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CULTURA|TENDÊNCIA »

E o muro virou tela

Nascido no cenário urbano, o grafite conquistou ruas, galerias de artes, ambientes comerciais e salas de estar. Os artistas, hoje, podem viver de seu trabalho

Jéssica Germano - Redação Publicação:27/11/2015 14:51Atualização:27/11/2015 15:18

Grafite feito pelos artistas Daniel Morais (Toys) e Mikael Guedes (Omik) para a Casa Cor Brasília 2015 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Grafite feito pelos artistas Daniel Morais (Toys) e Mikael Guedes (Omik) para a Casa Cor Brasília 2015
Na fachada de um antigo hospital abandonado, um grande tucano acompanhado de referências geométricas em diferentes tons chama a atenção na paisagem do Lago Sul. O desenho de Daniel Morais, mais conhecido pelo apelido Toys (nome do personagem que criou e anda espalhado pelos eixos da capital), foi um dos trabalhos feitos para a edição deste  ano  da Casa Cor Brasília. Maior evento de arquitetura, decoração e paisagismo das Américas, a mostra foi só mais um espaço a se render às histórias contadas por meio de traços com desenhos e técnicas aprimoradas no cenário urbano.

 

Seguindo o movimento que já ganhou os grandes centros do mundo, o grafite aqui também se firmou, tanto nas exposições de arte quanto nas paredes externas e nos interiores de casas, empresas e restaurantes. São obras de arte legitimadas pelo olhar do público comum, que tem contemplado cada vez mais os sprays com intuito de colo- rir a cidade, até pouco tempo associada ao cinza do concreto.

Os artistas Daniel Moraes e Mikael Guedes, conhecidos por Toys e Omik, em frente a um painel pintado para a Casa Cor Brasília: eles celebram a redução do preconceito em relação ao grafite (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Os artistas Daniel Moraes e Mikael Guedes,
conhecidos por Toys e Omik, em frente a um
painel pintado para a Casa Cor Brasília: eles
celebram a redução do preconceito em relação
ao grafite

“Nunca imaginamos viver disso. Era algo distante”, considera Daniel, que hoje, aos 24 anos, tem como profissão integral o hobby nascido com a cultura do skate, ainda na adolescência. Formado em publicidade, ele só percebeu há três anos, quando pintou a parede de uma agência em que havia trabalhado, que suas obras poderiam funcionar realmente como fonte de renda. “Eu pinto há 11 anos, e nesses 11 anos tudo mudou”, conta. “Antes, quando fazia um trabalho comercial, ficava feliz por- que ia ganhar um dinheirinho e spray”, compara ele. Atualmente, recebe entre R$ 180 e R$ 250 pelo metro quadrado de uma parede (valor que flutua de- pendendo de variáveis como o ambiente e a riqueza de detalhes do projeto) e cerca de R$ 1.200 por uma tela tamanho 90 x 90 cm. “Com o dinheiro que sobrava, ia pintar na rua. Hoje, lá no ateliê não cabe mais spray”, conta, sem segurar o sorriso de satisfação.

 

O espaço de criação, na 305 Norte, a que ele faz referência é resultado de uma parceria com outros dois grafiteiros cujos trabalhos se destacam nos muros da cidade: Mikael Guedes, o Omik, e Thales Fernando, o Pomb. “Os próprios moradores começaram a ver a diferença que a nossa interação com a rua fazia”, observa Mikael, comentando a visibilidade que vêm conquistan- do. Notado pelas características surpreendentes de realismo nas obras, é ele o artista responsável pela mudança completa, há pouco mais de um ano, da frente do Universal Diner, na 210 Sul. “Eles começaram a permitir que nós ocupássemos esses espaços”, completa.

 

Pedro Sangeon, criador do personagem Gurulino, que faz sucesso na cidade e tem relação especial com as ruas: 'É ter contato com o sublime no meio da loucura da cidade' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Pedro Sangeon, criador do personagem
Gurulino, que faz sucesso na cidade e tem
relação especial com as ruas: "É ter contato
com o sublime no meio da loucura da cidade"

“Vivemos do trabalho que conseguimos na rua”, frisa Toys, que, além de ter ganho o concurso para pintar a fachada da Casa Cor deste ano, produziu, com Omik, a parede do “Estúdio da menina”, planejado pelas arquitetas Flávia Nasr e Laísa Carpaneda, e assinou quadros que decoraram o Café Urbano, de Alex Claver e Wilker Medeiros, ambos espaços da mostra, encerrada em 10 de novembro. Para ele, o ponto alto da chamada street art é a capacidade recém-adquirida de transitar entre dois mundos. “Pintamos a cracolândia de graça, e é muito bem aceito pelos usuários, e pintamos a cobertura de um prédio, ganhando  para  isso”, contrasta. Esse trânsito pelos extremos da sociedade tem sido cada vez mais evidente, segundo Toys, pela procura do público que, até então, não tinha nada a ver com o grafite, mas passou a ser o consumidor dessa arte.

 

Arquiteta e uma das idealizadoras da Casa Cor, Sheila Podestá conta que, já há algum tempo, o grafite era pauta para integrar o cenário ilustrado por móveis e designers. “Houve uma evolução”, pontua a profissional. “O grafite vem criando uma característica de arte, e a turma que produz vem correndo atrás porque descobriu que isso tem espaço”, comenta.

Grafite feito pelo artista Pomb em um ambiente de cafeteria da Casa Cor Brasília 2015 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Grafite feito pelo artista Pomb em um
ambiente de cafeteria da Casa Cor Brasília 2015

Principal defensora para que esses trabalhos integrassem a mostra, a empresária Moema Leão lembra a valorização que o grafismo tem lá fora, ganhando, inclusive, bairros inteiros, como é o caso de Wywood Walls, em Miami. “As pessoas, no fundo, querem ser surpreendidas”, diz.

 

“Há cinco, seis meses, eu e o Daniel entramos nesse prédio, que era um hospital abandonado, e pintamos tudo lá dentro. E, quem diria, um tempo depois, o Daniel estaria pintando aquela fachada, e outros artistas lá dentro, fazendo painéis?”, provoca Thales, reconhecido pelas ilustrações do bonequinho azul e assinaturas de Pomb. Formado em design pela Universidade de Brasília, ele carrega uma sensibilidade para desenhos desde a infância, mas foi após uma temporada em Barcelona para estudar que ele assumiu a arte como profissão. “E tem dado certo desde então”, conclui, cercado por peças que produziu, inclusive para exposições solo, que vão  de grandes  máscaras feitas em madeira e finalizadas com LED até telas pintadas com tinta acrílica.

O grafiteiro Pomb deixa suas marcas na cidade, prevalecendo sempre entre tons de azul: este é na 303 sul (Vinicius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
O grafiteiro Pomb deixa suas marcas na cidade,
prevalecendo sempre entre tons de azul: este é na 303 sul
 

O primeiro quarto que grafitou, segundo registro de memória, foi o dele próprio, ainda nos idos de 2003. “Eu sempre desenhei, igual a toda criança, só que eu nunca parei”, conta, naturalmente. Com ilustrações frequentes de animais e personagens em seus trabalhos, Pomb tem se dividido entre uma demanda boa de encomendas e algumas vernissages, como a que fez no Sesc da 504 Sul, com 20 peças inéditas. O rosto de uma menina, inspirada na filha de um dos clientes, que ganha efeitos de movimento pelos traços de Thales, e uma baleia gigante, no quarto de um garoto de 15 anos que gosta de temas envolvendo fundo do mar, estão na primeira categoria. Pintada em apenas seis horas, a parede do cômodo funcionou sobre preceitos que a maioria dos pedidos costuma seguir: a identidade autoral dos artistas.

 

Eles são unânimes em dizer que a grande maioria dos interessados já os procura pelo trabalho que estão  acostumados a encontrar pela capital. “De tanto o pessoal pintar na rua, acho que desmistificou o grafite”, observa. Segundo ele, o preconceito reduziu bastante nos últimos cinco anos.

Parede pintada pelo artista Pedro Sangeon: criador do Gurulino hoje tem prestígio na cidade (Arquivo Pessoal)
Parede pintada pelo artista Pedro Sangeon: criador do Gurulino hoje tem prestígio na cidade

Para o produtor cultural Luiz Prado, um dos responsáveis por trazer, no início do ano, a exposição Street Art – Um Panorama Urbano, com o trabalho de 10 artistas de diferentes nacionalidades para Brasília (incluindo obras do inglês Banksy), boa parte da população brasileira já entende o grafite para além da visão de algo marginal ou atrelado à pichação. “A arte de rua é cheia de vida, cores e expressão. Acho que essa é a grande razão do seu sucesso e da sua comunicação imediata com o público”, enxerga o profissional que, antes da capital federal, passeou com a mostra por Rio e São Paulo. “É a arte que está ao alcance de todos, que quebra o paradigma de que arte visual é para ser vista em museus com galerias brancas   e frias”, defende. “A arte de rua é pop”.

 

Mesmo sem se considerar grafiteiro, Pedro Sangeon, criador do famoso Gurulino, está entre as discussões que envolvem o grafite. Dono de uma personalidade calma, que reflete sua for- mação em meditação e ioga – além das artes plásticas –, o artista trabalha  há três anos com desenhos na rua, após ter feito durante muito tempo intervenções urbanas. “Foi muito espontâneo porque, desde o começo da minha carreira, eu achava muito estranho dedicar tanto tempo a estudar a arte, desenvolver um projeto com precisão e, no final, aquilo ser exposto em uma galeria, onde o público que acessa é minúsculo”, reflete ainda hoje.

Criador e criatura: Thales Fernando, o Pomb, brinca ao lado do painel que pintou na rua (Arquivo pessoal)
Criador e criatura: Thales Fernando, o Pomb, brinca ao lado do painel que pintou na rua

Para Pedro, uma das grandes missões da arte é sensibilizar mais uma vez ou manter sensível nas pessoas a humanidade. “Se deixamos só dentro da galeria, no final, a rua vira um lugar superduro”, pondera. Mais recentemente dedicado a pintar tirinhas gigantes pela cidade, o artista plástico tem  visto sua agenda se dividir cada vez mais entre projetos encomendados. Acostumado a participar de eventos culturais, onde expõe especialmente pôsteres, ele viu seu personagem inspirado em um guru ganhar também a casa das pessoas. “O que eu mais faço hoje é o Gurulino”, conta, para estimar em mais de 60% as encomendas do desenho que reflete a veia leve dos traços dele.

 

Outros desenhos, em diferentes plataformas, também surgem com frequência, a exemplo de gravuras e camisetas. “Mas sempre com essa pegada de refrescar o olhar, para o contempla- tivo”, avisa na sequência. Para acertar os detalhes dos  trabalhos, Pedro envia por e-mail um questionário que o ajuda entender o que o cliente busca realmente. Em casos de paredes, por exemplo, é perguntado se o ambiente é aberto ou fechado, com pé-direito alto ou baixo, entre outras coisas. O custo do metro quadrado, por sua vez, passeia entre R$ 150 e R$ 250, enquanto trabalhos em tela costumam ser finalizados a partir de R$ 1.500.

O artista Thales Fernando, o Pomb, extrapola as criações do grafite: máscaras de madeira são algumas das obras de suas exposições (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
O artista Thales Fernando, o Pomb, extrapola
as criações do grafite: máscaras de madeira
são algumas das obras de suas exposições
 

Mesmo felizes com a repercussão entre paredes, os quatro artistas falam em tom de afeto sobre as ruas e confessam que, ali, o grafite continua a ser hobby, diversão, lazer. “É ter contato com o sublime, no meio da loucura da cidade”, define Pedro, sem se desvincular  da personalidade  de Gurulino.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017