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Reduto da paz

O templo budista, na Asa Sul, vai muito além da tradicional quermesse de agosto. Pessoas de todas as religiões reúnem-se ali para realizar diversas atividades diariamente

Leilane Menezes - Colunista Publicação:03/11/2015 15:45Atualização:03/11/2015 15:12

Fachada do Templo: as tradicionais quermesses de agosto ajudam a manter o local (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Fachada do Templo: as tradicionais quermesses de agosto ajudam a manter o local
Do lado de fora, buzinas irritadas, impaciência, filas e congestionamento de carros e de ideias. Da porta para dentro, meditação e um silêncio que só é rompido pelo canto em japonês, interessado em equilibrar a equação da vida. Uma escada de concreto conduz ao interior do templo shin budista Terra Pura, na movimentada quadra 315/316 Sul. É preciso tirar os sapatos para entrar ali, deixando do lado de fora as impurezas do cotidiano. Faz-se também uma leve reverência ao Buda Amida, que está no altar central.

 

Os portões em frente ao templo convidam à harmonia e ao equilíbrio. Simbolizam que, mesmo diante da desordem exterior, é possível estar tranquilo. É em busca dessa paz que milhares de pessoas frequentam o espaço tombado há um ano como patrimônio histórico-cultural de Brasília. O título concedido pelo governo local mudou a rotina e deve trazer ainda mais prosperidade, nos próximos anos. Atraiu visitas, inclusive turísticas, e deu novo ânimo para quem trabalha pela interação com a comunidade. “Ficamos muito honrados com o reconhecimento, que reafirma a vocação de Brasília como cidade multicultural. Consideramos o tombamento uma homenagem aos pioneiros nipo-brasileiros”, diz monge Sato, líder espiritual e principal administrador do templo.

 

O prédio é uma parte acolhedora da arquitetura oriental em meio aos edifícios das superquadras de Lucio Costa. Foi construído em 1973, por ideia de Juscelino Kubitschek, que acreditava no potencial do Plano Piloto de ser uma região ecumênica. Orientais foram convidados pelo então presidente a vir a Brasília para cultivar o solo, para que os brasilienses não dependessem somente dos produtos que vinham de fora, como arroz, feijão e carne. JK apostou no talento nipônico para fazer nascer o alimento, mesmo do chão mais castigado. À época, a comunidade japonesa, que residia majoritariamente em outras regiões administrativas, questionou a localização escolhida para o templo. Moradores de áreas como Brazlândia e Park Way, eles desejavam fazer suas preces mais perto de casa. O presidente, entretanto, escolheu manter o templo na área central.

 (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)

Nos fins de semana de agosto, o lugar bate recordes de visitação, ao receber mais de 3 mil pessoas por noite. A verba da festa, acumulada principalmente com a venda de comida típica do Japão, é o principal meio de sustento da instituição religiosa. A primeira quermesse ocorreu no ano de inauguração do templo. Há apresentações de danças, como bom odori; de música, com os tambores do taiko; e de artes marciais. A festa é organizada pelos frequentadores, e alimentos não perecíveis valem como ingresso. Na edição mais recente, mais de 25 toneladas foram arrecadadas e doadas a instituições carentes.

 

Aulas de artes marciais e cursos, como o de massagem e o de origami, complementam a renda. Manter o templo custa caro e o trabalho voluntário é essencial. Zeneth Ferreira é diretora e tesoureira do templo. Há 16 anos, por influência de uma irmã, ela conheceu o budismo. “Comecei a assistir ofícios de meditação e encontrei neles tudo de bom: as ansiedades sumiram. Aprendi a conviver melhor comigo e com os outros”, avalia.

 

Há planos de transformar o templo em uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) para estabelecer mensalidades a quem se interessar por abraçar a manutenção. A intenção do monge Sato é reafirmar o templo como ponto turístico na capital, em um roteiro mais aberto, que vai além da Esplanada dos Ministérios e das obras de Niemeyer. Será construído o Jardim Museu Candango Oriental nas dependências da entidade, com ambientação japonesa, mas também com plantas do cerrado. “Não faremos uma imitação de jardim japonês. Queremos adaptar a ideia ao bioma local”, descreve Sato.

 (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)

Ele quer iniciar um projeto de ensino no qual escolas públicas poderão trazer estudantes para aprender sobre países onde o budismo é praticado, como Índia, China, Tailândia e Japão. “É preciso formar uma nova geração, mais espiritualizada e equilibrada, para combater a violência. Queremos ser um importante centro formador da juventude, da diversidade religiosa e cultural que nos conduzirá à verdadeira paz”, diz o monge. A visitação ao templo não tem hora marcada. Cerca de 150 pessoas passam por ali diariamente. O esquema deverá ser mais organizado. A partir deste mês, há planos de oferecer visitação guiada e com horário definido.

 

As atividades do templo são diversificadas. Todo sábado, a partir das 6h, há feira de alimentos orgânicos, no andar inferior. Na parte de cima, onde fica o altar, aos sábados e domingos, das 9h às 10h30, é tempo de meditação. As sessões são gratuitas e conduzidas por monge Sato. Qualquer pessoa pode participar e nesses dias a ação é voltado principalmente aos iniciantes. Gente de todas as idades faz parte do grupo. Quem desejar aprofundar-se nessa prática pode optar pelo curso pago, durante a semana. O monge ressalta que os benefícios da meditação não são milagrosos; é preciso vivência para alcançá-los. Ao chegar, o visitante deve pegar uma cópia do Livro de Ofício e sentar-se. A monja Maria Cristina Holanda, casada com Sato, inicia o canto de abertura. As palavras estão em japonês romanizado. Basta cantar as sílabas como são escritas.

Monge Sato celebra um ano do templo shin budista Terra Pura como patrimônio: chamou a atenção da comunidade (Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Monge Sato celebra um ano do templo shin
budista Terra Pura como patrimônio: chamou
a atenção da comunidade
 

Flávia Lemos, moradora de Águas Claras, vai ao templo da Asa Sul todo fim de semana para meditar. Há quatro anos, ela se familiarizou com o budismo e se encantou pela proposta de vida em harmonia. “Também já pratiquei ioga no templo. Participo da comunidade e quero me casar aqui. O budismo proporciona concentração, desenvolvimento de aprendizagem e os princípios são muito coletivos. Conquistei tranquilidade, paz e equilíbrio, mesmo quando o mundo exterior não ajuda”, descreve Flávia.

 

De acordo com o monge, há um interesse crescente da população pelo budismo. “A geração dos nascidos em Brasília começa a mostrar seus interesses, formar a própria cultura. É muito ligada em tecnologia e busca informação, assim descobre novidades o tempo todo. Ficamos muito felizes de sermos parte do patrimônio cultural e histórico de uma cidade que é capital de um país predominantemente cristão. Aqui, todos são bem-vindos. Recebemos pessoas de várias crenças, interessadas na essencia do budismo, que busca a paz e a harmonia”, afirma o líder espiritual.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017