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Eles têm futuro

A música é importante aliado do desenvolvimento infantil. Conheça histórias de crianças e jovens brasilienses que se destacam ao tocar instrumentos musicais

Sara Campos - Publicação:01/09/2015 15:00Atualização:01/09/2015 17:40

A música está presente em nossas vidas há muito mais tempo do que imaginamos. Desde o 4º mês, ainda na barriga da mãe, os estímulos sonoros fazem parte da vida do feto em formação: é a memória que apresenta traços de desenvolvimento. O som ao qual somos expostos durante esse período auxilia no crescimento da memória musical, que pode estar relacionada a diferentes ritmos e instrumentos. “A partir desse momento, a criança já passa a receber estímulos auditivos externos. Junto com o desenvolvimento da via auditiva, ela também desenvolve a parte cerebral responsável pela memória. Quando a criança chora e a mãe canta para acalmá-la, ela já tem a memória auditiva, que é a primeira a ser formada. A música é fantástica: não é só arte, também é ciência”, ressalta Carlos Aucélio, professor de neurologia infantil formado pela faculdade de medicina da Universidade de Brasília (UnB).

 

As lembranças durante a gestação da mãe provavelmente influenciaram  a dupla de  irmãos Antônio Coelho, de 10 anos,  e Felipe Coelho, de 7, pela  inclinação à música  clássica. Estudantes de violino e  violoncelo, respectivamente, tiveram o contato com  clássicos  de Bach e Vivaldi ainda  no  útero. “Tinha uma coleção de clássicos com sonoridade de caixinha de música. Quando eles nasceram, continuei colocando esses  CDs para tocar  e eles ficavam  vidrados no que ouviam, lembra a mãe,  a tradutora Beatriz Barros Coelho.

 

Ao lado do marido, Marcello Rolim Coelho, ela sempre fez questão de que a música fizesse parte da rotina dos filhos: o hábito ia de assistir a DVDs a jantares em família com trilha sono- ra. “Sempre achamos que a música é importante par a formação cultural e o desenvolvimento  emocional diz Beatriz. O casal matriculou os irmãos aos 2 anos de idade no curso de musicalização  infantil do programa Música para Crianças do Departamento de Música  da UnB. No projeto, as crianças adquiriram as noções básicas de ritmos e coordenação motora e fizeram  um  ano  do  dulo pré-instrumental, fase em que os professores apresentam  todos os instrumentos lecionados que posteriormente são escolhidos pelas crianças.

 

Para Antônio, que toca violino desde os 5 anos,  a escolha pelo  instrumento foi algo natural. “Chegaram a me oferecer piano, mas o violino sempre foi o meu preferido, relata o jovem, que revela ser fã de Vivaldi e já fez apresentações com a orquestra do projeto. A escolha dos dois irmãos por instrumentos de música clássica foi um fator que os ajudou mutua- mente. Durante os períodos de lazer, ambos tocam músicas em conjunto aos familiares. Como o instrumentos bastante complementares, os dois sempre treinam juntos e se ajudam ao mesmo tempo”, ressalta a mãe. Apesar do formato clássico do violino e do violoncelo, os irmãos se declaram apaixonados por artistas conhecidos pela roupagem contemporânea a instrumentos clássicos, como The Piano Guys e David Garrett, que toca músicas de bandas como Coldplay, Gun's and Roses e Nirvana com arranjos no violino. Tanta influência clássica fez com que os irmãos apresentassem um desenvolvimento além do esperado por Ricardo Dourado, coordenador do projeto. "Ambos têm um nível muito alto para crianças da idade deles."


Concentração, resiliência e objetividade: características valorizadas pela maioria dos pais ao educar os filhos. A música pode ser uma importante aliada para que esses elementos façam parte da rotina de crianças e adolescentes. Segundo Ricardo Dourado, o desafio de aprender a tocar um instrumento pode auxiliar no desenvolvimento de todas as áreas da vida. “Ela vai adquirir qualidades importantes para lidar com os desafios do cotidiano. Essa é uma questão de como a criança consegue canalizar os seus desejos para alcançar seus objetivos.”

 

Algumas habilidades podem ser conquistadas durante o aprendizado de qualquer instrumento, como o desenvolvimento da coordenação motora e a concentração, mas diferentes desafios físicos são colocados à prova, dependendo da modalidade escolhida: os de sopro, por exemplo, trabalham respiração e coordenação dos músculos da face. Já o piano exige mobilidade das mãos simultaneamente com notas distintas, além de maior coordenação motora. Apesar de não existir uma idade ideal para a atividade, Ricardo Dourado afirma que, em grande parte dos casos, aos 6 anos a criança já está fisicamente desenvolvida para tocar a maioria dos instrumentos, como piano, violão e flauta doce. “É muito importante que a criança tenha um maior acompanhamento para ser apoiada. Caso contrário, ela pode se sentir desestimula- da e desiste facilmente de aprender”, ressalta Dourado, que coordena o projeto formado por 930 crianças.

 

Para o especialista Afonso Celso Galvão, mestre em educação e doutor em psicologia educacional da Universidade Católica de Brasília, a música é uma das poucas atividades humanas que operam em três dimensões simultaneamente: cognitiva, emocional e sinestésica – a  última  um sentido corporal que envolve a coordenação simultânea entre cérebro, olhos e movimentos. “Produzir música é uma das atividades mais complexas que o homem já inventou. Uma simples participação de um músico de cordas numa orquestra pode ser capaz de produzir 4 mil movimentos.”

Apesar do incentivo dos pais, há muitas ações que podem atrapalhar a criança a desenvolver plenamente habilidades musicais. A pressão por um desempenho perfeito e a comparação com outras crianças até mesmo da própria família são fatores desestimulantes para o progresso da aprendizagem. “Os pais devem entender que o desenvolvimento da criança nunca é linear. Cada um tem seu ritmo de aprendizagem e é preciso respeitá-lo”, garante o professor, que afirma ser cuidadoso ao lecionar para irmãos. “Sempre estimulo que eles escolham instrumentos diferentes. Isso alivia a pressão e evita comparações desagradáveis, além de estimular o desenvolvimento individual.”

 

A liberdade de tocar o instrumento desejado é um fator levado a sério pelo músico Fernando César Mendes. Ele é pai de Bento, de 6 anos, que recebeu a reportagem de Encontro Brasília tocando Something, do ex-beatle George Harrison, no bandolim que pertenceu ao tio músico Hamilton de Holanda. “Tudo isso é considerado uma brincadeira de criança. Deixo o Bento tocar o que quiser e quando quiser sem forçá-lo a nada”, afirma o músico.

A mesma fórmula foi colocada em prática pelo pai de Fernando César, o também músico José Américo. “Tenho a impressão de que a inclinação para a música está no DNA. Quando os meninos (Hamilton e Fernando César) eram pequenos, fazia isso como um hobby. Comprava instrumentos para eles experimentarem, mas nunca forcei para que se tornassem profissionais. Isso fez parte de uma escolha individual e natural”, diz o patriarca que ensinou o neto a tocar O Sol Nascerá, de Cartola, a primeira música que Bento tocou do início ao fim usando o bandolim.

 

Depois de Bento mostrar inclinação para esse instrumento, Fernando César, ao lado de outros pais, reuniu um grupo de crianças para abrir a primeira turma de bandolim para o grupo no Clube do Choro, iniciada em fevereiro. “Assim como ele, há outras crianças que têm interesse pelo bandolim, um instrumento incomum para jovens dessa faixa etária” ressalta, lembrando que não tem planos definidos para a profissão do filho. “Não vou pressioná-lo a seguir o caminho musical. Quero que ele faça o que vai fazê-lo feliz, seja na música, seja em qualquer outra área.”

 

A turma de bandolim para crianças, a primeira direcionada a crianças de 6 e 7 anos no Clube do Choro, foi uma tentativa de despertar cada vez mais cedo o interesse de crianças pelo instrumento. “O bandolim é um dos instrumentos menos tocados no universo do choro. Nossa ideia é resgatarmos essa prática e aproveitamos a facilidade natural que as crianças têm para aprender a tocar um instrumento”, diz o professor e bandolinista Felipe Guimarães, que toca desde os 6 anos.

Ainda criança, o estudante Pedro Monteiro, de 16 anos, guarda na memória os acordes de clássicos do reggae tocados pelo pai, Alexandre Carlo, vocalista do Natiruts. Aos 8 anos, o jovem já tocava violão ensinado pelo pai, um dos precursores da reggae music na capital do país. “Quando comecei com a banda me chamavam de louco por querer fazer reggae na capital do rock”, relembra Alexandre, que destaca as dificuldades de acesso a um repertório musical antes da chegada da internet. “Hoje em dia, esta nova geração tem muito mais acesso à informação. Na minha época era preciso pedir álbuns que chegavam via correio.”

 

Do violão, o filho de Alexandre partiu para guitarra e chegou a estudar teclado por um período curto. Há três anos, a inclinação de Pedro para a música daria um importante passo. Durante o aniversário de um amigo guitarrista, decidiu fazer um show com outros amigos que tocam bateria e baixo. Era o início da banda Princípio Central, dedicada à soul music. “A partir daí, fiquei mais interessado em música. Comecei a analisar coisas que não analisava quando não me apresentava. Quando vou aos shows, presto atenção nos arranjos e em outros detalhes que passavam despercebidos anteriormente”, analisa Pedro, que pretende cursar jornalismo antes de optar por seguir carreira musical.

 

A ligação entre pai e filho se torna ainda mais forte com a troca de informações entre os dois. Além de dicas para apresentações, detalhes dos bastidores do mercado fonográfico são revelados por Alexandre ao filho. “Esse universo atrás do palco é algo que poucos veem. É importante transmitir essa vivência a ele”, destaca o músico. Apesar de apoiar a inclinação de Pedro à música, Alexandre acha que a prioridade do filho deve ser a diversão. “Ele é muito jovem para direcionarmos seus passos e acho muito perigoso um menino de 16 anos fazer sucesso. Temos exemplos na história da música que fizeram sucesso adolescentes e vivem um mundo paralelo. Com isso, vemos pessoas estigmatizadas, que não conseguem fazer uma transição para o mundo adulto”, analisa o vocalista do Natiruts.

 

Alexandre enxerga com bons olhos a nova safra de músicos dedicados ao reggae e diz que é preciso continuar o legado do ritmo na capital. “Eles têm praticamente um tapete vermelho estendido e não vão precisar passar pelo que nós passamos no início”, relembra. Entre o conhecimento transmitido ao filho, Alexandre destaca que é preciso buscar um aprimoramento musical constante e amar o que se faz. “A música mexe com emoção. É preciso estar bem consciente do que você gosta e não fazer por dinheiro.”

Tocar profissionalmente um instrumento robusto não é um desejo comum para a maioria das meninas, fato que não intimidou a jovem Daiana Andrade, de 17 anos. O trombone, predominantemente tocado por homens, chegou de paraquedas na vida da adolescente, que integra a orquestra Brasília Sopro Sinfônica, do projeto Música e Cidadania, do Paranoá. A iniciação musical aconteceu com o violoncelo na época que o ensino era restrito a instrumentos de corda. “Depois de aumentarem as opções, me apresentaram ao trombone e foi paixão à primeira vista”, revela Daiana, que inicialmente driblou a resistência dos pais para se dedicar ao instrumento.

 

Para aprender a tocar em nível profissional, a jovem se dedica com treinos diários de aproximadamente três horas e ensaios aos sábados com todos os integrantes da orquestra, que não tem faixa etária específica. “Os musicistas têm de 14 a 40 anos. Eles se divertem juntos e são sempre estimulados a exercitar um aprendizado compartilhado. Um sempre ajuda o outro”, afirma Liliane Aparecida dos Santos, professora de Daiana e ex-aluna do projeto. Para ela, o maior desafio para tocar o trombone é a respiração. “É preciso aliá-la à coordenação. Treinar o ouvido também é fundamental, já que o instrumento não tem teclas e o som depende da percepção auditiva.”

 

A jovem, que participa do projeto há três anos, já tem planos de se dedicar à música como profissão. Para ampliar o conhecimento musical, a adolescente faz estágio no projeto e apesar de ter contato com outros instrumentos musicais não deseja deixar o trombone. “A música fez com que me tornasse uma pessoa mais disciplinada e concentrada. Não me vejo trabalhando em outra profissão”, revela a estudante.

As bandas de rock amadas pelo pai, Fábio Henrique Borba, influenciaram o repertório musical de Gustavo Borba, de 10 anos. Estudante de guitarra há um ano, o jovem impressionou os pais e os professores durante a primeira audição de uma escola de música tocando Highway to Hell, clássico da banda australiana AC/DC, primeira música que ele aprendeu a tocar no instrumento. “Nós não tínhamos dimensão do quanto ele estava evoluído. Foi uma surpresa muito boa para todos nós”, relata a mãe, a funcionária pública Magnólia Borba.

 

O início de Gustavo na música aconteceu na escola Santo Antônio, onde fez parte do ensino fundamental. Entre as atividades pelas quais poderia optar, estava aprender um instrumento musical para formar a banda da escola. Na época, ele escolheu o trompete, mas em pouco tempo o rock falaria mais alto. Após sair do grupo, Gustavo começou a fazer aulas de bateria em uma escola especializada no instrumento, mas se frustrou durante o aprendizado. “Ele não se identificou muito com o método de ensino do professor e se sentiu desestimulado”, avalia Magnólia.

 

Depois da experiência, Gustavo achou que era hora de trocar de instrumento, mas sem abandonar o rock. Optou pela guitarra e já decidiu dedicar-se a ela por muito tempo. “Admiro muito quem toca qualquer instrumento. Eu me sinto realizado vendo o Gustavo tocar as músicas das bandas que escuto desde a adolescência. É um dom”, ressalta Fábio Henrique, responsável por selecionar a trilha sonora dos momentos em família com direto a muito rock clássico.

 

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017