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COLUNA | Nas telas »

Resistência de dor e sangue

José João Ribeiro - Articulista Publicação:26/02/2016 12:29Atualização:29/02/2016 11:39
Para quem acompanha a evolução da carreira do astro Leonardo DiCaprio, é muito difícil esconder o entusiasmo do seu encontro com o mexicano Alejandro González Iñárritu, na obra-prima O Regresso, uma deslumbrante produção que aborda os valores morais de um homem em meio à exploração sanguinária na natureza virgem, povoada por nativos, ainda em maioria. Do primeiro ao último minuto, deixando o espectador com o coração na garganta, numa profusão de tomadas reais, em uma paisagem de intocada beleza.
Leonardo DiCaprio, o maior ator de cinema desta geração, surpreende em O Regresso: deslumbrante produção que aborda os valores morais de um homem (Reprodução/Divulgação)
Leonardo DiCaprio, o maior ator de cinema desta geração, surpreende em O Regresso: deslumbrante produção que aborda os valores morais de um homem

Com 12 indicações ao Oscar, O Regresso mostra a verdadeira história do explorador Hugh Glass (DiCaprio), exímio conhecedor das trilhas e atalhos do território norte-americano, no início do século XIX. Contratado por uma expedição comercial que buscava pele de animais, Glass sofre um terrível ataque de um urso, cena irretocável, já marcante e ponto-chave do longa-metragem, que o deixa praticamente à beira da morte.

O chefe do grupo, o capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson), compadecido do estado físico de seu guia, resolve nomear alguns membros da expedição, em troca de dinheiro, para acompanhar Glass até seu derradeiro suspiro. Entre os destacados está John Fitzgerald (Tom Hardy), um crápula entupido de preconceitos e que não nutre nenhuma simpatia pelo parceiro ferido. Na praticidade de largar o estorvo do que restou do rival, Fitzgerald abandona Glass à sua própria sorte, parcialmente enterrado vivo, mas não sem antes executar a pior das vilanias, perante os olhos azuis, misturados a sangue e lágrimas, do estático explorador tomado em chagas. Em meio a alucinações, Hugh Glass sobrevive, encontrando forças para atravessar um inverno intenso em busca de vingança.

Após cinco outras indicações, tudo leva a crer que é chegada a hora de Leonardo DiCaprio ganhar seu merecido Oscar. Ele é o maior ator de cinema desta geração. É desumano querer comparar seu trabalho com o de seus colegas. Nenhum outro em Hollywood consegue o repertório de infinitas expressões faciais nas transformações e sentimentos que o personagem exige. Leonardo é um titã que surta, entra em transe e, ainda, é capaz de se desarmar, para a surpresa do público, no mais condoído e sincero abraço. Um gênio da mesma envergadura de Marlon Brando, Cary Grant e James Stewart.

DiCaprio foi o vencedor do Globo
de Ouro 2016 de Melhor Ator deDrama (Reprodução/Divulgação)
DiCaprio foi o vencedor do Globo
de Ouro 2016 de Melhor Ator de
Drama
Seu antagonista merecia fazer pose nas fotos com Leo, empunhando o prêmio de melhor ator coadjuvante. Seu Fitzgerald é das figuras mais repulsivas dos últimos tempos. Transpira rancor, ódio e despeito a cada aparição ao longo de O Regresso.

Todo filme se escora em sua grandiosidade. Iñárritu dá show. O roteiro privilegia o cenário lindíssimo, de uma terra coberta de neve, maculada, muitas vezes, pelo contraste do vermelho sangue. Tanta beleza faz dessa paisagem engrenagem fundamental do filme na fotografia sublime de Emmanuel Lubezki, parceiro de Iñárritu em Birdman. Sem contar a trama sufocante, permeada de dor, inveja, ódio, violência e vingança. Um tour de force que não exagera em nomear O Regresso, a exemplo do espetáculo Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson, nos anos 2000, como o provável filme desta década.
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017