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SAÚDE | Alergia »

Um mal comum

Os dados confirmam uma percepção habitual: cerca de 35% da população brasileira tem algum tipo de alergia. Por que isso acontece e como lidar com o problema?

Camila Costa - Publicação:01/03/2016 09:10Atualização:01/03/2016 12:32
O nariz coça, a garganta irrita, o ouvido também reclama. Começam os espirros ou, nos piores casos, os inchaços da língua, dos olhos e da boca, ou as náuseas e vômitos. Não tem jeito. É alergia. O mal está longe de ser algo simples e aumenta consideravelmente em todo o planeta. A Organização Mundial da Saúde (OMS) colocou os mais variados tipos de alergia entre as doenças crônicas mais comuns do século. Podem vir desde o nascimento ou serem adquiridas ao longo da vida, no entanto, um fato é invariável: incomoda muito. Mexe com a qualidade de vida das pessoas e com a rotina diária de quem sofre com o problema ou de quem vive com um alérgico. Todo cuidado é pouco para evitar uma crise. E, ainda segundo a OMS, é preciso mesmo se preocupar: somente no Brasil, 35% da população sofre de algum tipo de alergia.

As mais comuns são as respiratórias, agravadas ainda mais no inverno, mas há também as de pele, alimentares, picadas de insetos e a medicamentos. Em 2015, a Organização Mundial da Alergia (WAO - sigla em inglês) divulgou relatório que prevê uma população de mais de 400 milhões de pessoas com asma em todo o planeta. Cerca de 30% e 40% da população mundial têm rinite alérgica, uma das manifestações mais frequentes da alergia. Para essas pessoas, ambientes fechados, úmidos, empoeirados e com cheiros muito fortes são apenas o começo de uma longa e chata crise de rinite alérgica, bronquite ou asma.

Uma geração de alérgicos: Beatriz
Simas Silva e o filho David sofrem o 
mesmo mal da avó materna dela (Andre Violatti/Esp. Encontro/D.A. Press.)
Uma geração de alérgicos: Beatriz
Simas Silva e o filho David sofrem o
mesmo mal da avó materna dela
A servidora pública Beatriz Simas Silva, de 37 anos, sabe muito bem o que é isso. Vem de uma família de alérgicos. A vó materna, ela e, agora, o filho, David, de 1 ano e meio. Uma geração toda. Quando criança, Beatriz morava com a avó em Petrópolis (RJ) e, por ser uma região úmida, logo vieram os sinais. Beatriz desenvolveu, além da alergia de pele, quadros de bronquite e rinite. “Eu cresci assim. Fiz tratamentos, natação, tomei todos os remédios, mas tenho de conviver com isso. Principalmente agora, com o David”, conta.

O garoto nasceu em Brasília. A cidade não é úmida, mas maltrata pela secura. O que sofreu a vida toda, Beatriz agora tenta minimizar para o filho. Ela diz que ter um pediatra de confiança a ajuda. “Escolhemos um especialista no assunto, com experiência. Em momentos de emergência nos falamos pelo celular. Fazemos o que é possível, mas fico triste, pois quem tem alergia sabe o sofrimento que é”, diz Beatriz.
 
 
 
Também muito comum, a alergia alimentar é uma reação adversa a alimentos e envolve um mecanismo imunológico. Os sintomas clínicos de alergias alimentares vão desde desconforto leve a reações graves ou com risco de morte. Hoje, é comum ver pessoas alertando garçons em bares e restaurantes. Em casos de alergias agudas a camarão, por exemplo, uma mesma colher usada para misturar um molho ou até mesmo o característico cheiro do alimento pode acender o alerta vermelho de uma crise.

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A International Food Safety Authorities Network (INFOSAN) – em português, Rede das Autoridades Internacionais em Segurança de Alimentos – foi categórica na última nota técnica publicada sobre o assunto: a prevalência de alergias alimentares foi estimada em aproximadamente 1% a 3% em adultos e 4 a 6% em crianças.

Especialista em alergia, o médico Alexandre Ayres afirma que a procura por tratamentos é maior hoje do que tempos atrás. Ou seja, mais pessoas estão desenvolvendo sintomas da doença. “Há um aumento de alérgicos, mas precisamos entender o porquê disso. O principal é a complexidade dos ambientes em que estamos vivendo. Está mais fácil as pessoas se sensibilizarem com novos compostos e a compostos antigos. Além do tempo, do clima, da poluição e da dificuldade de se alimentar de forma saudável”, observa. No entanto, segundo o especialista, é preciso estar atento a outro fator determinante na hora de saber-se alérgico: “O subdiagnóstico da doença também faz com que aumente o número de alérgicos. Tudo que não tem explicação lógica é determinado como tal. Mas não é porque coça, arde, traz vermelhidão que é alergia”, alerta.
 
 
Na lista das mais comuns estão as alergias a ovos e leite, muitas superadas ao longo da vida, principalmente pelas crianças. Maria Fernanda Capistrano Martins, de 4 anos, comprova. Após o nascimento, precisou entrar direto nas fórmulas alimentares porque a mãe, Luciana Capistrano, não amamentou. Tentou um tipo, dois, três, até oito fórmulas e todas eram rejeitadas pelo organismo. Maria Fernanda ficava com o intestino preso, sentia cólica e ainda tinha refluxo. Quando começaram as papinhas, ela rejeitou as proteínas. “Não podíamos dar nenhum tipo de carne, muito menos de soja. Com pouco mais de 1 ano, a médica liberou a carne de rã. Mesmo assim, era uma vez por semana”, recorda. Maria foi acompanhada por gastropediatras, médicos especializados em alergia e uma equipe do governo. Com dois anos, tudo mudou. Hoje quem a observa não imagina o sufoco que ela já passou. “Quando fizemos o exame e disseram que não tinha mais nada, foi uma alegria total. Tínhamos medo de que durasse a vida toda. Mas fomos introduzindo novos alimentos aos poucos, sempre observando, e hoje ela já come de tudo”, comemora a mãe.

Luciana Capistrano conta que a filha, Maria Fernanda, já teve alergia a inúmeros tipos de alimento, mas se curou com o tempo: 'Hoje ela come de tudo' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Luciana Capistrano conta que a filha, Maria Fernanda, já teve alergia a inúmeros tipos de alimento, mas se curou com o tempo: "Hoje ela come de tudo"

No caso de Maria, a solução veio com o tempo, mas é possível tentar reverter a alergia antes de ela resolver ir embora sozinha. Segundo Alexandre, existe um caminho de tratamento mais indicado a ser seguido. “O primeiro é a prevenção. Evitar a crise e, consequentemente, os sintomas e efeitos da doença. O próximo passo é tratar com medicamento, algum que ocupe o lugar da histamina, que é liberada no organismo no processo inflamatório”, aponta o médico. A longo prazo, existem os tratamentos com vacinas ou os protocolos para indução de tolerância. Nesse último, o paciente é internado por um período e exposto a pequenas e controladas doses do fator de alergia, em uma provocação ao organismo para criação de tolerância a determinado tipo de alimento. “A questão é que esse tratamento não serve para todos os tipos de alimentos”, explica.

O caso da servidora pública Liliane Cristina Santos, de 28 anos, é um dos mais complexos. A jovem acumula diferentes tipos de alergias: alimentar, de contato e a medicamentos. Todas desenvolvidas aos poucos, ao longo da vida. A descoberta veio depois de uma cirurgia para retirar os dentes sisos. Dipirona, remédio clássico para dor, foi uma bomba para Liliane. “Fiquei toda empolada, coçando, me sentindo mal”, lembra. Hoje, por segurança, carrega na bolsa uma lista com mais de 25 nomes de medicamentos proibidos.

Liliane Cristina Santos tem diferentes tipos de alergia: carrega na bolsa uma lista de
mais de 25  nomes de medicamentos proibidos
 (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Liliane Cristina Santos tem diferentes tipos de alergia: carrega na bolsa uma lista de
mais de 25 nomes de medicamentos proibidos

Na hora de alertar sobre a alergia de contato, a contagem é ainda maior: pelo menos 50 tipos. Desodorante, bijuteria e cosméticos em geral estão entre os principais. A poeira também irrita. “Agora já aprendi a lidar com o problema e sei exatamente o que posso usar. Então, ficou mais fácil”, explica Liliane. Para fechar o pacote, alimentos como leite e seus derivados, crustáceos e pimenta também são proibidos. “Não posso mesmo. Quando saio ou viajo, todos que estão comigo ajudam a ficar de olho”, comenta.

De acordo com estimativa da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), pelo menos 25% dos brasilienses têm algum tipo de alergia. O número é significativo e revela uma instrução maior da sociedade. Mais informadas, as pessoas buscam cada dia mais respostas para os acontecimentos do dia a dia, principalmente, os ligados à saúde.

'É notório o aumento dos quadros
alérgicos nos consultórios', diz o 
médico Luiz Antônio Rosas de Melo (DanielFerreira/CB/D.A Press)
"É notório o aumento dos quadros
alérgicos nos consultórios", diz o
médico Luiz Antônio Rosas de Melo
Segundo o presidente regional da Asbai, Luiz Antônio Rosas de Melo, Brasília tem uma população interessada em saber mais, no entanto, é notório o aumento dos quadros alérgicos nos consultórios. “Hoje as pessoas vivem quase que o tempo todo em ambientes fechados, o que acarreta uma diminuição de recebimento da luz do sol. Menos sol, menos vitamina D, que é muito eficaz para o sistema imunológico. Costumo brincar com amigos e dizer: quantas janelas vocês estão vendo no meu consultório? Eu mesmo respondo: nenhuma”, observa o médico.

Apesar disso, não adianta achar que todo problema é um tipo de alergia. Cada caso é um e para cada um deles o protocolo de atendimento é diferente.
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017