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SAÚDE »

O poder do laser

Ele corta, queima e até causa explosões, mas a técnica de controlar raios luminosos pode também ser usada a favor da saúde humana e, de fato, tem transformado diferentes áreas da medicina

Dominique Lima - Redação Publicação:24/02/2016 17:05Atualização:25/02/2016 16:05
'Mesmo que não substitua o bisturi, a cirurgiã plástica Márcia Moreira destaca as vantagens da tecnologia: laser é capaz de retrair a pele em pequenas regiões' (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
"Mesmo que não substitua o bisturi, a cirurgiã plástica Márcia Moreira destaca as vantagens da tecnologia: laser é capaz de retrair a pele em pequenas regiões"
Ferramenta agressiva que se tornou instrumento medicinal, o laser transformou a realidade de algumas especialidades médicas. Fontes controladas de energia da luz acumulada, eles cortam, queimam, causam explosões. Cientistas e médicos, no entanto, enxergaram a possibilidade de usar cada uma dessas ações a favor da saúde humana. Por vezes, essa tecnologia trouxe a benesse de causar menos danos que outras técnicas. Por outras, tornou possível novos procedimentos antes inimagináveis. A oftalmologia e a dermatologia, principalmente, foram grandes beneficiadas da tecnologia de controlar feixes de luz, e seu uso é cada vez mais amplo na medicina contemporânea.

Desde 1961, quando o primeiro laser foi patenteado, o potencial para uso mercantil se destacou tanto quanto o uso bélico, finalidade primeira, já que os laboratórios onde foi desenvolvido eram militares e o clima político à época mantinha-se tenso por conta da Guerra Fria. Anos depois, a medicina se apoderou dessa tecnologia também. A atuação da luz coerente, como o laser é também chamado, já que se trata de um feixe mecanicamente redirecionado, foi detectada como ferramenta no combate a tecidos indesejados, entre eles tumores, cicatrizes, manchas. O primeiro laser fabricado, feito de rubi, foi usado nos Estados Unidos, ainda na década de 1960, para atacar um tumor ótico, com excelentes resultados. Hoje, entre os tratamentos oftalmológicos, destacam-se as cirurgias refrativas da córnea – para correção da miopia, do astigmatismo e da hipermetropia –, os tratamentos do glaucoma e da retinopatia diabética.

“De modo geral, o grande avanço da adoção do laser foi a eficiência sem igual dessas máquinas”, resume o oftalmologista José Rodrigues, que faz uso do dispositivo há mais de 30 anos. Além da precisão do laser em si, as tecnologias que permitem cálculos precisos proporcionados por computadores avançados garantem os resultados positivos porque diminuem os riscos dos procedimentos. Essa precisão é importante quando se trata de cirurgias em pequenas extensões de tecidos sensíveis, como é o caso dos olhos. Além disso, o laser acaba sendo menos invasivo que o corte por bisturi, diminuindo em muito o tempo necessário à recuperação pós-cirúrgica. Isso porque o pulso da emissão é tão rápido – frações de segundo – que a lesão acaba sendo muito menor do que a praticada com o bisturi.

Outra área da oftalmologia que se beneficiou com o laser foi a de diagnóstico. Há exames capazes de fornecer informações de maneira inédita. “Um exemplo é a tomografia de coerência ótica. É um feixe de luz emitido para dentro do olho. A deformação que o feixe de laser sofre é um mapa tridimensional, quase como olhar aquele tecido no microscópio”, explica o oftalmologista Hilton Medeiros. No caso da retinopatia diabética, o advento do laser transformou totalmente o prognóstico da doença, evitando a perda da visão para inúmeros pacientes. Por meio dos lasers fotodisruptores, como o Yag, causador de micro explosões em seu ponto de foco, é possível limpar as lentes oculares para tratamento da catarata.

A amplitude de uso do laser deriva dos diversos tipos fabricados. A propriedade de cada um depende do meio em que é produzido. Ele pode ser sólido, gasoso ou líquido, fabricado em diferentes materiais. O meio ativo é um dos três fatores necessários para a existência do laser. Os outros dois são a fonte produtora de energia e a cavidade de ressonância. Cada um constitui a maneira que cientistas encontraram para manipular a luz a fim de canalizar uma onda específica e emitir essa uma cor em uma direção única. O resultado é energia concentrada em um único ponto, e os poderes múltiplos advindos daí.

Diferentes meios ativos fazem o laser ser capaz de esquentar uma pigmentação específica da pele, agir sobre a água das células ou provocar %u2028microexplosões capazes de romper tecido. E, com isso, os lasers rejuvenescem a pele, eliminam manchas, cicatrizes, corrigem a visão e combatem tumores. Uma das maiores vantagens dessa tecnologia é a reprodutibilidade de resultados, algo reverenciado pelos médicos. Isso porque essa capacidade diminui em muito os riscos de erro. A tecnologia tem avançado tanto que hoje máquinas de cirurgia ocular por meio de laser são capazes de considerar aspectos individuais do organismo do paciente no cálculo de administração dos raios. Como explica a dermatologista Joana Costa, o aparelho fica mais refinado, atingindo melhor seu objetivo com o mínimo de efeito colateral. “A nova luz pulsada detecta a quantidade de melanina da pele e calcula a frequência necessária, bem como o intervalo de tempo. E, assim, consegue tratar o paciente na potência máxima sem queimar. São exemplos de evoluções que valem a pena”, diz.

Toda a técnica, no entanto, não substitui a presença de especialistas. Além do conhecimento profundo sobre os complexos equipamentos, os médicos especializados entendem como o organismo poderá responder ao tratamento e qual a indicação para cada caso, cada paciente. “Oferecer o melhor equipamento é importante, mas a máquina sozinha não é capaz de resultado algum. Há risco de queimaduras, entre outros problemas, quando o laser é usado de maneira inadequada”, diz o dermatologista Ricardo Fenelon. Um dos pioneiros no uso de laser em Brasília, ele acredita que a formação contínua do médico é essencial para quem pretende oferecer tratamentos a laser.
'Nova luz pulsada detecta quantidade de melanina da pele e calcula a frequência necessária. Trata o paciente na potência máxima sem queimar, diz a dermatologista Joana Costa' (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
"Nova luz pulsada detecta quantidade de melanina da pele e calcula a frequência necessária. Trata o paciente na potência máxima sem queimar, diz a dermatologista Joana Costa"

Por essa razão, a formação de profissionais da área de dermatologia, que exige mínimo de três anos de estudos após a conclusão do curso de medicina, inclui uma porcentagem da carga horária voltada especificamente para as novas tecnologias. É o que explica a dermatologista e professora do Uniceub Mariana Costa. E foi a confiança no médico mais do que na tecnologia que levou a funcionária pública Rúbia Maria Pereira a buscar um tratamento a laser para a pele. Seu principal objetivo era tratar manchas, irregularidades da pele, bem como controlar a oleosidade do rosto. O médico que a aconselhou sugeriu o uso do laser fracionado. “No início, o tratamento dá rubor, mas nada que impeça de trabalhar no outro dia. Isso me incentivou. O fato de ter custo acessível e ser indolor também fez diferença. Mas a confiança no médico, um cirurgião plástico, foi fator decisivo”, conta Rúbia.

Além de proporcionar rejuvenescimento, são inúmeros os usos possíveis para tratamento da pele, seja no combate a doenças, seja com função estética. E as novidades nesse campo são constantes. Um uso mais inusitado, aponta o dermatologista Ricardo Fenelon, é auxiliar na aplicação em camadas mais profundas da pele. Essa função, chamada drug delivery, tem sido muito eficaz no tratamento de queda de cabelo. A medicação consegue passar a barreira da epiderme e agir mais profundamente na pele após o uso de laser fracionado no local. Dália Prugner é uma dos pacientes do dermatologista e conseguiu 90% de melhora na queda de cabelo e diminuição de falhas depois da nona sessão do tratamento. Melhoria de lasers já existentes e invenção de novas maneiras de usá-los ainda continuam a ser os dois principais enfoques das indústrias, que trabalham em inovações de velocidade exponencial num campo que ainda tem muito espaço para crescer.

O cirurgião plástico Rafael Nunes é um dos especialistas da área médica que auxilia engenheiros e físicos a produzir novos lasers. Ele conta que trabalha com o desenvolvimento de novas máquinas. Cerca de metade de seu tempo de trabalho é dedicado a esse projeto. O resto é cumprido com a capacitação de médicos no manuseio das novas máquinas e com o atendimento a pacientes. O trabalho de desenvolvimento de laser é feito principalmente nos Estados Unidos, polo de criação dessas novas tecnologias, mas o médico ressalta que o Brasil tem evoluído bastante na área. Os lasers nacionais têm sido muito bem recebidos no mundo inteiro. “Além disso, o órgão controlador do uso desse tipo de equipamentos, a Anvisa, é uma das melhores agências dessa natureza. Isso leva muitas vezes à demora da liberação de novidades, mas se traduz em segurança”, explica.

Para o médico, o aspecto que mais evoluiu nos lasers foi a segurança. O aumento dos índices de bons resultados foi outro aspecto relevante. Além disso, os custos para compra das máquinas têm diminuído, apesar de o investimento no equipamento ainda ser alto. Tudo isso tem contribuído para maior acessibilidade do público aos tratamentos com esses aparelhos. Foi ao considerar o custo-benefício que a fisioterapeuta Amanda Roveda decidiu substituir o uso de medicamentos à base de ácidos no tratamento de manchas no rosto pela luz pulsada, que não chega a ser laser propriamente dito porque usa faixa de luz mais larga, mas que tem muitos dos mesmos efeitos. Ela percebeu que o resultado seria mais eficaz e, assim, o investimento final, menor. O tratamento foi relativamente tranquilo, segundo ela, que não chegou a sentir dor durante as sessões. E o resultado foi percebido desde a primeira sessão.
'Há exames capazes de fornecer informações de maneira inédita, explica Hilton Medeiros, sobre como a oftalmologia se beneficiou dos avanços do laser, especialmente nos diagnósticos' (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Pres)
"Há exames capazes de fornecer informações de maneira inédita, explica Hilton Medeiros, sobre como a oftalmologia se beneficiou dos avanços do laser, especialmente nos diagnósticos"

Na busca do melhor custo-benefício, é possível ainda o uso combinado do laser com outras técnicas. Cirurgias acompanhadas de laser fracionado têm alcançado excelentes efeitos em procedimentos faciais. A cirurgiã plástica Márcia Moreira conta que, após a intervenção cirúrgica, o laser é capaz de retrair a pele em pequenas regiões, complementando o trabalho alcançado com o bisturi. Apesar de não substituir a lipoaspiração na maioria dos casos, um tratamento possível para certos pacientes é o laserlipólise, em que os feixes de luz quebram a gordura para então ser reabsorvida ou retirada manualmente do organismo. Ainda com o apoio da estrutura de um centro cirúrgico, o laser pode ser usado com frequências maiores, que exigem que o paciente seja anestesiado. Os cuidados após a aplicação são maiores, mas o resultado é ainda mais impactante e eficaz.

Se a grande vantagem do laser, para a cirurgia plástica, é a indução à retração da pele, que leva a um resultado melhor, a desvantagem é o custo. Aparelhos caros, como os de ponta diamantada, elevam bastante o preço final dos procedimentos, explica a cirurgiã Márcia Moreira. É também por conta do custo elevado que o laser ainda não foi capaz de substituir o bisturi convencional. Nessa situação específica, os benefícios que ele poderia proporcionar, um aumento relativo da precisão, não valem o incremento no valor do custo da operação. Mesmo porque, nesses casos, nada substitui a capacidade das mãos do próprio cirurgião.
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017