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ENTREVISTA | MARCIA TIBURI »

"O fascismo está em alta"

Uma filósofa pop, escritora de sucesso, que não foge dos temas mais polêmicos da atualidade. Marcia Tiburi vem a Brasília para lançar seu último livro e aqui fala de política, fascismo, redes sociais e defende que o feminismo é necessário

Karoline Diniz - Publicação:24/03/2016 16:52Atualização:24/03/2016 18:29
'O fascista de nossa época é indisponível para o diálogo, não aceita o modo de ser e de viver de outras pessoas' (Simone Marinho / Divulgação)
"O fascista de nossa época é indisponível para o diálogo, não aceita o modo de ser e de viver de outras pessoas"
Apesar de todo o avanço político, após a instalação da democracia no país, os brasileiros continuam deparando com figuras que se sustentam em posições autoritárias, ignorando a ética e os direitos de uma parcela da população. Não é difícil identificar a personalidade autoritária dos fascistas diariamente no noticiário. “Um tipo psicopolítico comum na sociedade fascista é o portador da personalidade autoritária, que se torna muito comum em períodos de intensificação do fascismo”, explica a filósofa Marcia Tiburi.

No próximo dia 30, ela vem à Fnac do Park Shopping lançar seu livro Como Conversar com um Fascista – Reflexões sobre o Cotidiano Autoritário Brasileiro (Record). Em entrevista exclusiva a Encontro Brasília, ela falou – com preocupação – sobre o aumento de personalidades fascistas no cenário político e cotidiano brasileiro. O livro já está em sua quinta edição e vai ser lançado em pelo menos 10 países da Europa. A autora diz que a sociedade atual devota amor por coisas, tecnologias, objetos e ódio a outros seres humanos. Ela propõe, na publicação, reflexões sobre o tema. O prefácio foi escrito pelo deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ).

Após participar de um dos programas de maior audiência do canal a cabo GNT, Marcia Tiburi ficou conhecida como uma filósofa pop e viaja o país dando palestras sobre assuntos contemporâneos. Sem medo de emitir opinião sobre temas polêmicos, a gaúcha fala sobre feminismo, redes sociais, aborto e a criação do primeiro partido feminista brasileiro, o #partidA.

ENCONTROPor que decidiu escrever sobre o fascismo?

MARCIA TIBURI: O fascismo sobrevive, infelizmente. O cenário político, tanto no âmbito institucional quanto na esfera cotidiana, apresenta sinais claros de fascistização. O fascismo aparece na forma de discursos e de práticas com alto grau de preconceito exercido e expresso por indivíduos e grupos contra outros indivíduos e grupos. Se analisarmos o fascismo tradicional da antiguidade clássica, ou mesmo o fascismo do século 20, veremos que se trata de um regime de pensamento em que está em jogo a negação de todas as formas de alteridade. Isso é o que deveria ter sido superado na democracia contemporânea, sustentada na promessa de direitos fundamentais assegurados. Um tipo psicopolítico comum na sociedade fascista é o portador da personalidade autoritária. Em nossa época, sob as condições da sociedade espetacular, em que os meios de comunicação e a publicidade dominam as regras da linguagem, o fascismo assumiu também essa característica. Relacionado aos meios de comunicação e à publicidade que configura o todo da sociedade, ele se torna uma espécie de ideologia hegemônica, a tendência dominante do pensamento e da linguagem em que a regra é a negação do outro. Escrevi esse livro para fazer pensar na presença do fascismo entre nós, em seu avanço, mas, sobretudo, preocupada em produzir uma reflexão ética, ativa, propositiva sobre a figura da personalidade autoritária que atua entre nós, que ocupa os espaços públicos e privados e que fala e age com um interesse: fazer seu discurso prevalecer para apagar o direito de existir de outras pessoas e grupos.

E: Atualmente, os fascistas estão mais presentes na vida política brasileira?
 
MT: A evolução da democracia no Brasil, depois de um longo período ditatorial, ainda não alcançou seu melhor momento. Nosso parlamento é herdeiro do coronelismo, das oligarquias, das elites. Temos um parlamento que se gesta no autoritarismo institucional de classes econômicas, raciais, de sexualidade e gênero dominantes. É fato que estão no poder pastores fundamentalistas em guerra contra os direitos das mulheres; sujeitos que foram ligados à ditadura em guerra contra a sexualidade; representantes do capitalismo em guerra contra direitos de trabalhadores; ruralistas em guerra declarada contra povos tradicionais. Tudo isso define a qualidade das decisões políticas em voga. Atualmente, o fascismo está em alta, porque os personagens políticos que alcançam o poder são representantes da lógica da negação do outro que serve ao sistema econômico, que é o capitalismo que conhecemos na própria pele.
 
E: E a população, de uma maneira geral, também está mais fascista?

MT: Sim. Do mesmo modo, a população é movida por afetos. O ódio atual é manipulado estrategicamente por quem administra o discurso. Assim como o amor também é manipulado em relação, por exemplo, às mercadorias. Já notou como as pessoas devotam amor por coisas, tecnologias, objetos e como devotam ódio a outros seres humanos? É um traço cultural atual, mas tem tudo a ver com a sociedade tecnológica e digital em que se perdem de vista princípios, tais como o respeito à pessoa humana, e a ideia de que seríamos fins, e não meios manipuláveis. Temos realmente de nos perguntar por que estamos vivendo esse estado de coisas tão parecido com o que se viveu em países europeus, como a Alemanha, até a catástrofe nazista dos anos 1940. Leis de exceção, tentativas de golpe, entreguismo político e econômico, corrupção: tudo isso que se estabelece no âmbito público tem seu correspondente na vida cotidiana, em que a corrupção é uma prática antiética comum.

E: Como está a repercussão do livro e por que a escolha do deputado Jean Willys para escrever o prefácio?
 
MT: O livro teve, até agora, cinco edições rodadas em poucos meses. Foi lançado em Portugal e será lançado até o fim do ano em outros 10 países europeus. Na Europa, a velha questão do fascismo também permanece. Mas o fascismo não é um sortilégio deles. Ele veio para o Brasil justamente via Europa. E Jean é uma das pessoas que mais atuam na luta pelos direitos fundamentais e pela democracia, sob chuvas de preconceito e maledicência. Em meio às minhas reflexões, eu me lembrei dele em muitos momentos. Foi uma gentileza de amigo um prefácio como esse.

O feminismo é um projeto ético-político 
que faz parte da vida de todas as mulheres 
 que perceberamsua condição e a partir daí a 
 politizaram' (Simone Marinho / Divulgação)
O feminismo é um projeto ético-político
que faz parte da vida de todas as mulheres
que perceberamsua condição e a partir daí a
politizaram"
E:
Como identificar um fascista contemporâneo?
 
MT: Os critérios da personalidade autoritária estudados pelo filósofo
Theodor Adorno podem nos ajudar. As características desse tipo de pessoa se adaptam ao contexto social, mas são bastante semelhantes nos diversos países. O fascista de nossa época é, nas palavras de Adorno, esclarecido e supersticioso, orgulhoso de ser um individualista, tem medo de não ser igual aos outros, é altamente inclinado a se submeter cegamente ao poder e à autoridade, ao etnocentrismo, conservadorismo, racismo, nacionalismo, tem muita preocupação com o comportamento sexual dos outros. O cinismo e o sadomasoquismo, bem como a paranoia como sistema de mundo fechado e explicativo, também fazem parte dessa personalidade. Ele é indisponível para o diálogo, não aceita o modo de ser e de viver de outras pessoas. A personalidade autoritária explica a vida dos outros a partir de ideias preconcebidas e não questionadas, sempre na intenção de apagar o outro, porque só assim ela mesma consegue existir.

E: Em relação a discussões sobre o corpo da mulher, e pensando que a questão não deve ser levada no sentido de eliminar crianças portadoras de deficiência, e sim um direito de escolha feminino, você acha que discutir aborto no contexto do zika vírus ajuda ou atrapalha?
 
MT: A questão do aborto se coloca mais uma vez. É uma questão complexa em uma sociedade baseada no machismo estrutural, na dominação masculina, na negação dos direitos e da vida das mulheres. Infelizmente, o senso comum obscurantista não compreende a questão dos direitos das mulheres. Certamente, o que está em jogo hoje é a legalização de uma prática muito comum entre mulheres de todos os credos e classes, mas as falácias dominam os discursos. No caso da questão do zika vírus, é evidente que o mesmo direito de abortar está em questão. Seja por qual motivo for, uma mulher deveria ter o direito ao seu desejo de ser ou não ser mãe. Ao mesmo tempo, é evidente que a legalização não pode estar ligada a um projeto biopolítico de eugenia, uma palavra que não deveria ser aplicada ao caso. O direito de abortar não configura um dever de abortar, como os discursos falaciosos querem fazer pensar.

E: O que mais emperra o avanço da discussão sobre aborto no país?
 
MT: O machismo estrutural aliado ao fundamentalismo religioso. A política brasileira é misógina em sua estrutura. A escassa representação de mulheres, e de feministas no poder, pessoas que sejam capazes de defender os diretos das mulheres, é também um efeito da cultura política machista e que impede o avanço no processo de legalização. Nunca é demais lembrar que o aborto é uma prática comum no Brasil. Mulheres de todas as classes, raças e credos o praticam. No entanto, a ilegalidade é o que vem sendo defendida e essa postura absurda tem vencido.

E: No Brasil, mulheres que optam pela “não maternidade” reclamam que são hostilizadas. Por que a sociedade tem dificuldade em lidar com isso?
 
MT: A maternidade é uma verdadeira ideologia no Brasil. A função dessa ideologia é aprisionar mulheres, controlá-las, promover uma visão de mundo única em que outros desejos, inclusive o de não ser mãe , não sejam possível.

E: O episódio da recente ocupação das escolas públicas em São Paulo foi protagonizado por mulheres. Imagens das meninas em ação viralizaram na internet. As hashtags sobre o tema empoderaram muitas outras garotas. Como você avalia esse episódio?
 
MT: Feministas de todas as gerações precisam saudar a chegada das novas gerações ao feminismo. Cada geração age dentro dos lastros culturais de suas épocas. Temos muito a aprender umas com as outras. Em nossa época, o feminismo jovem está intimamente ligado às redes sociais, que difundem ideias e expandem o espaço para o protagonismo das feministas. O movimento, no entanto, não começa e não termina nas redes. O feminismo é um projeto ético-político que faz parte da vida de muitas mulheres, de todas aquelas que perceberam sua condição e a partir daí a politizaram. O feminismo é concreto, é uma luta atuante nas diversas esferas da vida, no trabalho, no cotidiano. Hoje a internet ajuda a difundi-lo.

E: No mundo virtual, as interações costumam ser limitadas a um universo linear de pensamento, já que muitas publicações só aparecem para indivíduos que têm uma interação maior entre si. Nesse sentido, os debates nas redes sociais podem ser considerados reais?
 
MT: As redes sociais administram a linguagem e nos permitem determinados usos dela. As redes nos fazem funcionar dentro de regras de exposição e, assim, mudam também nosso método de pensamento. O Facebook, por exemplo, é uma máquina narcisista. Nele, pessoas em geral acreditam que encontraram um lugar social. Mas esse lugar é apenas virtual. É um lugar espectral. Alguns se tornaram protagonistas de causas por suas postagens, mas isso vale tanto para opiniões progressistas, críticas e interessantes quanto pelo mero alarde, pela gritaria conservadora. Em outras palavras, o Facebook serve à democracia e, ao mesmo tempo, ao autoritarismo. Diria que o Facebook se tornou uma prótese subjetiva nos tempos do vazio do pensamento, da emoção e da ação.

E: O que é o #partidA? Ele vai virar partido político?
MT: A #partidA é um movimento feminista que funciona como partido. Talvez ele venha a ser um partido um dia. Essa é uma questão que alicerça o movimento, cuja característica principal é a protagonização de feministas para a ocupação do governo.

E: O Partido da Mulher Brasileira, criado no ano passado, não conseguiu esse objetivo?
 
MT: PMB é atualmente representado no Congresso Nacional por 17 parlamentares – 16 deputados federais e 1 senador –, sendo apenas dois deles do sexo feminino. Apesar de seu nome, a proporção de mulheres na legenda, de 11,7%, consegue ser quase a mesma do Congresso Nacional, de 10,7%. Em princípio, parece uma contradição, pois estamos diante de um partido de homens. Talvez seja oportunismo político. Pode, de fato, se tratar do uso do significante mulher que está em voga na intenção de beneficiar-se de um modo oportunista da situação, da presença do feminismo na cultura política atual.

E: Você acha que a quebra do machismo em um ambiente tão masculino como o futebol é possível? Recentemente, o Atlético Mineiro foi acusado de sexismo ao colocar mulheres seminuas para desfilar os novos uniformes. As torcedoras responderam com uma carta de repúdio. Isso significa realmente que as empresas terão de olhar as mulheres de outra forma?
 
MT: Não é o primeiro exemplo nem o último de uma série de atos sexistas e machistas no âmbito dos esportes. Alegra-me ver que as próprias torcedoras se articulam contra isso. Essa articulação crítica a exigir direitos e respeito é o feminismo. Por meio desse exemplo, vemos como o feminismo é necessário.
 
 
 (Simone Marinho / Divulgação)
Marcia Tiburi

45 anos, casada
ORIGEM
Nasceu em Vacaria (RS) , mora entre São Paulo e Rio de Janeiro
FORMAÇÃO
Graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
CARREIRA
É escritora, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da revista Cult. Foi uma das apresentadoras do Saia Justa, programa televiso do canal GNT, durante seis temporadas (de 2005 a 2010). Publicou mais de 20 livros de filosofia, entre eles: As Mulheres e a Filosofia (Unisinos, 2002), Filosofia Cinza – a melancolia e o corpo nas dobras da escrita (Escritos, 2004); Olho de Vidro (Record 2011), Filosofia Pop (Bregantini, 2011) e Sociedade Fissurada (Record, 2013), Filosofia Prática, Ética, Vida Cotidiana, Vida Virtual (Record, 2014). Publicou também romances: Magnólia (2005), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009) e Era Meu Esse Rosto (Record, 2012). É autora ainda dos livros Diálogo/Desenho (2010), Diálogo/Dança (2011), Diálogo/Fotografia (2011) e Diálogo/Cinema (2013) e Diálogo/Educação (2014), todos publicados pela editora Senac-SP
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017