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São fofos, mas não são brinquedos

Essas pequenas bolas de pelo deixam qualquer um com vontade de ter um cão. Entenda por que não se pode cair na tentação de dar um filhote de presente

Paloma Oliveto - Publicação:06/11/2015 17:03Atualização:06/11/2015 18:00

 (Vinicius Santa Rosa/Encontro/D.A Press)
Eles são a expressão máxima da fofura. Bolinhas de pelo brincalhonas que, segundo a ciência, evoluíram de forma a arrancar suspiros humanos. Quando, há cerca de 33 mil anos, os primeiros lobos começaram a ser domesticados, aqueles menos ferozes e com expressões faciais meigas tinham mais chances de serem adotados pelo homem que, em troca da companhia, fornecia casa, comida e coçadinhas na barriga.

 

Os cães foram, cada vez mais, adquirindo características de amolecer qualquer coração: orelhas caídas, olhar de desamparo, rabinho abaixado, em sinal de submissão. Some-se a isso o fato de serem pedomórficos, ou seja, conservam para sempre a fisionomia de bebês. Se os adultos já são irresistíveis, o que dizer de suas versões em miniatura? Desajeitados, barrigudos e com rico repertório de gracinhas, os filhotes encantam até aqueles que não são muito chegados a um pet.

 

Mas, por maior que seja a vontade de colocar um cachorrinho no bolso e levar para casa, é preciso pensar muito bem antes de decidir aumentar a família. Ainda mais com a proximidade de datas comemorativas – o mês da criança e o Natal –, criadores e veterinários lembram: animais não são bichos de pelúcia, nem objetos para serem dados de presente. Eles são fofos, sim. Porém, dão trabalho, despesa e exigem bastante atenção. Em troca, oferecem um amor incondicional e muitas histórias para contar. “No Dia das Crianças, não vendo filhotes porque, geralmente, as pessoas compram por impulso”, diz Isabella Raeder, criadora de golden retriever, yorkshire e fox terrier de pelo duro.

Isabella Reader, com os filhotes Paris e Snow, da raça golden retriever: 'No dia das crianças, não vendo filhotes porque, geralmente, as pes-soas compram por impulso' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Isabella Reader, com os filhotes Paris e Snow,
da raça golden retriever: "No dia das crianças,
não vendo filhotes porque, geralmente, as pes-
soas compram por impulso"

Ao se decidir por adotar um filhotinho, a primeira providência é pensar em uma raça que se adapte bem às características da família com a qual vai morar. Um cão de porte muito grande pode ser mais indicado para uma casa. Já um animal menos ativo dificilmente se adaptará a um estilo de vida atlético. Por isso, além do espaço, deve-se pensar nos hábitos do tutor. Todos os detalhes são importantes. “Se há idosos na casa, um cão muito agitado pode derrubá-los”, exemplifica Marcello Roza, secretário-geral do Conselho Federal de Medicina Veterinária. No caso dos vira-latas, não é impossível ter uma ideia de como ficarão ao crescer. Os veterinários são capazes de reconhecer os traços das raças que deram origem à mistura e, além disso, alguns truques ajudam a fazer a estimativa: o tamanho da pata pode predizer o porte, pois as mais compridas sugerem uma estatura maior. Quanto ao comportamento, geralmente as ONGs e os protetores que fazem o trabalho de doação conhecem a mãe dos cãezinhos e poderão dizer se são mais agitados ou partidários de sombra e água fresca.

 

Independentemente da raça, o mais importante é saber se a família terá tempo e disposição para se dedicar ao novo amigo, não apenas quando filhote, mas por toda a vida dele. Isso inclui passeios, brincadeiras, educação, cuidados médicos e gastos financeiros. “Muita gente nunca teve um cão e não sabe como funciona. Os filhotes vão roer seu móvel caro, vão fazer cocô no lugar errado, vão mastigar o seu sapato. Eles estão descobrindo o mundo”, observa Leonardo Santos, criador de buldogue francês do canil Le Baron Rouge. “Em compensação, eles vão viver em função do dono.” Caso realmente opte por levar um filhotinho para casa, o futuro tutor deve se informar sobre as condições de saúde do animal. A não ser quando já é de conhecimento que ele tem alguma doença – muitas pessoas adotam cães e gatos debilitados com o intuito de tratá-los – é muito importante saber da saúde em geral, e se o filhote recebeu todas as vacinas necessárias, assim como as doses de vermífugo. A procedência também  é fundamental.  Ao adquirir cães em feiras, anúncios e classificados, corre-se o risco de levar um animal doente e fruto de cruzamentos perigosos.

 

O mais grave: dessa forma, contribui-se para o comércio dos chamados “criadores de fundo de quintal”, pessoas que não têm qualquer compromisso com o bem-estar animal e passam a vida explorando as cadelas, que se transformam em verdadeiras fábricas de filhotes. Quando não conseguem mais gerar, as fêmeas normalmente são abandonadas na rua, com o corpo já disforme de tantas gestações. “Para se ter uma ideia, tenho uma golden de 7 anos que só teve duas ninhadas a vida inteira. O criador sério se preocupa com o cão, tem amor por ele”, observa Isabela Raeder, do Canil Raeder. Ela recomenda visitar o canil, ver as instalações e pedir para conhecer os pais do filhotinho que deseja levar para casa.

 

Normalmente, os criadores têm uma longa conversa com as pessoas interessadas em adquirir um filhote. “Na entrevista, queremos saber como é o perfil da família, quem são as pessoas que vão conviver com o filhote, como ele será recebido e tratado. O cão não é um bichinho de pelúcia. Temos de explicar que, se houver criança em casa, por exemplo, que ela não pode apertar e sufocar o animal”, diz Silvani Reis, do Canil Lexus, criadora de shih tzu e lulu da Pomerânia. Nessa ocasião, o futuro tutor também recebe as orientações sobre rotina de vacinas, tipo de alimentação e rotina de passeios, por exemplo. Hoje, com a facilidade de e-mails e apli-cativos de celular de mensagem instantânea, Silvani acompanha a vida dos filhotinhos que saem do Lexus. “Sempre recebo fotos deles, mesmo dos que vão para outros países”, diz.

Essa lindeza do Canil Le Baron Rouge é capaz de muitas estripulias: 'Os filhotes vão roer seu móvel caro, vão fazer cocô no lugar errado, vão mastigar o seu sapato', avisa o criador Leonardo Santos (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Essa lindeza do Canil Le Baron Rouge é capaz de muitas estripulias: "Os filhotes vão roer seu móvel caro, vão fazer cocô no lugar errado, vão mastigar o seu sapato", avisa o criador Leonardo Santos
 

Essa conversa inicial é fundamental, observa Leonardo Santos. Mesmo as pessoas informadas e decididas pelo animal precisam ser lembradas de como é lidar com um filhote. Poucos sabem, por exemplo, que o piso liso é extremamente prejudicial ao cãozinho: “Ele está com as patas e articulações em formação e precisa de firmeza”, explica Santos. Da mesma forma, o criador de buldogue francês ressalta a importância de se saber como educar o cachorro, desde o momento em que ele chega a sua nova casa. “No primeiro dia, você entra na frente, e ele atrás. Em vez de deixá-lo solto quando for sair, deixe o filhote no cercadinho, se não, ele vai começar a fazer coisas erradas”, ensina. Outra questão que não pode ser ignorada é o cuidado com produtos de limpeza, tomadas e fios soltos, que devem ficar longe do cão. “Eles são como bebês e precisam dos mesmos cuidados que um bebê.”

 

Na casa da agente penitenciária Rayana de Brito Machado Tomaz, todos os cuidados foram tomados para esperar Nina, uma golden de 3 meses. Apaixonada por cães, Rayana teve vários, mas eles sempre chegaram já adultos. “Mas depois que meu cofap (dachshund) morreu, eu falei que não queria outro cachorro de jeito nenhum”, conta. Até que ela conheceu uma golden durante um churrasco e se apaixonou. Depois de pesquisar bastante sobre a raça, Rayana, que mora em casa, convenceu-se de que era a companheira certa. No Canil Raeder, recebeu todas as informações e recomendações – inclusive a de adaptar a estrutura da varanda para Nina e de colocar tapetes na casa para ela não deslizar.

 

A cachorrinha já chegou fazendo as necessidades no lugar certo e jamais destruiu objetos – exceto um rolo de papel higiênico. O convívio com os filhos de Rayana, Isabela, de 7 anos, e Davi, de 2 anos, não poderia ser melhor. “De manhã cedo, a Nina acorda e começa a latir. Aí o Davi escuta e me chama: ‘mamá, mamá, a ni, a ni’, para me avisar que ela já está de pé”, diverte-se Rayana, feliz por ter voltado atrás na decisão de não ter mais a companhia de um cão.

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017