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ENTREVISTA | Gilvan Alves »

"Velhice não é doença"

Ao lidar diariamente com a linha tênue que separa a vaidade do excesso de preocupação com a aparência, o dermatologista Gilvan Alves critica a obsessão por beleza, mesmo oferecendo tratamentos de ponta em seu consultório

Paloma Oliveto - Publicação:24/02/2016 15:22Atualização:25/02/2016 10:30
'Velhice não é doença' diz Gilvan Alves (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
"Velhice não é doença" diz Gilvan Alves
Quando estava com seus 20 e poucos anos o capixaba Gilvan Alves, então estudante em Belo Horizonte, sofria na pele uma das maiores agruras do sexo masculino: a calvície. “Era época de os rapazes usarem cabelo comprido e eu estava ficando sem cabelo”, recorda. Mal ele imaginava que, um dia, ajudaria a resolver esse problema em jovens e pessoas maduras que recorrem a sua clínica, na Asa Sul, para elevar a autoestima não só com tratamento contra calvície, mas para se submeter aos mais variados procedimentos estéticos, clínicos e cirúrgicos associados à beleza.
 
Cultivando orgulhosamente a calvície que já está completamente integrada ao seu visual, o dermatologista de 50 anos é um homem bonito e elegante, que faz questão de buscar os pacientes na sala de espera. No dia a dia da clínica, atende homens e mulheres que querem se ver livres de rugas, marcas de expressão, celulite, papada, cicatrizes. Não raras vezes, precisa convencê-los de que estão exagerando e, em vez de mais belos, correm o risco de cair no ridículo. O médico garante que prefere perder paciente a colocar sua assinatura em uma obra que agrida suas referências estéticas.

Pode soar paradoxal que um especialista em procedimentos associados à beleza critique a preocupação excessiva com a aparência. Contudo, Gilvan Alves faz questão de ressaltar que o conteúdo é mais importante que a embalagem. Na Europa, onde morou, percebeu que até entre os mais jovens a cultura geral costuma ser mais valorizada que a falta de rugas e celulites ou a presença de músculos definidos. Mas, no Brasil, observa que, por questões climáticas e sociais, o apego estético pode ser mais forte que a exaltação do intelecto.

Gilvan Alves, é claro, aprecia a vaidade. Para quem quer melhorar a autoestima corrigindo aspectos que incomodam, ele afirma que a medicina dispõe de um enorme arsenal: cremes, lasers, preenchimentos, fios de sustentação, máquinas para redução de gordura e celulite, robô que faz transplante de cabelo. Quanto maior a prevenção, menos será preciso recorrer a eles. Os cuidados incluem uso de filtro solar e a adoção de hábitos saudáveis, como não fumar nem beber e cuidar da alimentação. Em entrevista a Encontro Brasília, o médico convida os leitores a valorizar cada época da vida. “Tem gente que diz que está infeliz porque está velha, mas a outra opção é muito pior”, lembra.

ENCONTROAs pessoas estão muito obcecadas com beleza?
GILVAN ALVES: É bacana a pessoa ter vaidade e se cuidar. Mas é preciso ter cuidado para não extrapolar para a neurose e transformar uma coisa que pode ser saudável em doentia, colocando a saúde em risco. O conceito de saúde é amplo; para ser saudável, a pessoa tem de estar bem física e emocionalmente. Hoje, existe muita pressão da sociedade e da mídia e a pessoa pode acabar se sentindo doente. Até uma ruga pode fazê-la se sentir infeliz. Acho que temos de tomar cuidado com essa pressão da mídia pela eterna juventude, a pressão da sociedade de que só é bonito quem está magrinho e musculoso, chegando ao ponto de pessoas bonitas se acharem feias porque não estão com o corpo todo definido e fazerem coisas que as deixam deformadas. O conceito de beleza é muito subjetivo, não há um padrão do que é o belo. Cada um tem seu conceito de bonito, e isso faz muita confusão na cabeça do jovem e das pessoas mais emocionalmente instáveis.

E: O Brasil é um dos campeões mundiais em procedimentos estéticos. Aqui a obsessão com a aparência é maior?
GA: Tem a questão tropical, com mais luz as pessoas se expõem mais. Nos países frios, são dois meses de verão e depois se cobre tudo, com roupas e maquiagens pesadas. Tem aspectos culturais também; o brasileiro é mais sensual, temos uma sociedade que incentiva mais a sensualidade, com nossas danças, nossas músicas. As pessoas querem mostrar mais o corpo, se exibir. Nossa sociedade é muito externa, muito visual. Essa é uma opinião pessoal, não de médico. Acho que muitas pessoas acabam valorizando mais o aspecto físico do que o cultural. Estão exercitando muito o corpo e deixando de exercitar a mente. Eu morei na Inglaterra, e isso o europeu valoriza muito: ele sabe que tem de se preocupar com as conquistas intelectuais. Uma mocinha não vai olhar, por exemplo, só os músculos de um rapaz, ela vai prestar atenção quando ele abrir a boca, no conhecimento que ele tem, no conhecimento de artes, de línguas, do mundo. Então você vê muito menino de 16 anos preocupado em fazer uma viagem para a Índia, e não preocupado com o dinheiro que tem de separar para a academia, para compra os whey protein. Aqui, na televisão, por exemplo, o apresentador tem de ser bonito, estar arrumado, penteado. Se for competente, mas não estiver nos padrões, não aparece na televisão. Então, acho que no Brasil todos esses aspectos se somam ao climático e ao cultural.

E: A nossa sociedade tem medo de envelhecer?
GA: Tem. Essa pressão da sociedade e da mídia, do eterno belo, e de que só é belo se não tem rugas, leva a pessoa a sair de uma coisa que é saudável, que é ter vaidade, a uma coisa patológica, que faz com que a velhice vire doença, e não mais uma coisa natural. É legal ter vaidade, mas não se deve deixar isso ficar mais importante do que a sua saúde. Eu tenho 50 anos, vou ali, conserto uma ruguinha, puxo aqui, boto um preenchimentozinho. Mas sem que isso seja uma psicopatia, um distúrbio psiquiátrico. Tem gente que diz que está infeliz porque está velha, mas a outra opção é muito pior. Então, vamos nos cuidar, sim, vamos malhar, vamos à praia, vamos nos divertir evitando o sol, ter uma boa alimentação, mas vamos curtir cada idade. Eu estou com ruga porque tenho 50 anos. Quer ter 50 e parecer 25? Aí extrapola e pode cair no ridículo.

E: O senhor já recusou fazer algum procedimento em pacientes?
GA: Lógico. Eu posso até estar impondo meu padrão estético, mas falo que no meu padrão isso não vai ficar legal. A pessoa chega e fala: “Pode injetar”, eu respondo que não é assim, o paciente não manda no médico. Na estética, a pessoa mostra o que a incomoda, eu apresento as propostas, mas falo até onde vou. Chega um ponto em que detecto que o paciente está extrapolando. A estética é muito subjetiva, mas tem casos que todo mundo consegue perceber quando o paciente está extrapolando. Às vezes a pessoa chega com uma pequena cicatriz de acne e já acha que é o fim do mundo, não sai de casa por causa disso. É o caso de indicar um psiquiatra, é uma síndrome chamada dismórfica.

E: O médico que trabalha com estética precisa ser um pouco psicólogo também, não é?
GA: Sim, todo médico. Nós fazemos psicologia na faculdade e conseguimos detectar um paciente que de certa forma está agindo como se tivesse um distúrbio psiquiátrico. As várias especialidades se somam, então pedimos ajuda ao psiquiatra, sim. É difícil falar disso com o paciente. Ele pode perguntar: “Ah, você acha que sou louco?” e partir para a agressão. Mas às vezes é melhor não cultivar um paciente desse e não fazer o procedimento, para que ele possa tratar o distúrbio psiquiátrico. Um cirurgião plástico, por exemplo, pega um paciente desse, aí opera e só vai ter problema. O paciente vai falar, por exemplo, que, se antes não saía de casa por causa de uma papadinha, agora não sai por causa da cicatriz que ficou na orelha. Então é preciso tomar muito cuidado.
Hoje os homens estão tão preocupados com a beleza quanto as mulheres?
Ainda não. A vaidade da mulher ainda é maior. O que notamos muito na nova geração – e isso até me preocupa – são rapazinhos injetando substâncias, hormônios, para ganhar músculos. Mas da geração que hoje está com 40, 50 anos, 70% dos pacientes ainda são do público feminino.

E: Qual é o campeão dos procedimentos?
GA: Não tem dúvida de que é a toxina botulínica e os preenchimentos. O preenchimento vai fazer volume no rosto, como aumentar o lábio. Já a toxina botulínica é para a ruga de movimento. Agora tem de tomar cuidado porque não dá para usar a toxina em quem precisa de expressão, como um ator ou um profissional que aparece na televisão.

E: Que cuidados as pessoas devem ter para evitar o envelhecimento precoce?
GA: Usar o protetor solar desde os 6 meses de idade, isso é o principal. E ter os hábitos de vida saudável: boa alimentação, atividades físicas e evitar os ações que aceleram o fotoenvelhecimento. Ou seja, não se deve se expor ao sol sem protetor, deve-se tomar muito líquido, não beber, não fumar. Depois que já entrou no processo de envelhecimento, existem os procedimentos clínicos e os lasers, além dos cremes à base de ácido retinoico e vitamina C, que são os padrões ouro ainda do tratamento. Agora, é importante tomar cuidado com cremes cosméticos. Nós estamos falando de medicamentos que o médico prescreve. Existem muitos “cosmecêuticos” em freeshop e perfumarias, tipo caviar do Pacífico Sul, muita bobagem, cremes que são caros e que não funcionam. Esses cosméticos só agem na camada superficial da pele, e os próprios fabricantes informam isso à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) quando vão pedir o registro de cosmético. Para conseguir esse tipo de registro, eles têm de provar que o creme não entra na epiderme, porque, se entrasse, seria medicamento, e o procedimento para fabricação e registro é completamente diferente. Aí eles conseguem o registro e começam a fazer propaganda e a divulgar que o creme é milagroso. Isso é uma bobagem.
 
 
 (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Gilvan Alves é dermatologista, viúvo. Natural de Pinheiros (ES), reside em Brasília desde 1993. Graduado em medicina pela Universidade Federal de Minas Geral, fez residência em dermatologia pelo St.John's Institute of Dermatology de Londres e possui Mestrado em dermatologia pela Universidade de Londres. Autor de diversos trabalhos científicos, Gilvan tem uma extensa participação em congressos da área, e é sócio da Sociedade Brasileira de Dermatologia, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica. É também associado da American Academy of Dermatology, da International Academy of Cosmetic Dermatology e da   Royal Society of Dermatology. Atende na clínica que leva seu nome.
 

 
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017