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Gastrô 2015|Serviço »

A arte de servir

O bom atendimento é fator decisivo na escolha de um restaurante ou bar.Saiba quem atende de forma impecável o brasiliense

Leilane Menezes - Colunista Publicação:29/09/2015 14:13Atualização:30/09/2015 16:25

Fracisco Nunes da Silva, o Chiquinho, funcionário do Bierfass, elogiado pelo atendimento: tratado carinhosamente por 'Excelência' entre os fregueses mais íntimos  (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Fracisco Nunes da Silva, o Chiquinho, funcionário do Bierfass, elogiado pelo atendimento: tratado carinhosamente por "Excelência" entre os fregueses mais íntimos
Não basta ter boa comida, decoração interessante e cardápio de encher os olhos. Se o cliente se sentir mal recebido, ele provavelmente não voltará. Pesquisa recente encomendada por uma revista especializada em negócios apontou que o bom atendimento é a principal preocupação de 61% dos consumidores entrevistados, mais relevante até do que a qualidade da comida e o preço. Portanto, uma equipe bem treinada é essencial para o sucesso de um negócio. Alguns restaurantes e bares tornaram-se referência em serviço. Têm público fiel e há quem não abra mão de ser servido sempre pelo mesmo garçom.

 

Considerada a melhor hamburgueria de Brasília por Encontro Gastrô – O Melhor da Cidade, a casa situada na quadra 301 do Sudoeste, pequena, virada para os fundos do bloco comercial, tinha tudo para passar despercebida pelo público. A não ser dois detalhes: a excelência no preparo da comida e o atendimento especial. No Brazilian American Burguer são os donos quem serve as mesas. Sócios, Bruno Douglas Lopes e Ricardo Brizolim não vendem apenas alimento. “Vendemos principalmente simpatia”, diz Bruno. Agradar é missão levada a sério. No fim da refeição, o frequentador ganha sorvete artesanal. A receita dos doces é assinada por Bruno. Ricardo é o responsável pelos sanduíches e pratos. “O cliente deve sair 100% satisfeito. Geralmente, quando algo é oferecido de graça, entrega-se um produto de baixa qualidade. Aqui fazemos exatamente o contrário, só trabalhamos com o que há de melhor”, afirma Bruno.

 

O empresário acredita que no mínimo 60% da fórmula do sucesso do restaurante vem do atendimento. “Cordialidade é tudo. Faço questão também de explicar ao cliente como nosso produto é feito, de dizer que nós moemos a carne do hambúrguer na hora. É isso que cria uma boa experiência digna da repercussão boca a boca que temos. No começo, eu ficava na frente do bloco chamando as pessoas para entrar. Hoje, o movimento é espontâneo”, lembra Bruno. O primeiro cliente a frequentar o Brazilian American Burguer mantém-se fiel até hoje, dois anos e três meses após a abertura da loja.

Bruno Lopes, sócio do Brazilian American Bur-guer, serve pessoalmente as mesas: atendi-mento top (Vinícius Santa Rosa/Encontro/D.A Press)
Bruno Lopes, sócio do Brazilian American Bur-
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Ricardo é arquiteto e deixou uma consolidada carreira de lado para abrir o próprio negócio ao lado de Bruno, que é administrador de empresas e contador. Ainda neste mês, eles devem abrir, no mesmo bloco do Brazilian, uma sorveteria de gelatos italianos legítimos, com 25 sabores.

 

A preocupação em receber bem todos os clientes foi o que motivou os donos do Empório Árabe, em Águas Claras, a treinar a equipe da casa para atender corretamente pessoas com deficiência visual. Além da acessibilidade física, com rampas e banheiros adaptados, os proprietários desejavam que os frequentadores que não enxergam ou que têm qualquer outro tipo de limitação física tivessem o maior conforto possível na hora de sentar-se à mesa e fazer seus pedidos. Até a distância entre as mesas é pensada para a passagem de cadeiras de rodas.

 

Considerado um dos melhores garçons do lugar, Leonardo de Oliveira Carlos destaca-se entre os colegas. Ele participou do treinamento e coloca em prática os conhecimentos no dia a dia. “O principal é ter atenção, ver a expressão corporal do cliente, saber se ele precisa de algo ou está satisfeito. Com relação às pessoas que não enxergam, é preciso muita sensibilidade e sutileza para que fiquem à vontade. O garçom deve explicar onde cada item da mesa está, descrever a montagem do prato e dar todas as informações para que o cliente se sirva com independência”, ensina.

No Lake's, na Asa Sul, há duas décadas, Elias Ferreira Barros chega a adivinhar pensamentos:'Precisamos nos antecipar. Antes mesmo do cliente precisar de algo, devemos providenciar. Só prestando muita atenção para conseguir' (Vinícius Santa Rosa/Encontro/D.A Press)
No Lake's, na Asa Sul, há duas décadas, Elias
Ferreira Barros chega a adivinhar pensamentos:
"Precisamos nos antecipar. Antes mesmo do
cliente precisar de algo, devemos providenciar.
Só prestando muita atenção para conseguir"

Leonardo trabalhava na construção civil. A dona de um restaurante notou sua simpatia e boa educação e o convidou para um teste. Leonardo ganhou o emprego e rapidamente conquistou novos cargos na empresa. Há sete anos, trabalha como garçom. Já fez parte da equipe do Balaio Café e do Loca como Tu Madre. “Atender bem faz parte da cultura árabe, e o Leonardo entendeu isso muito bem”, elogia a chef Lídia Nasser, responsável pelo Empório Árabe.

 

Chegar ao posto de garçom é motivo de orgulho para quem gosta da profissão. Em geral, os iniciantes lavam pratos, limpam o chão e auxiliam no carregamento das louças, para só depois chegar ao salão principal e ter contato diretamente com os clientes. Foi esse o caminho percorrido por Francisco Nunes da Silva, o Chiquinho, funcionário do Bierfass, no Pontão do Lago Sul, há cinco anos. Hoje, ele é tratado pelo carinhoso apelido de “Excelência” entre os fregueses mais íntimos. “O Chiquinho está sempre sorrindo, até brinco com ele que isso não é normal. Nos vemos toda sexta-feira, no almoço de família. A cordialidade dele e o bom humor são permanentes”, elogia Luiz Antonio Arrochela.

 

Quem vê o sorriso e a gentileza de Chiquinho não imagina as dificuldades já vividas por ele. Morador de São Sebastião, casado e pai de três filhos, ele trabalha oito horas por dia no ritmo acelerado que exige um restaurante, para sustentar a família. Veio de Juazeiro do Norte (CE) aos 13 anos e, desde então, trabalha pesado para se manter. “Meu irmão veio primeiro para Brasília e, depois, o restante da família se juntou a ele. Somos sete irmãos no total. No começo, eu trabalhava escondido em uma frutaria, porque eu era criança e não podia estar lá. Trabalhar como garçom me deu a oportunidade de conhecer várias pessoas e ter uma vida melhor”, relata.

 

Chiquinho tem 39 anos e é profissional dessa área desde os 16. Fez cursos para aprender sobre talheres, vinhos e taças. “O garçom deve saber servir com prazer. Tem de reconhecer o clima da mesa, se é um almoço descontraído, uma celebração ou reunião de negócios, para então decidir como abordar aquele cliente. Dançamos conforme a música”, diz. Ele ressalta a importância do bom relacionamento entre patrão e empregado, para que o serviço seja ideal. “É muito importante que o patrão trate bem os funcionários, para que eles tratem bem o cliente, que sente o clima do local”, diz.

Considerado um dos melhores garçons do Em-pório Árabe, Leonardo de Oliveira Carlos fez um curso para aprender a servir, inclusive, deficientes visuais: 'O principal é ter atenção, ver a expressão corporal do cliente' (Vinícius Santa Rosa/Encontro/D.A Press)
Considerado um dos melhores garçons do Em-
pório Árabe, Leonardo de Oliveira Carlos fez
um curso para aprender a servir, inclusive,
deficientes visuais: "O principal é ter atenção,
ver a expressão corporal do cliente"
 

No Lake’s, na Asa Sul, a equipe de garçons tem um desafio: adivinhar pensamentos. “Precisamos nos antecipar. Antes mesmo de o cliente precisar de algo, devemos providenciar. Só prestando muita atenção para conseguir. Queremos que o frequentador saia daqui encantado e fique o mais confortável possível”, descreve o garçom Elias Ferreira Barros, há 20 anos no Lake’s. Não é raro ter membros na equipe desse estabelecimento com mais de duas décadas de serviço. Os proprietários investem na formação de mão de obra. Ali, também é preciso começar de baixo, até chegar ao posto de maître ou garçom. Elias foi copeiro, carregador, barman, caixa e chegou ao atendimento. “Trabalhamos com público exigente. A bebida não pode demorar, a conta não pode vir errada. Queremos que todos se sintam especiais”, ensina Elias.

 

Além do trato com a clientela, Elias também valoriza uma boa apresentação pessoal. Cuida bem da aparência e prima pela elegância. Nesses 20 anos de casa, ele fez amigos e acompanhou a história de muitas famílias. “Nós vemos os filhos das pessoas crescerem, de certa forma criamos uma relação”, afirma. Conhecer o cliente pelo nome e saber qual é a sua bebida favorita, o momento de interagir ou de silenciar são apenas algumas das qualidades do bom garçom. Discretos e prestativos, eles são figuras importantes nos melhores momentos de lazer e mostram o valor daqueles que trabalham para que outros possam se divertir.

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017