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COMPORTAMENTO | Consumo »

Surpreenda-se todos os meses

Receber em casa vinhos, cervejas, frutas, livros e uma infinidade de produtos que passam por curadoria e chegam a um preço fixo não é sinônimo de luxo: os clubes de assinaturas estão ganhando a confiança e a fidelidade dos brasilienses

Tereza Rodrigues - Publicação:26/02/2016 13:25Atualização:01/03/2016 15:31
'A grande sacada é mudar o nosso jeito de consumir' , diz Victor Paruker, assinante do clube de vinhos Gourmet Butler (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
"A grande sacada é mudar o nosso jeito de consumir" , diz Victor Paruker, assinante do clube de vinhos Gourmet Butler
Sem saber exatamente que rótulos chegariam a sua casa, o empresário Victor Paruker começou a pagar um valor fixo para receber duas ou três garrafas de vinhos todo início de mês. A compra, que envolve menos o consumo em si e mais uma relação de confiança na seleção preparada por sommeliers, é uma modalidade que vem conquistando cada vez mais brasilienses: os clubes de assinatura. “Eu conheci o Gourmet Butler através de um amigo que já era sócio e achei a proposta muito interessante. O que eu pago de mensalidade (175 reais) é um valor menor do que eu costumava gastar tomando vinho às vezes em um único jantar, só que sem os benefícios que o clube me oferece”, conta.

Entre as vantagens para o consumidor, Victor destaca a comodidade de receber os produtos em seu endereço, a possibilidade de conhecer vinhos raros ou de pequenos produtores, a convivência com outros assinantes em eventos promovidos pelo clube e o ensejo de ser surpreendido a cada vez que chega uma caixa nova. “É uma curiosidade bacana desde quando eles falam como foi feita a seleção do mês até quando eu recebo e fico pensando em uma ocasião para tomá-los. É sempre bom. E eu me deixo levar”, conta ele, que não costumava consumir vinho rosé, por exemplo, mas, depois de provar o que foi enviado pelo Gourmet Butler (GB) no final do ano, passou a prestar mais atenção e gostar. “A grande sacada é mudar o nosso jeito de consumir. Sou leigo ainda no assunto, estou aprendendo sobre esse universo. E os vinhos de cada mês que gosto mais eu sempre acabo comprando mais exemplares, com desconto no site.”

Quem fala na ponta da língua sobre os diferenciais dessa modalidade de compras é o empreendedor Guto Jabour, idealizador do GB. De família ligada à gastronomia – os Jabours estão à frente da Sweet Cake, no mercado há mais de duas décadas –, o jovem de apenas 25 anos graduou-se em administração pela Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, e usa a experiência que adquiriu no mercado financeiro para aperfeiçoar o negócio. “Butler é mordomo em inglês. Quis trazer esse conceito para a empresa para categorizar como o clube que eu planejei. Precisava ser mais do que juntar pessoas para comprar vinho. É um clube de experiências, um modelo de negócio que me permite inovar”, diz.

Guto Jabour define seu negócio: 'Gourmet Butler é mais do que juntar pessoas para comprar vinho, é um clube de experiências' (Vinícius Santa Rosa/Encontro/D.A Press)
Guto Jabour define seu negócio: "Gourmet Butler é mais do que juntar pessoas para comprar vinho, é um clube de experiências"
Animado, Guto conta que, depois de dois anos, o GB passou da fase de experimentação e agora está focado na expansão – o negócio chegou há poucos meses a Goiânia e outras praças estão sendo estudadas. São mais de 500 clientes em Brasília, que se dividem em quatro categorias: premium pocket, premium, royal pocket e royal. Cada uma recebe uma caixa diferente todos os meses, contendo de duas a seis garrafas de vinho, e preços que variam de 175 a 660 reais. A forma como são escolhidos os rótulos, segundo Guto, é sempre voltada para surpreender os associados. “Tem seleção por região, países ou uvas, depende. Uma vez fizemos uma com vinhos de países que participaram da Segunda Guerra Mundial. Além dos rótulos da França, Alemanha e Itália, enviamos o livro Vinho & Guerra. Foi muito bacana”, detalha. Junto com as bebidas, os sócios GB recebem uma revista com informações técnicas, dicas e receitas. Eles têm ainda tratamento diferenciado em restaurantes parceiros e canais abertos com a GB por e-mail e WhatsApp para tirar dúvidas e trocar ideias diretamente com os consultores. “É um serviço de concierge mesmo, porque percebemos que, quanto mais a tecnologia evolui, mais as pessoas querem ser tratadas como indivíduos, querem se sentir parte”, diz Guto Jabour.

Foi justamente por se sentir parte de um projeto que a bibliotecária Isadora Freire se encantou com A Taba, que lhe entrega livros de leitor iniciante, leitor autônomo e leitor experiente – ou seja, três livros surpresa por mês. Ela conta que os lê com crianças e adolescentes da escola onde trabalha e em hospitais atendidos pela ONG Viva e Deixe Viver, da qual é membro. “Eu adoro tudo! Só chegam bons livros, porque foram selecionados por pessoas muito sérias e comprometidas com a qualidade. Além disso, eles enviam selos, postais, mapas de leitura... É muito bacana”, conta. Isadora acredita que a leitura se torna muito mais interessante quando é compartilhada, por isso ela é colaboradora do blog da Taba e costuma abrir as conversas nos fóruns. “Nem sempre eu consigo enxergar a magia, o tesouro do livro na primeira leitura. Mas depois de trocar ideias com pessoas de diferentes regiões do país que leram o mesmo livro naquele mesmo mês, as histórias ficam mais divertidas, interessantes.”

Isadora conta que, mesmo gostando muito de ler e comprar livros, não tinha o costume de adquirir três exemplares assim por mês. “Pensar em assinaturas de livros como pensamos em assinaturas de jornais ou revistas foi uma coisa nova para mim. É muito legal”, resume. A pedagoga Denise Guilherme, fundadora do clube, diz que A Taba nasceu da sua vontade de levar leitura de qualidade a lugares em que crianças tinham pouco acesso: “Hoje conseguimos entregar para qualquer cidade do Brasil, cidades que nem têm bibliotecas ou livrarias. É um trabalho dignificante”, conta. O caráter ideológico reflete na diversidade do material enviado aos assinantes, que mescla diferentes gêneros, como contos, poesia, humor, etc. “Somos um grupo de estudiosos de literatura infantil e juvenil, professores, pais, bibliotecários e contadores de histórias com um único objetivo: formar uma aldeia, um coletivo de pessoas que vive e experimenta leituras.”
A bibliotecária Isadora Freire se encantou com A Taba: 'Pensar em assinaturas de livros como pensamos em assinaturas de jornais ou revistas foi uma coisa nova para mim' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
A bibliotecária Isadora Freire se encantou com A Taba: "Pensar em assinaturas de livros como pensamos em assinaturas de jornais ou revistas foi uma coisa nova para mim"


A ideia de “aldeia” está por trás de outros negócios dessa modalidade de consumo. Hoje existem clubes de assinaturas de inúmeros produtos, desde bebidas, comidas, cosméticos a produtos sensuais ou rações para cães e gatos. São mais de mil empresas no Brasil, seguindo uma tendência observada em outros países, principalmente Estados Unidos. Rodrigo Dantas, CEO da Vindi, uma plataforma de gestão de pagamentos que viabiliza a operação dos clubes de assinaturas, diz que o crescimento desse mercado é estável, cerca de 10% ao mês. “O ramo de alimentação e bebidas é o que mais cresce, mas ainda há espaço para muitos outros novos negócios.” O executivo lembra que o comércio tradicional sofre mais as instabilidades financeiras dos consumidores, que pensam duas vezes antes de fazer uma compra num supermercado, por exemplo. “No caso de uma assinatura, como a cobrança é automática, eles pensam duas vezes se vão querer cancelar e parar de receber os produtos em casa.”

A exclusividade é outro fator que atrai nesse nicho de mercado. O casal Vanessa Cordeiro e Vinícius Madela, por exemplo, destaca o fato de eles receberem cervejas que não achariam para comprar se não fosse por meio do Ohmybeer. O clube brasiliense vem se destacando, principalmente entre o púbico jovem, por oferecer rótulos inéditos na cidade. “Resolvemos assinar depois de observar o serviço por um tempo e achar que valia a pena. Também comparamos os custos entre comprar as cervejas isoladamente e entrar para o clube. A diferença compensou, porque as cervejas já vêm selecionadas e chegam num pacote lindo, com um folheto explicativo colecionável”, detalha Vanessa. “É como um presente mensal para nós mesmos”, ri.
Vinícius Madela e Vanessa Cordeiro integram o clube de assinaturas de cerveja Ohmybeer: 'É como um presente mensal para nós mesmos', diz ela (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Vinícius Madela e Vanessa Cordeiro integram o clube de assinaturas de cerveja Ohmybeer: "É como um presente mensal para nós mesmos", diz ela


Quem é receptivo a experimentar novidades (e confia na curadoria) tende a se dar bem em clubes de assinaturas. Morando sozinho em Brasília há dois anos, o analista de tecnologia Guilherme Bermêo prefere pagar 37 reais por mês e receber cafés do Moka, clube de Curitiba, do que ir a supermercado ou lojas especializadas para procurar café de qualidade. “Eu já me acostumei a receber cafés frescos, de qualidade superior a outros que eu tomava. Acho interessante cada mês tomar a bebida de uma fazenda diferente, torras diferentes. Sou amador, mas sempre gostei”, diz.

Hugo Rocco, sócio e diretor de produção da Moka, conta que os mais de mil assinantes do clube são exigentes e, mesmo tendo mais de três anos, o negócio se inova constantemente. “As pessoas vão aprendendo novas formas de tomar café, de comprar produtos, e o mercado vai se adaptando”, acredita.
 (Diego Cagnato / Divulgação)


Os hábitos saudáveis dos brasilienses levaram a empresária Keli Ferreira a montar a Frugt e entregar frutas frescas, cortadas e higienizadas diariamente a seus clientes. Os assinantes têm a opção de receber seus lanches em casa ou no trabalho, na parte da manhã ou da tarde. “Muitos optam pelo pacote corporativo, que sai a 175 reais por mês para cada pessoa. Cerca de 8,75 reais por dia”, explica ela. As entregas, somente em dias úteis, contam com um cardápio que varia toda semana, com cerca de 15 frutas – e vai alterando conforme a safra e a disponibilidade dos fornecedores. “Temos uma nutricionista e uma engenheira de alimentos que ajudam a fazer a composição ideal para cada dia. Recebemos muitos retornos positivos, principalmente daqueles clientes que não têm muito tempo de lanchar. Imagina se eles conseguiriam comprar, lavar, cortar e embalar frutas para levar para o trabalho?
Keli Ferreira, da Frugt: os assinantes recebem frutas frescas, cortadas e higienizadas em casa ou no trabalho (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Keli Ferreira, da Frugt: os assinantes recebem frutas frescas, cortadas e higienizadas em casa ou no trabalho
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017