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Criatividade para driblar a crise

Com a alta do dólar, o consumo de rótulos importados reduziu. Comerciantes abrem mão da margem de lucro para manter cliente satisfeito

Guilherme Goulart - Redação Publicação:30/10/2015 13:43Atualização:30/10/2015 17:46
Donas do Mestre-cervejeiro.com, as irmãs Amanda e Fernanda Gomes: os clientes são exigentes e não deixam de gastar (Thamires Gomes/Esp. para Encontro/D.A Press)
Donas do Mestre-cervejeiro.com, as irmãs Amanda e Fernanda Gomes: os clientes são exigentes e não deixam de gastar
Em tempos de crise, a saída é se adaptar. O mercado cervejeiro, atingido em cheio pela alta do dólar, busca alternativas para manter a clientela, principalmente aquela que tem tirado a mão do bolso na hora de pagar pela marca preferida. “Hoje, a nossa margem de lucro não está tão elevada para não assustar o cliente. É o que muitos estão fazendo para sobreviver nesse período”, conta Amanda Gomes, que, com a irmã, Fernanda, inaugurou há seis meses a Mestre-Cervejeiro.com.

A franquia atende na Quadra 301 do Sudoeste e, apesar do pouco tempo de mercado na capital federal, tem detalhado o perfil da clientela. “Sabemos como funciona o nosso público. Saem muito as escuras e as encorpadas, mais a IPA (India Pale Ale) do que a Stout. Mas são cervejas que precisamos ter sempre. Além do mais, quem gosta de cerveja exige novidade e, dificilmente, vai deixar de gastar se tiver o que pode experimentar”, explica Amanda. Do outro lado da rua, na Quadra 101, fica o Camberra. Assim como a Mestre-Cervejeiro.com, o local funciona como ponto de venda e de degustação. Ao som de blues, jazz e rock’n’roll, o cliente tem à disposição 400 rótulos, entre belgas, alemães, russos,
americanos, ingleses, brasileiros, tchecos e de outras nacionalidades. A casa também oferece cinco torneiras com chopes especiais. Essas, aliás, são alternativas para driblar a crise no país. “O chope é um bom caminho, pois dá mais liberdade para a venda e o consumo”, opina André Ricardo Vieira Alves, sócio-proprietário ao lado de Dercino Sancho dos Santos Neto.
André Ricardo Alves e Dercino dos Santos Neto são donos do Camberra: 400 rótulos e torneiras de chope, forma mais acessível de degustação , à disposição (Thamires Gomes/Esp. para Encontro/D.A Press)
André Ricardo Alves e Dercino dos Santos Neto são donos do Camberra: 400 rótulos e torneiras de chope, forma mais acessível de degustação , à disposição

O Camberra abriu no fim do ano passado exatamente onde funcionava a Boutique do Godofredo. Para os donos, assumir a mesma linha de negócio naquele local é um desafio. “Hoje, diante desse cenário econômico, podemos até diminuir a quantidade geral de pedidos, mas não deixamos de comprar nem de oferecer as marcas que não podemos deixar de oferecer na loja, principalmente inglesas, belgas e alemãs”, reforça André. Ali, as cervejas especiais variam de 5 a 270 reais. Ou seja, opção para todos os bolsos.
Clique na foto para ver o roteiro cervejeiro completo
Clique na foto para ver o roteiro cervejeiro completo

Responsáveis pelo site de compras coletivas e clube de cervejas Ohmy-beer, os beer sommeliers Marina Cavechia e André Vasquez concentram energia e traçam estratégias para não repassar a conta da crise para os clientes. “Foram muitas desistências neste ano. E o motivo é sempre o mesmo: falta de grana”, lamenta a jornalista. “Para não subir o preço, no sacrifício, decidimos diminuir a margem de lucro”, acrescenta.

O Ohmybeer é o primeiro clube de cervejas especiais de Brasília, inaugurado em 2011. Mensalmente, o associado recebe um dos três packs, com quatro, cinco ou
seis rótulos nacionais e importados. Os diferenciais, além das bebidas de qualidade e variadas, são os guias de degustação e os desenhos atraentes das caixas entregues em casa. “Fazemos uma ginástica a cada mês. Negociamos os centavos e buscamos promoções dos importadores. Uma coisa é certa: não vamos diminuir o nível das cervejas”, garante Marina.

O clube cervejeiro chegou a ter 300 clientes. O número varia aqui e ali, e a participação em feiras e festivais do setor é fundamental para atrair mais interessados e manter a base do site. Outro segredo é trabalhar o contato direto e próximo com cada associado. “Ser uma empresa pequena é legal por causa disso. Recebemos sugestões e temos retorno imediato, por exemplo. Isso é muito importante para o nosso crescimento”, detalha a jornalista.
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O químico industrial Luiz Eduardo Pereira Neves é um dos poucos brasilienses que consegue sobreviver do mercado cervejeiro na capital federal. Antes de começar a produzir a própria bebida, a Embuarama, trabalhou cinco anos na Ambev. “Cansei e abri um negócio”, explica. É na Quituart, no Lago Norte, que o empresário mantém o Entre Amigos, bar e pizzaria onde vende a marca criada por ele, em chope e em garrafa. A crise, porém, atrapalha os negócios. “Antes, eu vendia até
120 litros de chope por noite. Agora, caiu para a metade”, lamenta.

Para contornar as dificuldades, Luiz Eduardo estuda possibilidades para aumentar a distribuição dos seis estilos da Embuarama: Stout, Pale Ale, India Pale Ale, Brown Ale, Red Ale e Weiss. “Tenho um ponto, mas preciso expandir para sobreviver”, explica. A fábrica dele fica no Grande Colorado, onde produz 1,2 mil litros da bebida por mês, com levas de 92 litros. Ele também aluga o espaço para cervejeiros artesanais e vai modernizar os rótulos.

Uma ideia ousada envolve a criação de uma cervejaria. Parte do projeto, porém, esbarra nos impostos distritais para as microempresas — é um dos mais altos do país —, na tributação (65% do preço final da cerveja) e no plano urbanístico de Brasília. Esse último, por exemplo, prevê que o negócio funcione em uma área que possa prever indústria. “Já contatei um consultor do Sebrae e quero investir
para viabilizar a iniciativa”, ressalta.
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017