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Arte por toda parte

UnB lança catálogo de seu acervo e traduz de forma espontânea histórias interessantes da universidade e da cena artística do país ao longo das últimas cinco décadas

Dominique Lima - Redação Publicação:28/03/2016 08:21Atualização:28/03/2016 10:12
Ingrid Lorrayne é estudante do ensino médio e faz estágio na reitoria da Universidade de Brasília (UnB). Para a jovem, a universidade é toda ela uma grande obra de arte: “A UnB é linda e inspiradora”, diz. Não por acaso, Ingrid gosta de usar o tempo de descanso para sentar e apreciar a paisagem que se divide entre os prédios e o verde do campus. Nem todos os frequentadores do espaço, porém, desfrutam do privilégio que têm de poder ver de perto – e, em alguns casos, interagir com – obras de arte de enorme importância no cenário brasileiro. Para despertar tal curiosidade, uma política de reconhecimento do patrimônio começa a chamar a atenção.
 
A obra Olho o Verde, Vejo o Azul, de Jayme Kerber Golubov, na reitoria da UnB, é uma das que encantam a estudante Ingrid Lorrayne: 'A UnB é linda e inspiradora' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
A obra Olho o Verde, Vejo o Azul, de Jayme Kerber Golubov, na reitoria da UnB, é uma das que encantam a estudante Ingrid Lorrayne: "A UnB é linda e inspiradora"
 
“Este é um acervo de obras heterogêneas, pelo qual é possível retraçar, de modo intermitente, as linhas mestras da história do modernismo e da contemporaneidade brasileiros.” Assim a professora Grace Maria Machado de Freitas define a obra Acervo de Arte - Universidade de Brasília. O livro, lançado pela Editora UnB, não foi amplamente divulgado e não está à venda (como mereceria), mas é de grande representatividade para todos os brasilienses e pode ser consultado na Biblioteca Central: trata-se de um catálogo das cerca de mil obras de arte pertencentes à universidade. O material representa a fase inicial de um projeto para sistematizar o acervo e estruturar o processo de aquisição futura de peças.

Espalhadas pelo campus ou guardadas por uma das muitas instituições que compõem a UnB, as obras de arte são quase todas fruto de doações de artistas e outros órgãos públicos. A formação passiva do acervo significa certa irregularidade no coletivo de trabalhos, mas também traduz de forma espontânea as histórias da universidade, de seus artistas, de Brasília, do país ao longo das últimas cinco décadas.

A intimidade com o modernismo, o acesso especial que a capital proporciona a figuras internacionais tanto quanto a artistas de todas as regiões do Brasil, o espaço para os locais. Todas essas características são visíveis por meio do acervo, que conta com nomes como Tarsila do Amaral, Lívio Abramo, Fayga Ostrower, Maciej Babinski, Marília Rodrigues, Dionísio Del Santo, Stella Maris Bertinazzo, Milan Dusek, Luiz Gallina Neto, entre muitos outros.

Disponíveis para visitação estão também muitas esculturas espalhadas pelo campus da universidade, como India Bartira, de Vitor Brecheret, localizada em frente à Faculdade de Educação; Olho o Verde, Vejo o Azul, de Jayme Kerber Golubov, instalada na escada do prédio da reitoria; e Minerva, de Alfredo Ceschiatti, que fica no hall de entrada da Biblioteca Central.

Aberto a visitação: Minerva, escultura em bronze de 1963, de Alfredo Ceschiatti, faz parte do acervo da Biblioteca Central da Universidade de Brasília (Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Aberto a visitação: Minerva, escultura em bronze de 1963, de Alfredo Ceschiatti, faz parte do acervo da Biblioteca Central da Universidade de Brasília

Muitas outras peças, entretanto, não estão atualmente disponíveis para o público. Trazer visibilidade ao acervo é um dos próximos passos do trabalho da comissão, que não acabou com o lançamento do livro. “Há muita coisa que não tem sido vista, especialmente no seguimento de obras raras. Esta é uma etapa do trabalho que é mais difícil porque envolve demanda de recursos. Mas é muito importante porque, apesar de ser uma universidade aberta e franca, ainda falta à UnB dar mais visibilidade a essa produção, fazê-la circular”, diz o professor Emerson Dionísio Gomes de Oliveira, do Instituto de Artes da UnB, especialista em acervos e coleções, e membro da comissão.

Além da função de transparência, o catálogo tornou possível o trabalho de verificação das condições de armazenamento de cada uma das peças. Processo esse imprescindível para a responsabilização da UnB por aquilo que muitas vezes lhe foi doado por artistas ou seus familiares com o intuito de eternizar cada um desses objetos. Outro aspecto do trabalho que foi bastante enriquecedor para a comunidade acadêmica é a possibilidade de levantar a história de cada obra, seu DNA, sua trajetória até a chegada à instituição. As narrativas em si são, também, um patrimônio.


Nas palavras de Grace Maria Machado de Freitas: “Tornar este acervo público, por meio de mostras diversas, para promover sua visibilidade, significa torná-lo vivo”. Outro passo importantíssimo é usar todo o aprendizado que a visão geral sobre o acervo proporciona para traçar, com ajuda de especialistas diversos, uma política de aquisição estruturada do acervo da universidade. Como explica a atual presidente da comissão, professora do Instituto de Artes da UnB, Vera Pugliese, qualquer acervo público, feito ele de doações, traz em si irregularidades, por ser uma política de aquisição passiva. O objetivo agora é discutir uma política ativa, consequente, coerente, representativa. “Esse projeto tem o intuito, acima de tudo, de chamar a atenção para a arte, os artistas e seu trabalho”, explica Vera Pugliese.

Essa transformação faz parte de um movimento nacional iniciado em grande parte há 15 anos para sistematização e visibilidade das obras de arte amparadas por universidades federais. Também faz parte da intenção de publicar o acervo atender a comunidade, refletindo a ideia de portas abertas, ao tornar a arte da UnB acessível. Outro motivo para a publicação é a possibilidade de encontrar pessoas e histórias relacionadas às obras que ainda estão perdidas. “Por isso incluímos no livro espaço para convidar os leitores a incluir e até corrigir os dados que obtivemos. Afinal, é impossível conseguir, numa primeira edição, a obra total e fechada que representa o acervo. O livro se coloca como canal de diálogo com as comunidades científica e local”, diz a professora.

A notícia é boa para alunos que consideram que o potencial do acervo pode ser mais bem explorado, como os estudantes de pedagogia Helena Rosa e Flaésio P. da Silva. Para eles, há pouca divulgação de tudo que a UnB tem disponível para o público. “As obras têm potencial para incentivar o convívio das pessoas com a arte”, diz Flaésio.
 
Os estudantes de pedagogia Helena Rosa e Flaésio da Silva posam em frente a obra India Bartira, do artista Victor Brecheret: para eles, há pouca divulgação do que a UnB tem disponível  (Raimundo Sampaio/Encontr/D.A Press)
Os estudantes de pedagogia Helena Rosa e Flaésio da Silva posam em frente a obra India Bartira, do artista Victor Brecheret: para eles, há pouca divulgação do que a UnB tem disponível
 
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017