiquei muito tensa, porque meu pai já tinha perdido a visão”, lembra-se da situação. “Realmente é preciso cuidar dos olhos na gestação. Para quem tem miopia, mais ainda.”

A professora de odontopediatria Soraya Leal explica que os enjoos podem alterar o pH da saliva: desmineralização dos dentes é consequência (Vinícius Santa Rosa/Encontro/D.A. Press)
A professora de odontopediatria Soraya Leal explica que os enjoos podem alterar o pH da saliva: desmineralização dos dentes é consequência
Já em relação aos dentes, nenhuma das questões que geralmente surgem na gravidez têm uma relação fisiológica direta com a gestação. É o que explica a professora de odontopediatria da Universidade de Brasília Soraya Leal. “O que acontece é que a mulher, de uma maneira geral, está passando por um período de transformação. Em função da situação como um todo, às vezes, o cuidado da saúde bucal acaba sendo deixado de lado”, esclarece a dentista. “Mas a gravidez, por si só, não vai gerar problemas.”

Segundo ela, o hábito comum durante a gestação de comer com maior frequência e o próprio enjoo – que eleva o pH da saliva e causa a desmineralização do dente – elevam o mito de que ficar grávida aumentaria o número de cáries ou gengivite, por exemplo. “Existe a interação de alguns fatores: a higiene que não acontece ou não acontece de forma efetiva, um eventual enjoo do sabor do creme dental”, cita. Por essas questões, Soraya ressalta que, assim como a grávida faz o pré-natal, ela deveria visitar um dentista para garantir que a saúde bucal está em dia. Caso o filho seja planejado, ela recomenda ainda que, antes de iniciar a gestação, a futura mãe vá a um especialista. “Assim, ela passará por esse período gestacional bem, será orientada e precisará apenas fazer o controle”, sugere.

 

Alguns procedimentos, entretanto, devem ser evitados nessa fase. Tratamentos que necessitem de radiografias antes de o feto completar três meses não são recomendados. Assim como implantes, que geralmente requerem uso de anestesia e que a grávida fique em uma mesma posição durante muito tempo. A dentista ressalta um dado importante, observado por diversos estudos na área.  “A mulher que não se cuida adequadamente tende a transmitir esse padrão para o filho”, salienta. “Aquele que valoriza bem sua saúde bucal vai passar isso para a próxima geração”, atesta.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017