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MODA | SERVIÇOS »

Um luxo de serviço

O aluguel de bolsas e roupas caras, e até mesmo joias, é uma tendência que tem tudo para se popularizar - seja pela praticidade seja pela busca de um consumo mais consciente

Juliana Braga - Publicação:31/03/2016 08:45Atualização:31/03/2016 10:34
A  ocasião pedia um traje especial. Luiza Jacobsen estava se formando em direito e queria para o baile um look matador, que fosse marcante e representasse o seu estilo. Começou a pesquisar e se assustou com os preços. Até que descobriu uma alternativa viável, econômica e elegante: o aluguel de luxo.
 
Luiza Jacobsen começou a alugar roupas de luxo na sua formatura: com o valor de um único vestido, alugaria três ou quatro, e com a vantagem de não ter repetição (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Luiza Jacobsen começou a alugar roupas de luxo na sua formatura: com o valor de um único vestido, alugaria três ou quatro, e com a vantagem de não ter repetição
 
Ela colocou na ponta do lápis e constatou que, com o valor de um único vestido, seria possível alugar três ou quatro, e com a vantagem de não ter repetição. “Vestido, todo mundo lembra. Mesmo quem não vai à festa sabe qual foi a roupa que você usou por meio das redes sociais”, diz. Foi quando decidiu investir em um bom sapato neutro e alugou um Lethícia Bronstein, uma das estilistas queridinhas das atrizes globais.

Desde sua formatura, um ano atrás, Luiza não comprou mais vestidos de festa. Já alugou peças para um casamento e outras duas formaturas de amigos. Garante que arrasou. “Nessas duas vezes, chegaram a me perguntar se eu também era formanda, porque é quem normalmente investe mais na aparência”, conta.

O aluguel de artigos de luxo tem se tornado uma tendência no país e já conquistou as brasilienses. Comum no exterior, essa modalidade de locação ganha adeptos não apenas pelos trocados não gastos, mas também pelo consumo consciente. Alugando, em vez de comprar, são menos peças circulando e, consequentemente, menos lixo descartado depois.

Uma das pioneiras no mercado de aluguel
de luxo pela internet, a empresária Isabel 
Braga, dona da Bobags, começou com 
ideia de ampliar a vida útil de bolsas 
paradas em closets (Denise Leão/Divulgação)
Uma das pioneiras no mercado de aluguel
de luxo pela internet, a empresária Isabel
Braga, dona da Bobags, começou com
ideia de ampliar a vida útil de bolsas
paradas em closets
Uma das pioneiras nesse mercado é a empresária Isabel Braga, dona da marca Bobags. Quando ela lançou a versão beta do seu empreendimento, em 2009, a expressão economia colaborativa nem existia ainda, mas ela acreditava na ideia de ampliar a vida útil de bolsas paradas nos closets. “O conceito era apenas uma aposta”, conta.

Isabel foi atrás de se profissionalizar, passou uma temporada de um ano e meio no Vale do Silício, nos Estados Unidos, e, quando voltou, expandiu o seu negócio. Aprendeu por lá que momentos de crise econômica são ótimos para esse mercado, mas que, independentemente da época, essa é uma tendência que veio para ficar. De acordo com artigo recente publicado pela McKinsey, firma de consultoria a empresas, a economia colaborativa vai movimentar mais de 300 bilhões de dólares em 2025.

Como foi uma das precursoras, ela teve de trabalhar na criação de uma cultura, à época, inexistente no Brasil. “Lançar um hábito novo nunca é fácil. Foi e é um trabalho muito intenso de entender o mercado, criar uma marca com valores e, principalmente, criar um costume. No Brasil, ninguém entrava na internet para alugar uma peça de luxo antes da chegada da Bobags”, lembra.

Hoje, ela expandiu a empresa e já tem cerca de 2 mil clientes. O negócio, que começou com 10 peças, já conta com um acervo de 500, entre Chanel, Gucci, Prada, Balenciaga, Louis Vuitton.

A empresária identifica três perfis principais de clientes. O primeiro é o da mulher que não tem acesso ao luxo, seja por questões financeiras seja por dificuldade de encontrar as lojas que vendem essas marcas. Há aquelas também que têm uma festa e precisam de uma bolsa para essa ocasião específica, ou então querem só fazer um “test-drive” antes de abrir a carteira para adquirir uma peça mais cara. Por fim, há aquelas que poderiam comprar, mas que não querem. São adeptas do consumo consciente: preferem não acumular, não têm espaço, ou simplesmente são práticas e abertas a novas ideias.

Em Brasília, a moda também já está chegando com força nos negócios. Yasmin Alkmin decidiu abrir a própria loja e optou pela inovação do aluguel de luxo. Ela e sua sócia, Luísa Portugal, apostam em grandes designers brasileiros, aqueles que assinam os modelitos usados por famosas atrizes e agradam às consumidoras exigentes da capital. Um dos vestidos mais procurados, a estrela da loja, é um Lethicia Bronstein usado por Marina Ruy Barbosa.

Em atividade há pouco mais de um ano na 213 Norte, a Mebelisca já dobrou seu acervo. Por mês, são alugadas pelo menos 30 peças, chegando a 50 nos meses com maior rotatividade. Yasmin conta, inclusive, que não sentiu impactos da crise no negócio. Por ser uma proposta alternativa, acaba ganhando mais clientes neste momento. É quando muitas mulheres que normalmente desembolsavam uma graninha para adquirir um vestido passam a economizar, optando pelo aluguel. “É o closet dos sonhos. Você pode alugar um vestido de 6 mil reais, que saiu na Elke ou na Vogue sem ter de gastar isso. A proposta é a cliente não passar sufoco”, conta.
 
Opção por inovar com o aluguel de luxo: Yasmin Alkmin, sócia da loja Mebelisca, está satisfeita com os resultados da empresa (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Opção por inovar com o aluguel de luxo: Yasmin Alkmin, sócia da loja Mebelisca, está satisfeita com os resultados da empresa
 
Segundo a empresária, a procura maior é por parte de mulheres entre 27 e 35 anos. “É uma mulher vaidosa, que se preocupa em aproveitar a ocasião para se destacar”, descreve. Mas a modalidade de aluguel atrai diferentes perfis. De acordo com Yasmin, a loja é frequentada tanto por pessoas que dividem várias vezes no cartão quanto por aquelas que pagam à vista.

Por serem itens delicados e caros, alguns cuidados são tomados. A cliente disposta a usar um dos “it looks” deve deixar um cheque calção e deixar por conta da Mebelisca a lavagem. Yasmin relata, no entanto, que nunca precisou descontar o valor deixado como garantia. Além dos vestidos, a loja aluga brincos em semijoias e oferece serviço de consultoria na escolha do visual. As clientes mais exigentes saem de lá com indicações até de qual cor de esmalte usar.

Também em Brasília é possível alugar joias refinadas. Há 20 anos no mercado, a joalheria Stella Guerra, no Lago Sul, decidiu colocar peças para locação, há quase 10 anos. A modalidade começou em parceria com uma loja de aluguel de vestidos de noivas. As mulheres, nesse momento, costumam querer um brinco ou um colar marcante, mas já estão apertadas com os gastos do casório.
 
 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press e Divulgação)
 
Depois do fim da parceria, a joalheria seguiu oferecendo a locação para suas clientes cativas e pessoas indicadas por elas. As peças disponibilizadas não são colocadas à venda por dois motivos. O primeiro é o valor. Como custam pelo menos 10 mil reais, são joias com pouca saída. Além disso, aqueles dispostos a gastar um pouco mais para adquirir geralmente não querem usar aquelas que já foram usadas outras vezes, por outras pessoas. Querem exclusividade.

Como forma de incentivar a compra, a Stella Guerra oferece o valor integral do aluguel como bônus na aquisição de uma joia da loja. Geralmente, o aluguel custa entre 10% e 15% do valor de compra.

A fisioterapeuta Juliana Chaves viu no aluguel a possibilidade de casar-se com uma joia elegante e não se apertar com altos gastos. Uma amiga que havia alugado dois anos antes deu a dica e Juliana decidiu conferir as opções. Descobriu não só que não era uma fortuna, como também podia dividir no cartão de crédito. “Até falei com o meu marido e ele duvidou que um lugar assim existisse”, conta.
 
Juliana Chaves recorreu à joalheria Stella Guerra, do Lago Sul, para alugar acessórios para o dia do casamento: 'preço não é uma fortuna', frisa (Acervo Pessoal)
Juliana Chaves recorreu à joalheria Stella Guerra, do Lago Sul, para alugar acessórios para o dia do casamento: "preço não é uma fortuna", frisa
 
Não foi só o par de brincos de pérola cravejado de brilhantes que a conquistou. O atendimento acolhedor e a consultoria para escolher a joia que mais combinava com seu tipo de rosto, seu estilo e seu vestido fizeram toda a diferença. “Não sou uma pessoa muito ligada a joias, tenho dificuldade em usar colar, meus brincos são bijuterias, básicos mesmo”, diz. No dia da prova da maquiagem e cabelo, as funcionárias da loja levaram algumas opções ao salão onde Juliana estava para que ela escolhesse o brinco que mais agradasse.

E o que Isabela Guerra, sócia da loja, percebe é que esse é um mercado que não está restrito a quem está apertado financeiramente. “O que notamos é que, mesmo que a pessoa tenha dinheiro, muitas vezes ela não quer ter esse brinco tão caro. Às vezes nem queira repetir a peça. Sendo um investimento muito alto, a pessoa prefere joias mais usáveis e compra peças para o dia a dia. Na ocasião especial, aluga.”

Mariana Penazzo, sócia da Dress&Go, loja virtual de aluguel de vestidos de luxo, percebe a mesma tendência. “No começo foi um desafio, as pessoas ficavam um pouco mais receosas. Hoje virou algo cool, porque é o consumo inteligente. As pessoas passaram a pensar melhor antes de pôr a mão no bolso. Hoje elas pensam: ‘fiz um negócio legal, sustentável e mais ecológico’”, finaliza.
 
Barbara Almeida e Mariana Penazzo, sócias da loja virtual Dress&Go: alugar virou uma coisa cool, porque é consumo inteligente (Vitor Salgado/Divulgação)
Barbara Almeida e Mariana Penazzo, sócias da loja virtual Dress&Go: alugar virou uma coisa cool, porque é consumo inteligente
 
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017