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PERFIL | EDUCAÇÃO »

Capacidade de se reinventar

A história da Thomas Jefferson confunde-se, em vários aspectos, com a de Brasília: desenvolvimento aliado ao reconhecimento e à modernização

Camila Costa - Publicação:28/03/2016 13:41Atualização:28/03/2016 14:55
Bianca Macêdo Calvagni é ex-aluna e sempre gostou das aulas, por isso vai voltar a estudar na Thomas: 'Lembro que eu me sentia em outro país, era tudo em inglês, e os professores eram nossos amigos' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Bianca Macêdo Calvagni é ex-aluna e sempre gostou das aulas, por isso vai voltar a estudar na Thomas: "Lembro que eu me sentia em outro país, era tudo em inglês, e os professores eram nossos amigos"
Quando a história de vida de diversas pessoas se funde com a de um ambiente ou de um determinado lugar, pronto. Parece mágica. Tudo ganha mais sentido. Um gostinho de coisa boa e a sensação de saudade se transforma em algo eterno. É como se lembrar do cheiro do bolo feito pela avó.

Há 53 anos, erguia-se a primeira Casa Thomas Jefferson da capital federal, numa cidade também recém-nascida. Juntas, elas se firmaram, cresceram e evoluíram. E, nessa caminhada, tiveram sempre pessoas a quem dar a mão e dividir suas trajetórias. Hoje, com seis unidades no Distrito Federal, a escola construiu mais do que uma cultura americana em Brasília. Formou amigos e uma verdadeira família.

Talvez o segredo para isso tenha sido a capacidade de se reinventar. A Thomas plantou a primeira semente em abril de 1963. De lá para cá, muita coisa aconteceu, foi criada e se desenvolveu na escola, que conquistou, inclusive, reconhecimento no país pelo ensino de excelência. E diferenciado. A Thomas criou um método de ensino capaz de se autorrefazer e modernizar, por meio dos próprios protagonistas dessa história: diretores, professores e alunos. “Brasília foi inaugurada em 1960 e três anos depois surgiu nossa primeira filial. A capital começava a aparecer e a Thomas também foi crescendo, aos poucos. Hoje, temos seis unidades, estamos presentes em várias escolas privadas, somos parceiros de órgãos públicos, temos cursos on-line.Ou seja, uma nova visão – o que é muito importante para se manter durante tanto tempo”, explica a diretora executiva, Lucia Santos.
A Thomas proporciona um aprendizado amplo: eventos relacionados às culturas norte-americana e brasileira são mesclados a várias atividades extracurriculares da escola (Bruno Pimentel/Encontro/D.A Press)
A Thomas proporciona um aprendizado amplo: eventos relacionados às culturas norte-americana e brasileira são mesclados a várias atividades extracurriculares da escola
A Casa Thomas Jefferson é bastante voltada para esta necessidade. Uma das mais novas criações é a metodologia Makerspace, um jeito de estudar compartilhando ideias, programas e recursos relacionados à cultura maker para inspirar e motivar a comunidade a fazer, criar e prototipar. O projeto é uma parceria com a Embaixada dos Estados Unidos e o espaço que abrigará essa proposta está sendo construído na filial da Asa Norte. No entanto, segundo Lucia, a atividade pode ser levada a qualquer lugar ou ambiente, porque a cultura maker não precisa de espaço. O mais importante é o conceito: “Estamos oferecendo um espaço para ter impressora 3D, cortadora a laser, circuitos de aprendizado, com espaço para criação e descoberta. Mas não é nada sofisticado. É possível pegar um brinquedo que seria jogado fora, por exemplo, e criar um robô. São novas formas de utilizar. Isso é inovador e essa é a característica da escola. Apesar de mais de 50 anos, continuamos a oferecer aulas diferentes”, observa a diretora.

Parte da fórmula do sucesso está também nas parcerias. A Thomas não trabalha sozinha. Nestes 53 anos, sempre buscou aliados para levar o inglês ao maior número de pessoas. Um dos mais importantes e bonitos projetos, nesse sentido, é o das bolsas de estudo, que oferece a oportunidade do aprendizado a alunos de escolas públicas e famílias carentes. Por meio do Program English Access, desde 2013, 55 bolsas integrais foram destinadas a alunos da rede pública de ensino médio do Recanto das Emas. São alunos que estão há dois anos mergulhados na cultura norte-americana. Um outro projeto, em parceria com a Secretaria de Educação do Distrito Federal, traz o Public School Teachers Development Course, com duração de dois semestres. Com ele, a Thomas investe nos educadores, com oportunidade de aperfeiçoamento do inglês. É lançado um edital e, após a realização das inscrições, é feito um processo de avaliação dos docentes que vão participar, com entrevista e uma prova escrita.

O estudante Dângelo Saraiva de Souza, de 21 anos, é um dos alunos do programa de bolsa da Thomas. Mais do que uma oportunidade de aprender outra língua, ele conta que, por causa do inglês, conquistou uma vaga de emprego. Ele está na escola há cinco anos e se formará neste semestre. “O idioma sempre me ajudou muito. Recentemente, participei de um processo seletivo em que a primeira fase era toda em inglês. E fui aprovado. Agora trabalho na Embaixada de Taiwan”, conta. Dângelo estudava em escola pública do Lago Norte quando a equipe da Thomas foi até a unidade conhecer os projetos que eram desenvolvidos. “A bolsa foi fundamental para eu ir crescendo na vida, porque não teria condições de estudar em uma escola como esta por conta própria”, diz.
 
Dângelo Saraiva começou a estudar inglês como bolsista da Thomas e reconhece o quanto foi engrandecedor: 'Participei de um processo seletivo em que a primeira fase era toda em inglês. E fui aprovado' (André Violatti/Encontro/D.A Press)
Dângelo Saraiva começou a estudar inglês como bolsista da Thomas e reconhece o quanto foi engrandecedor: "Participei de um processo seletivo em que a primeira fase era toda em inglês. E fui aprovado"
Bem no estilo do “inglês como ele deve ser”, a Thomas trabalha de forma integrada. Tem a cultura como uma das aliadas. Conseguiu criar nesses mais de 50 anos uma tradição cultural: música, teatro e cinema. O histórico registra, por exemplo, parceria com a Academia Brasiliense de Letras, lançamentos de livros, em português e inglês, a construção de uma galeria de arte na filial da Asa Sul e um espaço destinado a exposições, na Thomas do Lago Sul. Há, inclusive, um departamento cultural aberto ao público. Em um dos eventos, a escola construiu uma parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O resultado foi uma exposição sobre a restauração da igreja da Matriz Santana, em Goiás Velho.

'Inovação é uma característica
da escola. Apesar de mais de 
50 anos, continuamos a oferecer
aulas diferentes', diz diretora 
executiva da Thomas Jefferson,
Lucia Santos (Bruno Pimentel/Encontro/D.A Press)
"Inovação é uma característica
da escola. Apesar de mais de
50 anos, continuamos a oferecer
aulas diferentes", diz diretora
executiva da Thomas Jefferson,
Lucia Santos
A ideia da Thomas é proporcionar um aprendizado amplo. Eventos relacionados às culturas norte-americana e brasileira são mesclados a atividades extracurriculares. Datas e comemorações específicas são sempre trabalhadas. Uma das festas mais esperadas é a de Halloween. Em 2012, mais de 1,8 mil alunos se fantasiaram para o baile no Clube do Exército. Outra data igualmente popular é o Thanksgiving Day. “Queremos criar comunidade, compartilhamento e, claro, aprendizado. Que todos possam se sentir bem aqui”, resume Lucia Santos.

A tradicional biblioteca também ganha novos ares na Thomas Jefferson. São mais do que ambientes silenciosos com muitos livros à disposição. O forte acervo é da cultura americana, no entanto, não faltam volumes da literatura de outros países de língua inglesa e de edições traduzidas. Há obras de Shakespeare, Tennessee Williams, assim como a coleção completa de Harry Potter. Tem aparelhos para ler livros on-line, o aluno pode acessar computadores com os conteúdos das aulas, brincar em mesas com jogos de inteligência, com óculos 3D, além de sentar e conversar com amigos, em um círculo de descobertas. Tudo para aprender o inglês de forma interessante.
 

Na filosofia da Thomas, o aluno é o centro, a peça fundamental na troca de aprendizado. E tanta importância não poderia resultar em outra coisa que não uma relação de amor deles com a escola. A maioria entra quando criança e constrói uma história com a escola. Bianca Macêdo Calvagni, de 18 anos, é testemunha disso. Entrou na Thomas com 8 anos e por lá ficou por, pelo menos, oito anos da sua vida. Agora, prepara-se para voltar para onde aprendeu muito mais do que inglês: “Eu lembro. Era bem novinha e adorava as aulas. Eu me sentia em outro país de verdade. Era tudo em inglês, tinha muitas brincadeiras e os professores eram nossos amigos”, conta a estudante de políticas públicas da Universidade de Brasília (UnB). Em uma das tantas recordações, ela conta que uma professora promoveu uma videoconferência com amigos dos Estados Unidos. “Nas conversas, eles mostravam como viviam lá, era muito agradável”, lembra. Hoje, Bianca quer reforçar a conversação: “Estive lá quase que a minha toda. É muito bom voltar”, conta.

O DJ e produtor musical Rafael Amaral Naves, de 31 anos, fez, ao todo, 11 anos de Thomas Jefferson. Com o inglês conquistado na escola, já rodou muito por aí. Morou um ano em Portugal, viaja com frequência para França, Alemanha, já visitou a Austrália e foi o inglês, língua universal, que o permitiu se comunicar em todos esses lugares. Rafael Ops, como é conhecido, deve à língua estrangeira – e ao talento, claro – o grande avanço do seu trabalho. “Somamos 12 turnês internacionais. Vendi meu trabalho, tudo em inglês. Hoje, tudo que faço é bilíngue, inclusive meus textos nas redes sociais. Aprender a língua foi mais do que fundamental”, diz. Com as lembranças do tempo de Thomas, Rafael traz muita saudade. “Era um ambiente bom de estar. Jogávamos beisebol, íamos para o parque, tínhamos aqueles feriados americanos, ou seja, vivemos tudo da cultura”, recorda.
O produtor musical Rafael Amaral Naves, o Rafael Ops, tem a escola como referência: 'Hoje, tudo que faço é bilíngue, inclusive meus textos nas redes sociais', conta (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
O produtor musical Rafael Amaral Naves, o Rafael Ops, tem a escola como referência: "Hoje, tudo que faço é bilíngue, inclusive meus textos nas redes sociais", conta
O alicerce para essa relação está no quadro de professores. Um dos maiores focos é investir nos mestres. Além da busca constante pela qualificação, há a preocupação com a reciclagem, que é feita constantemente. E, mais do que isso, investimento para construir mais do que educadores. “Dividimos histórias, problemas, alegrias, a Thomas é mais do que uma escola de inglês. Somos uma família”, avalia Frank Couto, de 41 anos, professor da Thomas há 22 anos. Como muitos dos funcionários da casa, Frank começou como estudante, com 12 anos de idade. Lá ficou e construiu um amor pela língua e pela escola. “Criamos um vínculo de verdade. Já tivemos um aluno que estava com problemas e, quando fomos ver, o pai tinha falecido. Ele estava revoltado. Minha figura masculina ajudou a mudar esse cenário. Nós ajudamos e somos ajudados. Fazemos parte da vida deles e eles, da nossa”, afirma o professor.
 
Frank Couto começou como aluno e há 22 anos é professor na Thomas:
'Aqui a equipe faz parte da vida dos alunos e eles, da nossa' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Frank Couto começou como aluno e há 22 anos é professor na Thomas: "Aqui a equipe faz parte da vida dos alunos e eles, da nossa"
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017