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DEZ PERGUNTAS PARA|GERALDO BRITO »

"Tempero brasileiro na realeza"

Atual chef do Sincera Café, Geraldo Brito já serviu personalidades como Saddam Hussein e a princesa Diana, de quem guarda cartões de Natal

Sara Campos - Publicação:27/11/2015 18:37

Os banquetes e coquetéis em am bientes  diplomáticos  fizeram   parte da trajetória de vida do chef Geraldo Brito, ou simplesmente Gerraud, o cozinheiro nascido em Ipameri (GO) que tem um currículo de comensais invejável. Entre eles, a princesa Diana, a rainha Elizabeth II e Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido de 1979 a 1990. Hoje, ele é chef do Sincera Café, na 112 Norte. Lá, faz clássicos internacionais e uma feijoada que ficou famosa, sempre servida aos sábados. Também tem um bufê, oferece jantares em casa ou na dos clientes. Com muita simpatia, ele recebeu Encontro Brasília e contou um pouco sobre a história que envolve amor por uma família de imigrantes, política internacional e paixão pela gastronomia.

 

ENCONTRO - Quando o senhor chegou a Brasília? Como surgiu sua inclinação para a cozinha?

 

GERALDO BRITO - Cheguei a Brasília em 1962 e consegui um emprego como vendedor da Lojas Paranoá, na 507 Sul. Era uma loja que vendia produtos importados que não eram encontrados em nenhum outro lugar. Os donos, a família grega Calimeris, aproximaram-se de mim e se tornaram minha família. O que começou com almoços de domingo se transformou em uma intensa convivência: em três meses, estava morando na casa deles. Eles me abraçaram e me ajudaram a crescer na vida.

 

ENCONTRO - Como surgiu sua inclinação para a cozinha?

 

GERALDO BRITO - Esse meu gosto pela gastronomia foi graças à elaboração de receitas gregas na cozinha da minha mãe adotiva. Eles me apresentaram ao mundo diplomático, o que me abriu grandes portas.

 

ENCONTRO - Por que decidiu morar no exterior?

 

GERALDO BRITO - Convivi intensamente com meus familiares durante 29 anos. Queria viver uma experiência diferente na minha vida. Foi aí que tive vontade de morar fora do país trabalhando como cozinheiro, e chegou a oportunidade de me mudar para o Iraque em 1987. Fui para lá sem saber nenhuma outra língua e acabei aprendendo o básico do inglês.

 

ENCONTRO - O senhor foi cozinheiro da Embaixada do Brasil no Iraque em um momento politicamente delicado, durante o governo de Saddam Hussein.  Qual foi  o fato que mais o marcou nesse período?

 

GERALDO BRITO - Hussein e seus 19 ministros tinham deixado 320 brasileiros como reféns (eram operários da construção civil, que foram presos sem motivo aparente). O embaixador brasileiro ofereceu um jantar ao grupo: assei duas pernas de carneiro enormes, um prato muito apreciado por lá. Depois desse jantar, o Saddam Hussein libertou os brasileiros. Ele disse que a receptividade brasileira foi o que o fez mudar de ideia. Acho que a gastronomia deu uma ajudinha, né? (risos).

 

ENCONTRO - E quando percebeu que era hora de deixar o Iraque?

 

GERALDO BRITO - Depois de dois anos e meio cozinhando lá, a guerra chegou. Fui um dos últimos brasileiros a sair do Iraque antes da guerra. Voltei para Brasília e, pouco tempo depois, recebi o convite do embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima para cozinhar em Londres. Fiquei por lá durante 20 anos.

 

ENCONTRO - Em Londres, o senhor cozinhou para a realeza britânica. Como foi essa experiência?

 

GERALDO BRITO -  A primeira vez foi em junho de 1999, obedecendo a um pedido do embaixador Rubens Barbosa e da mulher, Maria Inês Barbosa, por conta da vinda do ex-presidente FHC e de sua comitiva. Foi a primeira vez que cozinhei para a família real inglesa, incluindo Elizabeth II, o que foi um grande marco na minha carreira. Lembro-me do prato principal: um rosbife (a carne era brasileira) com batata-baroa e arroz com amêndoas. A segunda vez foi durante um coquetel de boas-vindas ao embaixador brasileiro Sérgio Amaral. Apesar da pressão ao cozinhar para eles, sempre fui uma pessoa muito calma. Como soube das visitas com um mês de antecedência, consegui me programar para que tudo saísse perfeito. A única coisa que me incomodava era o desperdício de comida: as travessas tinham de vir fartas e, ao contrário dos brasileiros, os ingleses comem muito pouco.

ENCONTRO - Como foi o seu contato com a princesa Diana?

 

GERALDO BRITO -   Era uma mulher muito simples e atenciosa. Ela chegou a ficar grandes períodos hospedada na embaixada a convite do embaixador e da embaixatriz. Guardo com muito carinho dois cartões de Natal que ela enviou endereçados a mim, escritos a próprio punho, com a fotografia de William e Harry. O outro tem uma foto da família completa.

 

ENCONTRO - Depois de 20 anos na Inglaterra, quais as diferenças que o senhor percebe entre o cozinheiro brasileiro e o inglês?

 

GERALDO BRITO -   O cozinheiro inglês é mais disciplinado e bastante metódico no preparo das receitas: ele costuma  caprichar na apresentação. Já o cozinheiro do Brasil é mais criativo e gosta de fazer adaptações. Eu mesmo nunca segui uma receita: sempre elaborei à minha maneira.

 

ENCONTRO - Qual foi o maior desafio em ficar tanto tempo longe do seu país?

 

GERALDO BRITO -   O maior desafio com certeza foi a saudade, que é imensa. Depois que voltei para o Brasil, sinto saudade da Inglaterra, mas não da mesma forma como eu sentia do Brasil. A saudade era tanta que eu tinha muita necessidade de me comunicar o tempo todo e chegava a incomodar as pessoas daqui com tantas ligações, para desespero dos meus parentes e amigos. Antigamente, o contato era mais limitado, ao contrário de hoje, quando podemos nos comunicar com muito mais frequência.

 

ENCONTRO - O senhor planeja voltar a morar no exterior?

 

GERALDO BRITO -   Às vezes, tenho vontade de retornar a Londres, mas ainda não tenho nada concreto.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017