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ESPECIAL EDUCAÇÃO|INTERCÂMBIO »

Mil e um destinos

Experiência amadurecida pelo brasileiro, o intercâmbio ganhou dezenas de possibilidades com a globalização. Opções variadas de países estão na lista e surgem como boas alternativas para a alta do dólar

Jéssica Germano - Redação Publicação:09/11/2015 15:43Atualização:09/11/2015 15:18

Jessica Dias nunca tinha viajado para fora do Brasil quando foi morar em Caen, na França: 'Conheci pessoas do mundo inteiro' (Arquivo Pessoal/Reprodução)
Jessica Dias nunca tinha viajado para fora do Brasil quando foi morar em Caen, na França: "Conheci pessoas do mundo inteiro"
É passado o tempo em que fazer um intercâmbio se limitava a cursar o chamado high school (ensino médio) em uma escola tipicamente norte-americana. O Canadá, apesar de continuar sendo o queridinho dos brasileiros, nos últimos anos vem ganhando concorrentes de peso. Seja para aproveitar a veia cultural de uma nação não tão conhecida, seja para explorar o potencial em determinados segmentos profissionais, os estudantes têm ampliado o leque de opções: do estudo do mandarim, na China, ao aprimoramento do inglês na paradisíaca Nova Zelândia. Fernanda Medeiros, representante do setor de política na Embaixada do Reino Unido, que reúne Escócia, Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte, conta que de-zenas de estados têm interesse de receber estudantes brasileiros em suas instituições de ensino.

 

Em 2004, cerca de 42 mil brasileiros foram estudar no exterior por meio de agências de intercâmbio. Dez anos depois, esse número pulou para mais de 332 mil, segundo dados da Belta, a Associação de Educação Internacional do Brasil. O acesso facilitado a viagens e o pagamento parcelado de pacotes explicam o crescimento. Mas o que se viu também foi uma mudança de comportamento do brasileiro, que ousou ir além das fronteiras já conhecidas.

Carolina Kohlrausch, representante da EF  (Education First) em Brasília: 'Antes as pes-soas procuravam Canadá e Estados Unidos pensando em compras. Agora é diferente' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Carolina Kohlrausch, representante da EF
(Education First) em Brasília: "Antes as pes-
soas procuravam Canadá e Estados Unidos
pensando em compras. Agora é diferente"

Foi se abrindo para esse perfil de visitantes que Liverpool, na Inglaterra, passou a receber um programa que envolve mais do que apenas o aprendizado do inglês. Com 440 mil habitantes, a cidade universalmente conhecida pelo surgimento dos Beatles oferece um intercâmbio de imersão que dura de três a quatro semanas, com jovens de 12 a 17 anos, inseridos 24 horas por dia no idioma local.

 

Pelo Beatles, Arts & Culture, intermediado no Brasil pela Cultura Inglesa, na parte da manhã os estudantes têm encontros temáticos com professores nativos. À tarde, visitam lugares sobre os quais falaram nas aulas. O primeiro local onde a banda integrada por John Lennon e Paul McCartney tocou e viagens para conhecer cidades próximas nos fins de semana estão no roteiro que ultrapassou as aulas e fotos clássicas em Londres.

Juliana Frota estudou dois anos e meio na Aus-trália com foco na área de turismo: na volta, ela mundo uma empresa de intercâmbio (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Juliana Frota estudou dois anos e meio na Aus-
trália com foco na área de turismo: na volta,
ela mundo uma empresa de intercâmbio

É com foco no potencial dos estudantes daqui que o governo do Reino Unido tem investido em bolsas de estudo para o ensino superior. Voltadas, especialmente, para as áreas de políticas públicas, governança, administração, negócios, segurança e esportes, brasileiros podem se inscrever para mestrado de um ano em qualquer universidade. “A contrapartida é que esse aluno seja a pessoa que nós queremos: com potencial de liderança a ser desenvolvido, com projetos, trabalhos voluntários e nível de inglês muito bom”, pontua Fernanda Medeiros, representante do Chevening.

 

“Eu acho que países como os Estados Unidos são mais fáceis de ter outras oportunidades de ir”, comenta o empresário Miguel Lopes. Ele optou por uma experiência no México, onde ficou um ano durante o ensino médio, e acabou conseguindo ser ouvinte em uma universidade da América Central. “Esse tipo de intercâmbio é uma coisa que não vai acontecer de novo”, pondera, considerando o diferencial do destino. Para ele, que teve a oportunidade de escolher entre o sotaque espanhol e a Turquia, destinos disponíveis pela empresa que viajou, as vantagens desses lugares vêm justamente das surpresas. “Conhecer realmente uma cultura bem diferente, em uma situação diferente, é uma oportunidade de ter outra visão de mundo”, afirma. Miguel voltou fluente no idioma e com a inspiração para montar um food truck especializado em comida mexicana, o Ándale Tacos.

O empresário Miguel Lopes optou por uma experiência no México: 'É uma oportunidade de ter outra visão de mundo' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
O empresário Miguel Lopes optou por uma experiência no México: "É uma oportunidade de ter outra visão de mundo"

Quarto país mais escolhido por brasileiros para vivência lá fora, a Irlanda tem ganhado a preferência, especialmente, devido à qualidade de vida que oferece aos moradores e do alto padrão educacional. Foi, principalmente, por conta desses dois pontos que o universitário André Carvalho escolheu a nação para viver a bolsa adquirida pelo programa Ciências sem Fronteiras, voltado para ensino superior. “Eu conheci algumas pessoas que vieram estudar ou trabalhar por conta própria e não encontraram tanta burocracia em relação a outros países”, incrementa a lista de vantagens. “Sem falar que a Irlanda é referência em inúmeros campos de atuação, sendo sede europeia de várias multinacionais.”

 

Matriculado no curso de farmácia da Universidade de Brasília, Carvalho viajou há cerca de dois meses e deve ficar por mais 10 em Dublin, cursando disciplinas de farmacologia, com foco mais voltado para pesquisa. A boa receptividade a estrangeiros, segundo ele, somou na escolha pelo país conhecido pelo chope verde e sede de dezenas de indústrias farmacêuticas. “A universidade tem diversas programações para alunos internacionais e isso te faz sentir envolvido nesse ambiente tão novo”, conta, como exemplo.

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Poucas pessoas sabem, mas a Austrália tem oito das 100 melhores universidades do mundo. O que é motivo de orgulho para o país e também polo de atração de milhares de estrangeiros. “O governo australiano incentiva muito a questão da teoria com a prática na educação”, pontua Juliana Frota, que fez intercâmbio de dois anos e meio no país, com foco na área de turismo. Na volta, ela montou uma empresa em Brasília especializada em programas para lá, para a Nova Zelândia e para a África do Sul. Sobre o segundo, Juliana destaca a beleza territorial, que permite ao estudante viver em um verdadeiro cenário. “Não é à toa que muitos filmes são rodados lá”, lembra. Sobre a África do Sul, a turismóloga comenta sobre a vantagem de a moeda ser mais desvalorizada e os cursos saírem mais em conta, ao mesmo tempo que contam com boa qualidade de vida. “A Cidade do Cabo oferece tanto a parte turística quanto trabalhos voluntários, na área ambiental, de proteção aos animais, socialização de crianças”, observa.

 

Na Austrália, outros pontos somam-se à lista de prós. “O tempo é mais agradável, e o brasileiro está acostumado com o clima tropical”, lembra. “Além disso, o dólar australiano é mais vantajoso que o americano ou o euro.” Ela conta que, hoje, um intercâmbio com duração de um mês para estudar inglês, com hospedagem, alimentação e transfer inclusos, sai em torno de 2.600 dólares australianos (cotado a cerca de 2,70 reais em contrapartida aos mais de 4 reais do americano). O visto de estudante também dá direito ao estrangeiro trabalhar.

Fernanda Medeiros, que recruta joves para o Reino Unido: 'A contrapartida é que esse aluno seja a pessoa que nós queremos: com potencial de liderança para ser desenvolvido, com projetos, trabalhos voluntários e nível de inglês muito bom (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Fernanda Medeiros, que recruta joves para
o Reino Unido: "A contrapartida é que esse
aluno seja a pessoa que nós queremos: com
potencial de liderança para ser desenvolvido,
com projetos, trabalhos voluntários e nível de
inglês muito bom

E, desde o ano passado, o brasiliense tem mais chances de ir para o país, que desponta como o quinto mais escolhido no mundo. O único escritório de educação do governo australiano na América Latina tem sede aqui. A ideia é promover cada vez mais o Endeavour, programa de bolsas de estudos integrais baseado em mérito acadêmico. Válido apenas para cursos de pós-graduação, ele permite especializações, mestrados, doutorados, pesquisas, cursos técnicos e estágios executivos em qualquer área de ensino. “Vai ter muita gente pensando em Austrália e nós não queremos que pensem só em canguru ou surfe”, frisa Vanessa Ribeiro, oficial de educação da embaixada.

 

Jéssica Dias nunca tinha viajado para fora do Brasil quando foi morar em Caen, na França, para cursar engenharia eletrônica em uma universidade local durante um ano. “Além de estudar, eu conheci outros oito países”, relata. “E é uma cidade universitária, então eu conheci pessoas do mundo inteiro: chineses, indianos, espanhóis.” No caso dela, a escolha pela França pesou bastante pelo fato de o continente europeu ser de pequenas dimensões. “Lá, você pega um trem e com 50 euros vai para outro país e volta. São várias culturas diferentes em um lugar muito pequeno”, comenta. “A cultura americana, por exemplo, conhecemos muito dela aqui no Brasil. A europeia não tanto”, compara. “Essa é a vantagem. E aprender uma terceira língua, além do inglês.”

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Com 50 anos de funcionamento completados em 2015, a EF (Education First) acabou se tornando uma especialista em países para se estudar. Para o mercado brasileiro, são 16 nações diferentes que falam até sete idiomas, do alemão ao japonês, passando pelo italiano e chinês. “Hoje, nós vemos que há muita procura por viagens voltadas para cultura, com um apelo diferente do que se tinha antigamente”, observa Carolina Kohlrausch, representante da sede em Brasília. “Antes, as pessoas procuravam Canadá e Estados Unidos pensando em compras.” Com a crise econômica, isso acabou abrindo o leque de países, segundo ela, especialmente nos últimos três anos.

 

Localizado no sul do continente europeu, o arquipélago de Malta é um dos destinos que tem recebido bastante brasileiros. Inclusive o público mais velho, que só na EF cresceu 31% entre os clientes, de 2013 para cá. “É um lugar pequeno, mas bem focado para o estudo do idioma”, descreve Carolina, pouco antes de citar a beleza das praias do mar Mediterrâneo. “É também uma viagem cultural: a parte gastronômica de lá é fantástica”, complementa. Ao lado dos endereços com costumes diferentes e aprendizados históricos, a representante da EF incrementa a lista para desembarque com grandes potências, caso de Pequim e Beijin. “Elas também são chamarizes para alunos que viajam procurando, além do aprendizado do idioma, uma oportunidade de emprego na volta.”

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017