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CULTURA | Música »

O resistente chorinho da capital

Novas e antigas gerações confirmam o talento nato de músicos da cidade e mostram a capacidade de renovação do gênero musical

Isabella de Andrade - Publicação:29/03/2016 12:33Atualização:29/03/2016 15:37
Mãe e filho, a flautista Gabriela e o bandolinista Tiago Tunes clamam 
por mais espaços para tocar na cidade: 'O Clube do Choro não é suficiente para a quantidade de músicos chorões de Brasília', diz ela (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Mãe e filho, a flautista Gabriela e o bandolinista Tiago Tunes clamam por mais espaços para tocar na cidade: "O Clube do Choro não é suficiente para a quantidade de músicos chorões de Brasília", diz ela
Nos últimos anos, Brasília mostrou sua importância para a história do choro no país. Foi palco de diversos shows e encontros entre importantes nomes do gênero e tem exportado talentos para outros lugares. Atualmente, no entanto, a capital que conquistou a fama de pulsar culturalmente e de formar excelentes músicos enfrenta uma redução de espaços para apresentação e difusão do som produzido por artistas locais. Mesmo assim, muitos chorões e lugares tradicionalmente conhecidos como palco musical resistem, mostrando o quanto o gênero ainda pode se expandir e se renovar, revivendo o momento de maior prestígio do choro brasiliense.

Movimentos como o Choro da Resistência se firmam como importante projeto de luta para não deixar que a tradição do chorinho perca o seu espaço. Enquanto isso, lugares como o Clube do Choro, Feitiço Mineiro, Casarão e Mercado Municipal garantem a permanência da força do gênero na cidade. Artistas brasilienses dedicados ao estilo se esforçam para que o chorinho possa chegar às novas gerações com a mesma força e paixão que conquista o público de agora.
 
A flautista Gabriela Tunes toca há 11 anos. Ela conta que costumava se apresentar com o grupo Época de Hoje no Balaio Café, assim como na roda de choro do Tartaruga Lanches. Mas ambos foram recentemente fechados em decorrência da lei do silêncio. “Acho que o gênero não é mais incentivado na capital, vários espaços encerraram suas atividades. Temos o Clube do Choro, que é importantíssimo, mas não suficiente para a quantidade de músicos de Brasília”, diz. A musicista destaca que o choro tem conseguido permanecer na cidade em função do esforço dos profissionais e amantes do gênero. Segundo ela, a qualidade dos artistas locais é muito grande e artistas de outras cidades se impressionam com o alto nível dos brasilienses.

Outra flautista, Thanise Silva, conta que também é apaixonada pelo gênero. Integrante do grupo Choro pra Cinco, ela diz que se sente feliz ao perceber que há uma nova geração de músicos que se interessam pelo estilo e podem trocar experiências com as gerações anteriores. Ela mesma já teve a oportunidade de tocar com quase todos os instrumentistas da cidade. Thanise destaca que há alguns anos era possível conferir uma extensa programação semanal de chorões nos bares da cidade, no entanto, os trabalhos diminuíram após esbarrarem na inflexibilidade das leis. “Os projetos de resistência mostram que os musicistas devem continuar a se articular da melhor maneira que sabem fazer: criando e realizando música”, afirma.
Integrante do grupo Choro pra Cinco, Thanise Silva comemora o fato de haver uma nova geração de músicos que se interessam pelo estilo e podem trocar experiências com as gerações anteriores (Divulgação)
Integrante do grupo Choro pra Cinco, Thanise Silva comemora o fato de haver uma nova geração de músicos que se interessam pelo estilo e podem trocar experiências com as gerações anteriores
Representante da atual geração de chorões brasilienses, Luiz Ungareli toca percussão e destaca a importância da relação entre os artistas locais, que movimentam a cena cultural e ajudam a propagar o gênero. Ele se mostra otimista com a continuação do legado musical da cidade: “No Clube do Choro, os músicos se encontram e ali começa a energia, a vontade de formar novos grupos. A empolgação cresce a cada roda e então não tem mais volta. Para mim, um dos pontos mais positivos do choro é que os músicos estão sempre tentando permanecer reunidos e tocando juntos”.

O jovem Tiago Tunes, filho de Gabriela, tem apenas 18 anos e toca bandolim há 11. O interesse pelo instrumento surgiu com o convívio nas rodas de choro da cidade. “Essa vontade de tocar e de fazer música com outras pessoas me levou ao choro, que estava ali bem próximo, e me encantou com sua sincera beleza. Aprendi muito em Brasília com amigos e professores generosos. Continuo a aprender muito com todos eles”, declara o musicista, que atualmente faz parte do Mauna Trio.
A produção do choro brasiliense é uma das mais fortes no país: encontros entre amigos músicos são comuns em diferentes espaços da cidade (Bruno Pimentel/Esp. Encontro/DA Press)
A produção do choro brasiliense é uma das mais fortes no país: encontros entre amigos músicos são comuns em diferentes espaços da cidade
O jovem destaca que a produção do choro brasiliense é uma das mais fortes no país, mas não tem estrutura suficiente para que a população tenha acesso à música autoral que nasce aqui. Entretanto, ele acredita que a Escola de Música e o Clube do Choro auxiliam no processo desse desenvolvimento musical.

Em relação aos músicos e instrumentistas da cidade que inspiram a carreira do jovem chorão, Tiago conta que a lista de admiração é grande. Entre eles estão Fernando César (7 cordas), Serginho Morais (flauta), Vinícius Magalhães (7 cordas), Pedro Vasconcellos (cavaquinho), Márcio Marinho (cavaquinho 5 cordas), Valerinho Xavier (pandeiro e cavaquinho), Dudu 7 Cordas, Alencar 7 Cordas, Tonho do Pandeiro, Léo Benon (cavaquinho), Bruno Patrício (sax), Júnior Ferreira (acordeom), Henrique Neto (violão) e Victor Angeleas (bandolim). “Tem também os que já moraram aqui em Brasília e deixaram grande inspiração para nós, como o Hamilton de Holanda, Rogério Caetano, Daniel Santiago e o André Vasconcellos.”

Presidente do Clube do Choro de Brasília desde 1993, Henrique Lima Santos Filho, o Reco do Bandolim, é baiano de Salvador e chegou a Brasília em 1963. Ele até participou de bandas de rock na adolescência, mas, quando descobriu o bandolim e os discos do mestre Jacob Bitencourt, apaixonou-se pelo choro. Além de bandolinista, Reco é compositor, jornalista, radialista, produtor cultural e um dos nomes mais reconhecidos do chorinho brasiliense. O grupo em que toca, Choro Livre, tem três discos gravados. Tendo se consagrado como um importante nome da cultura no Distrito Federal, o bandolinista recebeu a medalha de Honra ao Mérito Cultural em 2007, mesmo ano em que o Clube do Choro foi elevado à condição de patrimônio imaterial de Brasília.
Reco do Bandolim, presidente do Clube do Choro de Brasília há mais de 20 anos: elogio à quantidade de bons músicos brasilienses (Minervino Junior / Encontro / DA Press)
Reco do Bandolim, presidente do Clube do Choro de Brasília há mais de 20 anos: elogio à quantidade de bons músicos brasilienses
Ciente das dificuldades enfrentadas atualmente pela arte na capital, Reco afirma que a música, com destaque para o choro, é uma manifestação cultural muito antiga, enraizada na alma do brasileiro, e, sendo assim, sobrevive às adversidades por ser “algo que vem de dentro das pessoas”. Reco se diz otimista com a quantidade de bons músicos brasilienses formados pela escola Raphael Rabello e com a prática possibilitada pelo Clube do Choro. Ele diz que a escola foi criada para possibilitar que chorões que queriam aprender e se dedicar mais ao estilo tivessem o seu espaço garantido na cidade.
'Um dos pontos mais positivos do choro é que os músicos estão sempre tentando permanecer tocando juntos', diz Luiz Ungareli (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
"Um dos pontos mais positivos do choro é que os músicos estão sempre tentando permanecer tocando juntos", diz Luiz Ungareli
“Quando a escola começou, tínhamos oito alunos, hoje são 1,2 mil. Temos de reservar um espaço maior para essas manifestações artísticas de qualidade, sem deixar que o público fique restrito a determinados estilos musicais que são mais disseminados atualmente. O que me deixa feliz é saber que meninos como o Tiago Tunes, que é genial, um bandolinista maravilhoso, fazem parte dessa nova geração que resiste e vai levar o choro adiante”, declara.
 (Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017