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ESPECIAL EDUCAÇÃO »

Os campeões do Enem

Como é a rotina de estudos de alunos que se destacam nos colégios que têm as melhoras notas do exame em Brasília

Tereza Rodrigues - Publicação:13/11/2015 15:26Atualização:13/11/2015 14:50
Vitória Machado quer cursar direito e Sofia Fonseca está tentando medicina: elas escolheram se dedicar completamente aos estudos agora para no ano que vem ficarem mais tranquilas, já na universidade (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Vitória Machado quer cursar direito e Sofia Fonseca está tentando medicina: elas escolheram se dedicar completamente aos estudos agora para no ano que vem ficarem mais tranquilas, já na universidade
Aquela imagem estereotipada de um menino pálido, magro e antissocial para descrever os estudantes que têm as maiores notas nos exames  de seleção de grandes universidades definitivamente não combina mais com a realidade dos garotos e garotas que obterão os melhores resultados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a principal avaliação do Brasil, que será feita por cerca de 7,7 milhões de pessoas nos dias 24 e 25 de outubro. Em Brasília, os colégios que ocupam o topo do ranking das últimas edições da prova abrigam alunos rosados, saudáveis, cheios de amigos e de disposição para cumprir a função que eles se propõem: estudar.

Percebe-se que disciplina, foco e dedicação nunca deixaram de ser características comuns aos alunos que vencem com facilidade essa etapa, mas isso não significa que eles precisem abrir mão de se divertir, namorar, passear e praticar esportes. Que o diga Naraja Menezes de Souza, aluna do Galois. Ela quer cursar medicina e tem a meta de fazer 800 pontos para ingressar na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Chegou perto disso na prova do ano passado e, nos simulados que tem feito, também não deixa a desejar. “Estou muito confiante, estudei a vida toda em bons colégios e tenho uma base boa. Não acho que vai ser difícil conseguir”, comenta.
 
No seu dia a dia, Naraja se sente uma estudante “comum”. Acorda por volta das 6h, assiste aulas das 7h30 às 13h, almoça com o namorado ou com amigos, e depois, mesmo quando não tem aula ou prova, permanece na escola. Geralmente vai para casa depois das 21h, onde curte a família, dá uma descansada e dorme cedo. “Se eu for para o meu quarto no meio da tarde, o estudo não rende... a cama chama, a TV, a internet. No colégio eu me concentro mais facilmente, e posso ir estudando em diferentes salas, sozinha ou com colegas. A rotina fica mais variada”, diz. A aluna diz que gosta do sistema da escola de não ter um número excessivo de aulas. “Não acho que é a quantidade de matérias que vai fazer diferença. Eu prefiro ter um tempo para estudar sozinha, pesquisar, ler, fazer os exercícios que eu achar que preciso mais”.
Professor Eli Carlos Guimarães, do Sigma, dá o caminho das pedras para quem deseja sucesso no Enem (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Professor Eli Carlos Guimarães, do Sigma,
dá o caminho das pedras para quem deseja
sucesso no Enem

Tomando por base os simulados que faz, Naraja diz que suas notas melhoraram muito com o treino. “Eu sugiro que quem quiser se dar  bem na prova faça o máximo de questões possível de edições anteriores. Porque é uma maratona, é importante chegar ao extremo todos os dias. Tem que dar o máximo, funcionar sob pressão, acertar mesmo quando bate o cansaço.”

Rafael Czepak, aluno do Sigma, sabe bem o que significa essa comparação com a rotina de um esportista, porque ele mesmo é um atleta profissional – no ano passado, foi campeão brasileiro de kumite, uma modalidade de karate, esporte que ele pratica há 11 anos. Ele atribui à dedicação os bons resultados que consegue. Em 2014, fez as principais provas de seleção do país, mesmo estando no segundo ano do ensino médio. As notas na Unicamp, na Fuvest, no Programa de Avaliação Seriada (PAS/UnB) e no próprio Enem surpreenderam positivamente, mesmo que ele tenha depois optado por continuar no colégio e concluir o terceiro ano. “Eu tinha nota para entrar em federais como a UFF e UFG (Fluminense e de Goiás, respectiva- mente), mas pular etapas não é comigo”, conta.

Redação é um dos seus pontos for tes, ainda que não tenha o peso maior nas seleções para o curso de engenha ria mecânica, que ele quer. No Enem 2014, sua nota foi 920; e no último vestibular da UnB, realizado no meio deste ano, ele tirou 99. Não é para qualquer um, mas Rafael diz que ainda pode melhorar e, por isso, faz duas redações por semana e procura ficar por dentro das atualidades: “Adoro ler notícias, até as de economia”, diz, bem-humorado.
O ritmo de estudos e a determinação de Eduardo Cássio Serra são elogiados por profes-soras do colégio Podion: Assistir às aulas des-cansado o ajuda a prestar atenção a tudo (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
O ritmo de estudos e a determinação de
Eduardo Cássio Serra são elogiados por profes-
soras do colégio Podion: Assistir às aulas des-
cansado o ajuda a prestar atenção a tudo

A  responsabilidade  do  garoto de 17 anos (idade da maioria que está cursando a 3ª série do ensino médio) toma uma proporção maior quando ele explica por que segue as dicas de professores e se dedica com tanto afinco: “Eu comecei a estudar duas horas ‘extras’ por dia no primeiro ano, quando meu pai me desafiou a isso. Depois vi que o retorno era bom, passei a gostar de estudar por mim mesmo, sem ninguém cobrar. Aí fiquei mais participativo nas aulas, fui pegando plantão para não voltar para casa com dúvidas, e acho que foi isso que fiz diferente de alguns colegas.”

A comparação com outras pessoas que estão na mesma fase da vida nem sempre é um bom caminho, mas acaba sendo uma referência, na opinião das amigas Vitória Machado de Sousa e Sofia Coimbra Fonseca. No colégio Olimpo, elas convivem com vários estudantes que se tornam  “garotos-propaganda” graças às notas que conseguem em seleções como a do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). “Eu penso o seguinte: tem gente que é mais inteligente que a média mesmo e tem gente que precisa se esforçar mais que a média. Eu estou no segundo time (risos) e, entendendo isso, corro atrás para fazer minha parte”, diz Sofia.

Já Vitória destaca que aprendeu a valorizar o fato de estar em um colégio caro, à custa do esforço dos pais, e por isso aproveita ao máximo a oportunidade de ter bons materiais, bons professores, boas aulas. “Tem gente que esquece a apostila em qualquer lugar, ou cola páginas só para dizer que não liga para nada... eu acho um absurdo! Acho legal aqui ter fiscais que ficam  mandando  pararmos   de conversar e ir estudar, ter professores que tiram dúvidas no corredor. Para mim, o interesse é o mais importante, e só depende de cada pessoa.”

Elas contam que sempre gostaram de estudar e que, inclusive, o ambiente em casa estimulou a isso. “Eu adoro ler, desde criança. E meus pais também gostam. Havia mês em que eu lia 10 livros”, conta Vitória. Sofia diz que neste ano está focada em ler coisas que são importantes para a prova do Enem, mas já está com saudade de “viajar” nas ficções científicas de que tanto gosta. Ela tem uma meta de ler todos os livros de Machado de Assis logo que não precisar mais estudar exatas na escola. A série Game of Thrones e outros programas de TV de que ela é fã também serão retomados somente quando ela já estiver em uma universidade. “São escolhas”, diz Sofia, com maturidade.

Escolhas, literalmente, foram os caminhos que levaram Vitória a desativar o plano de internet do  celular e a apagar diversos aplicativos  que ela usava antes de focar na prova do Enem. “Eu acho que ficar conversando no WhatsApp atrapalha mesmo, desconcentra. Então só acesso internet no celular onde tem wi-fi. Aqui na escola, se eu precisar pesquisar alguma coisa, vou para o computador da biblioteca.”
 
Naraja Menezes, do Galois, compara a maratona de estudos a esportes que requerem o máximo de dedicação: 'Tem que aprender a funcionar sob pressão' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Naraja Menezes, do Galois, compara a maratona de estudos a esportes que requerem o máximo de dedicação: "Tem que aprender a funcionar sob pressão"
No Pódion, o objetivo do coordenador-geral do colégio, George Gonçalves, é proporcionar um ambiente que instigue a regularidade e o ritmo de estudos. Para isso, os trabalhos têm três pilares: disciplina consciente, horário estendido e poucos alunos por turma. “Queremos que o estudante saiba aonde quer chegar e que seja honesto com ele mesmo sobre o caminho que vai precisar percorrer. De vez em quando eles fazem prova sem fiscal, por exemplo”, explica o professor.
 
Considerado um dos melhores alunos do Pódion, Eduardo Cássio Serra enxerga o mérito de estudar com regularidade – em um mesmo ritmo, praticamente desde a 1ª  série do ensino médio – e  está  próximo de realizar o sonho de estudar engenharia da computação na UnB ou na Unicamp. Nos simulados que tem feito, ele está conseguindo diminuir o tempo gasto na leitura das questões e considera que isso faz toda a diferença para  as  boas  notas.  “Quando a pessoa fica muito tempo em uma questão, indo e voltando para entender o que está sendo pedido, ela fica muito mais cansada. Fica mais difícil raciocinar. É melhor treinar essa agilidade”, aconselha.
'Adoro ler notícias, até as de economia', diz Rafael Czepak, que tem uma das melhores notas de redação entre os alunos do colégio Sigma (Vinícius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
"Adoro ler notícias, até as de economia", diz Rafael Czepak, que tem uma das melhores notas de redação entre os alunos do colégio Sigma

O jovem rapaz prefere não ficar só estudando o dia todo, “senão eu estresso”, e por isso intercala as aulas com natação, um pouco de TV e às vezes vai ao cinema. Outra característica de Eduardo é valorizar o sono, especialmente nos dias em que assiste a uma bateria de mais de 10 aulas. “Eu prefiro dormir cedo, descansar e conseguir  prestar  atenção  a  tudo  o que vou aprender no dia seguinte”, descreve, com maestria.
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017