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NEGÓCIOS|EMPREENDEDORISMO »

A força dos pequenos

Responsáveis por quase 99% dos negócios do DF, empresas de menor porte ganham cada vez mais visibilidades com produtos diferenciados e atendimento exclusivo

Jéssica Germano - Redação Publicação:01/12/2015 13:50Atualização:01/12/2015 15:09

A empresa Qualivitae oferece a prática de exercícios ao ar livre a seus alunos: serviço personalizado (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
A empresa Qualivitae oferece a prática de exercícios ao ar livre a seus alunos: serviço personalizado
Eles representam 27% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e respondem por 47% dos empregos gerados. Ao todo, são mais de 177 mil microempreendedores individuais, microempresas e negócios de pequeno porte que prestam serviços: do pão servido na padaria da quadra ao treinamento esportivo personalizado em um parque da cidade. Lideradas especialmente por jovens, as marcas se destacam pela produção em pequena escala – que permite um cuidado maior na padronização – e pelo atendimento  próximo  ao consumidor.

 

Na JDC Turismo, localizada no térreo do hotel Planalto  Bittar,  a cartela de clientes  é  restrita  propositalmente. “É mais fácil, nós personalizamos e podemos dar atenção bem maior ao consumidor”, explica um dos sócios da agência, Saulo Ventura. Turismólogo, ele montou a empresa em 2011, sediada em Santa Maria, e em 2013 a transferiu para o Setor Hoteleiro Sul. A ideia, segundo ele, sempre foi crescer, mas segurar o porte da empresa foi uma decisão estratégica no início. Na época, o atendimento era  prestado  apenas  por  ele  e pelo sócio administrativo, e atender um número maior, além de ser pouco viável, iria contra a proposta do negócio. “Nós quisemos personalizar, tendo atendimento 24 horas, telefone pessoal disponibilizado, levando ao aeroporto e ajudando no check-in”, completa.

Izac Noleto, da empresa Dona Osmá, faz azeites aromatizados com ervas e especiarias: o hobby virou negócio (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Izac Noleto, da empresa Dona Osmá, faz azeites aromatizados com ervas e especiarias: o hobby virou negócio
 

Hoje, a JDC trabalha com um perfil de clientes fixos, que chegam pelo boca a boca e por empresas. O produto oferecido vai desde passagens e hospedagens individuais até locação de veículo em diferentes nações do mundo, chip telefônico internacional e ingressos de parque de diversões. Segundo Ventura, a principal vantagem sobre os concorrentes maiores é o fator negociação. “Eu posso trabalhar dando mais prazo para  o cliente, negociando o câmbio para ele, com o pacote feito do jeito que ele quiser”, diz, citando o contato direto com fornecedores. “Eu diminuo um  pouco minha margem de lucro, mas, em compensação, consigo uma negociação melhor”, compara o empresário, que já cumpriu até a tarefa de despachar uma mudança inteira para o exterior.

 

No caso de João Alberto Alves, a ideia de abrir um pequeno negócio veio da percepção do mercado. “A proposta foi encaminhada, justamente, com o intuito da formalização de atividades outdoor”, conta ele, que abriu em dezembro do ano passado a Qualivitae Performances e Saúde, escritório especializado na consultoria de práticas esportivas ao ar livre, em condomínios ou endereços corporativos. “É um grupo que dá todo o respaldo ao treinador para que ele dê a atividade”, explana o também educador físico. “Eu não tenho uma turma em um local específico, eu levo a atividade até o cliente.”

O conceito surgiu a partir da percepção de que as pessoas, cada vez menos, querem frequentar o ambiente fechado de uma academia de ginástica. O serviço, então, filtrou o que parecia afastar os alunos e apostou em uma fórmula combinada. “Não é porque ela é outdoor que não temos alguns cuidados”, pondera o pequeno empreendedor, citando ações como anamnese (entrevista realizada por um profissional a fim de conhecer o histórico de saúde de um paciente) e solicitação de atestado médico antes de iniciar as atividades, que são prescritas individualmente para cada cliente, e oferecidas em qualquer lugar do DF, onde o contratante preferir.

 

Com 27 alunos fixos atualmente e três condomínios, nos quais propõe também estrutura de lazer com programação cheia, a Qualivitae aposta no contato próximo como ferramenta de adesão ao produto. “Eu posso saber o que o cliente quer”, considera Alves. Ele lembra ainda o quesito de disponibilizar três treinadores formados, dois trainees e um coordenador técnico com aparato completo para exercícios funcionais.  “O educador físico não sai da faculdade sabendo empreender, ele sabe  apenas a parte técnica. E, quando um personal tem uma empresa, normalmente não tem a estrutura”, pontua. Ser uma empresa pequena, que oferece ambos desses pontos, serve  como estímulo  para  o registro que pretende ter um centro  de treinamento físico em três anos. Os preços também procuram ser competitivos. Nos horários mais concorridos, de manhã cedo ou após as 16 h, o pacote mensal, com dois encontros semanais, sai a R$ 228.

Saulo Ventura é um dos sócios da JDC Turismo e vê como grande vantagem ser uma empresa pequena: tratamento personalizado ao cliente (Vinicius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Saulo Ventura é um dos sócios da JDC Turismo e vê como grande vantagem ser uma empresa pequena: tratamento personalizado ao cliente
 

Com intuito de estimular o consumo nos negócios de menor porte, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) começou em outubro a campanha “Compre do Pequeno”. Sabendo, por meio de pesquisa, que o bom atendimento, a qualidade e a variedade do produto são os pilares que mais chamam a atenção do cliente no momento da compra, a instituição optou por mostrar como as empresas com esse perfil preenchem bem os pilares destacados. “A nossa economia, o nosso mercado, é formado de pequenos negócios”, frisa o diretor superintendente do Sebrae-DF, Valdir Oliveira, embasando-se em números significativos. “Então, fomentar pequenos negócios aqui é fomentar o desenvolvimento do Distrito Federal”, acredita.

 

Ele cita como exemplo o movimento nas regiões administrativas, que acabam subestimadas pelo fluxo no centro da capital, e não podem ser esquecidas. “Quando você procura a pequena na sua região, ela sabe o que você precisa”, explica a relação. “A flexibilidade e a condição favorável de compra só são possíveis quando se está falando com o dono do negócio”, enfatiza.

Lorena Stadler é proprietária da Alma Aquária, marca que produz xampus, sabonetes, condicionadores, entre outros produtos: o natural está na moda (Vinicius Santa Rosa/Encontro/DA Press)
Lorena Stadler é proprietária da Alma Aquária, marca que produz xampus, sabonetes, condicionadores, entre outros produtos: o natural está na moda

Com 53% dos empreendedores concentrados na faixa de até 34 anos e a maioria de mulheres, o diretor cita duas questões importantes para que um negócio dê certo. A primeira é se identificar com a missão da empresa. “Porque no pequeno negócio é o empresário quem faz tudo: vende, compra e produz. Imagina alguém montar um pet shop sem gostar de animal?” Por isso, copiar fórmulas bem-sucedidas de outros costuma não dar certo, já que a dedicação não vai ser a mesma. “O segundo ponto é conhecer o mercado em que está se inserindo”, diz. Ter conhecimento sobre a relação com os fornecedores, sobre o dia a dia do negócio, os concorrentes e o local faz com que as chances de dar certo sejam enormes, garante Valdir Oliveira.

 

Sobre abrir em um momento de crise econômica, o diretor é contundente: “Sempre encorajamos, mas é muito importante que a pessoa se prepare”. O raciocínio, segundo o diretor do Sebrae, é que a dificuldade também gera oportunidade, entretanto é preciso estar atento aos comportamentos de consumo. “Se as pessoas se prepararem, com certeza vão ter oportunidades que podem ser alavancadas. Se ficarem acomodaas, certamente vão perder espaço no mercado”, conclui.

 

Foi vendo o vácuo na oferta de cosméticos sem conservantes ou químicos que a bióloga Lorena Stadller fundou a Alma Aquária. Voltada para xampus, sabonetes, cremes e óleos com propriedades naturais e medicinais, ela aproveitou o conhecimento adquirido por meio de um curso de manipulação de ervas (somado à formação acadêmica) para produzir para fora o que já fazia para a família. “É uma ideia bem simples: utilizar o minimamente processado com o potencial natural”, resume, bastante satisfeita com a venda dos itens, que tri- plicou em pouco mais de três meses de vida da marca virtual.

 

Lorena aproveita feiras e eventos com filosofia parecida à missão dos cosméticos para alcançar novos clientes. “Foi de uma resposta imediata”, comemora. “Realmente é algo que as pessoas se surpreendem muito, porque não têm noção da quantidade de químicos que existe nos produtos que usam. Tem um efeito colateral como qualquer outro químico”, alerta, para mencionar a composição de um hidratante corporal comum, desses encontrados em farmácias e supermercados. “Tem quase 40 nomes entre conservantes no rótulo.”

 

 

Os produtos feitos de forma artesanal da Alma Aquária saem entre R$ 6 e R$ 40, e podem ser encomendados via fanpage, homônima à marca, com entrega duas vezes por semana. “Já é uma fonte de renda”, conta a nova microempresária, que está em fase de cadastro e pretende aperfeiçoar o laboratório de produção em casa para atender mais pessoas continuando com este modelo, sem loja física.

Clique para acessar
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Já a produção informal de azeites especiais deu tão certo para Izac Noleto que ele abandonou o cargo – tão sonhado – de confeiteiro no restaurante Dom Francisco, para dedicar-se exclusivamente ao negócio batizado de Dona Osmá, em homenagem à mãe. “Até então era só uma forma de ganhar um extra”, lembra-se sobre a época em que recebeu o estalo de um amigo, hoje sócio, para se formalizar como microempreendedor  individual.

 

“Para o negócio dar certo, eu tive de escolher. Mas, desde que comecei a fazer os azeites, sempre acreditei que poderia dar certo”, conta ele, que hoje apresenta em feiras como a Bsb Mix, e encontros voltados para gastronomia, sete opções do produto. Entre eles,  está  o campeão de vendas, quatro ervas, feito de   alecrim, manjericão, sálvia, tomilho, alho e cebo- la desidratados, além de cardamomo e calabresa. “É um curinga e harmoniza muito bem com qualquer prato”, recomenda, assim como costuma fazer nos rótulos padronizados e detalhados que desenvolveu para as garrafas de vidro em que apresenta os óleos.

 

As combinações saem a R$ 45 qualquer uma, em 375 ml, e ao lado de brigadeiros gourmets, feitos em 13 versões com  diferentes  licores,  correspondem ao plano de Noleto de abrir um empório com produtos artesanais no Plano Piloto, no início de 2017. “O artesanal está cada vez sendo mais valorizado, mais procurado, com eventos, inclusive, voltados para ele”, avalia. “E, de certa forma, acaba sendo um produto exclusivo. Porque você sabe que foi aquele deter- minado produtor que fez e que não é algo que encontrará em prateleira de mercado”, destaca a diferença. Segundo o superintendente do Sebrae-DF, buscar boas ideias é o grande pulo do gato para o sucesso. “Inovação é fundamental para a  sustentabilidade  de  um  pequeno negócio”, atesta Valdir Oliveira.

 (Vinicius Santa Rosa/Encontro/DA Press)

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017