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ESPECIAL ANIVERSÁRIO »

O que fica da passagem pela capital

As embaixadoras do México, da Mongólia, da Jamaica, de Barbados e de El Salvador contam o que mais gostam ou admiram em Brasília

Rodrigo Craveiro - Redação Publicação:28/04/2016 13:52Atualização:28/04/2016 16:25
Por força do trabalho, elas precisam viver anos longe da terra natal, distantes da família e separadas da cultura. Deixaram para trás a imensidão de estepes frias, praias paradisíacas, o mar em tom esmeralda, o calor de seu próprio povo e o sabor da típica culinária. Todas se encantaram por Brasília. Quando encerrarem suas missões e partirem para um novo destino, certamente levarão consigo alguma saudade. Na capital do Brasil, elas encontraram uma sociedade pulsante e dinâmica e já elegeram os locais preferidos. No mês do 56º aniversário da capital, Encontro Brasília entrevistou cinco embaixadoras que aqui atuam e deparou com percepções interessantes e uma profunda admiração pela cidade que as acolheu.
A embaixadora Beatriz Paredes elogia o projeto: 'Brasília é produto da decisão de um homem para apoiar o desenvolvimento de um país. É uma epopeia' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
A embaixadora Beatriz Paredes elogia o projeto: "Brasília é produto da decisão de um homem para apoiar o desenvolvimento de um país. É uma epopeia"

A mexicana Beatriz Paredes mora aqui desde janeiro de 2013. Confessa que demorou a compreender Brasília, “uma cidade única e magnífica”. “A primeira impressão foi intensa. Eu admiro muito a capacidade do homem de fazer coisas. Gostei da habilidade de imaginar uma maquete e de transformá-la em realidade”, afirma. “Brasília é produto da decisão de um homem para apoiar o desenvolvimento de um país e de uma região. É uma epopeia”, diz. Segundo a embaixadora do México, a capital projeta muito do caráter do povo. “Quando o brasileiro toma uma decisão, tem um projeto, pode até passar um tempo, mas ele sabe como torná-lo real”, observa.

O céu de Brasília e o Santuário Dom Bosco
 são destaques na cidade, de acordo com
 a embaixadora do México: sensação de 
tranquilidade e serenidade ( Zuleika de Souza/CB/DA Press (acima) Gustavo Moreno/CB/DA Press abaixo))
O céu de Brasília e o Santuário Dom Bosco
são destaques na cidade, de acordo com
a embaixadora do México: sensação de
tranquilidade e serenidade
Do que Beatriz mais gosta em Brasília? “Do céu”, responde, sem rodeios. “É imenso e pode se somar ao universo.” Nas horas vagas, visita o Santuário Dom Bosco, “um recinto do espírito”. “É um local onde posso refletir, conversar comigo mesma. O ambiente provoca sensação de tranquilidade e de serenidade”, explica. A diplomata lamenta apenas o fato de as embaixadas terem um setor próprio. “Eu preferiria que elas estivessem mescladas por toda a cidade. Não gosto dessa sensação de exclusividade.” A Embaixada do México é um colosso artístico à parte, obra dos renomados arquitetos Teodoro González de León, Abraham Zabludowsky e Francisco Serrano, vinculada ao desenho de Brasília.

Para ela, a percepção do entendimento da capital demanda esforço. “Brasília é uma pérola muito bem guardada em sua concha. Uma pessoa vê a arquitetura, outra contempla as grandes avenidas. Mas isso é uma parte da cidade, a outra é a alma de Brasília. Quando a descobri, fiquei muito fascinada”, diz Beatriz, que nutre profunda admiração pela música e se enveredou pelo Clube do Choro e conheceu os integrantes da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional. A representação diplomática também tem apoiado atividades culturais em Ceilândia e no Gama, valorizando os artistas mexicanos. Entre 12 de abril e 12 de junho, a embaixada realiza a exposição Frida Kahlo e as Mulheres Surrealistas no México. Socióloga por formação, admiradora de Darcy Ribeiro e com ampla experiência parlamentar – ela já foi presidente do Parlamento Latino-Americano e do Grupo de Amizade México-Brasil no Senado mexicano –, Beatriz garante ser impossível comparar Brasília a qualquer outra capital.
 
Sosormaa Chulunbaatar, embaixadora da Mongólia:'Esta cidade representa a vontade de seguir em frente e de dar um futuro melhor aos brasileiros' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Sosormaa Chulunbaatar, embaixadora da Mongólia:"Esta cidade representa a vontade de seguir em frente e de dar um futuro melhor aos brasileiros"
 

Mas esse exercício de comparação foi feito por outra diplomata. Sosormaa Chulunbaatar chegou de Ulan Bator, uma capital que está a 16 mil km, para ocupar o posto de embaixadora da Mongólia, em outubro de 2014. Foi a primeira visita ao Brasil. “Imaginei Brasília como uma representação, uma espécie de símbolo do país”, diz. “Mas logo vi que é uma cidade tranquila, que oferece todas as condições para fazermos o trabalho diplomático”, completa. Antes de desembarcar no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, viu fotos e tentou descobrir mais sobre o novo destino. “Isso aqui é um símbolo, uma cidade futurística”, pontua. “Representa essa vontade de seguir em frente e de dar um futuro melhor aos brasileiros”, acrescenta. A diplomata não esconde o orgulho por ver o ímpeto dos líderes que a ergueram: “Do ponto de vista econômico, isso trouxe oportunidades para o centro do Brasil e diversificou a economia. Temos esse problema na Mongólia, onde as coisas estão muito concentradas em Ulan Bator. Mas, nos últimos anos, tem acontecido debates sobre como expandir e descentralizar a capital.”

A tranquilidade, o trânsito fluido
 e os espaços verdes agradam à
 embaixadora mongol: 'Gosto de 
visitar o Jardim Botânico', diz (Marcelo Ferreira/CB/DA Press (acima)| Breno Fortes/CB/DA Press)
A tranquilidade, o trânsito fluido
e os espaços verdes agradam à
embaixadora mongol: "Gosto de
visitar o Jardim Botânico", diz
A tranquilidade, o trânsito fluido e os espaços verdes são as características que mais agradam à embaixadora mongol. “Gosto de viver aqui e de visitar o Jardim Botânico. A Mongólia também não possui mar, tem quatro estações, com um inverno bastante frio e rigoroso. Brasília tem muito verde e uma natureza bonita”, afirma Sosormaa, que revela sentir saudades da neve. Ela também qualifica de “muito bonito” o Eixo Monumental, por conta da arquitetura. A embaixadora prefere não nomear pontos negativos da cidade que a acolhe. “O meu primeiro objetivo é ver as coisas boas da cidade e encaminhar essas informações ao meu país. O povo brasileiro é bastante simpático, aberto e gosta de ajudar.”

Com a experiência de quem já viajou muito pelo mundo, Sosormaa reconhece ter visto poucas cidades que reservaram um espaço verde na região central. “Isso é uma vantagem daqui. Além de ser muito bem planejada, é o espelho do povo brasileiro”, comenta.

Com os dias contados nesta missão, Alison Elizabeth Stone Roofe terá de se despedir de Brasília e retornar a Kingston no início de 2017. A embaixadora da Jamaica, que assumiu o posto em maio de 2013, conta que cumpriu uma missão: montar a primeira embaixada do país no Brasil. “Isso tem sido desafiador, mas, também, gratificante”, diz. Os dois países mantêm relações diplomáticas desde 1964. Longe da terra do reggae, de Bob Marley e de praias de tirar o fôlego, Alison confessa que aprendeu a amar Brasília. “Gosto da ordem, do verde, da abundância de árvores frutíferas e da vida selvagem no meu jardim.
No início de 2017, a embaixadora da Jamaica Alison Elizabeth Stone Roofe deixará Brasília: 'Terei saudades da limpeza da cidade e do povo, realmente maravilhoso' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
No início de 2017, a embaixadora da Jamaica Alison Elizabeth Stone Roofe deixará Brasília: "Terei saudades da limpeza da cidade e do povo, realmente maravilhoso"
 
Também do clima relativamente ameno – nunca tão quente nem tão frio”, comenta. “Amo os restaurantes e os shoppings, além do calor e da generosidade do povo.” Ela reclama das frequentes interrupções no fornecimento de energia elétrica durante as chuvas mais intensas. Outra queixa é com o trânsito. “Eu não creio que poderia dirigir aqui. Há muitos acidentes e sinto como se pudesse ser vítima caso eu me coloque do lado de trás do volante. Prefiro ver as outras pessoas dirigindo, a uma distância segura”, brinca.
Aos domingos, a jamaicana Alison
 Elizabeth Stone Roofe tem destino
 certo: o Pontão do Lago Sul, mais 
precisamente o restaurante Bierfass:
'Gosto de estar no lago Paranoá para 
uma boa refeição' (Zuleika de Souza/CB/DA Press (acima)| Janine Moraes/CB/DA Press)
Aos domingos, a jamaicana Alison
Elizabeth Stone Roofe tem destino
certo: o Pontão do Lago Sul, mais
precisamente o restaurante Bierfass:
"Gosto de estar no lago Paranoá para
uma boa refeição"

Aos domingos, a jamaicana diz ter destino certo: o restaurante Bierfass, no Pontão do Lago Sul. “Gosto de estar no lago Paranoá para uma boa refeição e apreciar as maravilhosas caipirinhas. É um local muito bonito, e o serviço geralmente é bom, com garçons amigáveis e hospitaleiros”, diz. Ela compara a vida cultural e o lazer a Washington e Genebra, capitais onde já morou. “Há muito a fazer, especialmente nos fins de semana. Tenho ido a shows de música e os eventos sediados pela comunidade diplomática são rotineiros, o que torna a cidade vibrante e interessante.” Casada, Alison recebe, com frequência, a visita do marido, que mora e trabalha em Kingston. Antes de retornar para casa, ela admite que sabe do que sentirá falta. “Terei saudades da limpeza da cidade e do povo, realmente maravilhoso.”
Yvette Goddard comanda a Embaixada de Barbados desde fevereiro de 2010: 'Brasília é um contraste, traz facilidades e dificuldades ao mesmo tempo' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Yvette Goddard comanda a Embaixada de Barbados desde fevereiro de 2010: "Brasília é um contraste, traz facilidades e dificuldades ao mesmo tempo"

Também do Caribe, pouco mais a leste da Jamaica, Yvette A. Goddard comanda a Embaixada de Barbados desde fevereiro de 2010. “Estou comemorando seis anos na cidade; este é o meu primeiro posto como embaixadora”, diz. Assim como a colega da Mongólia, ela leu um livro sobre a capital antes da viagem. “Soube que era planejada. Minha primeira impressão foram os espaços muito grandes e abertos. Uma cidade moderna’’, comenta a diplomata, que serviu nas representações de Bruxelas, Miami, Washington e Caracas. De acordo com ela, a estrutura de Brasília é completamente diferente, o que traz facilidades e dificuldades ao mesmo tempo. “A capital foi construída compartimentalizada. Isso facilita quando eu vou a algum lugar para comprar determinada coisa. Por outro lado, havia me acostumado com as cidades onde tudo era misturado. Onde eu podia caminhar, visitar um museu, comprar livros ou produtos eletrônicos”, explica. “Brasília é um contraste.”

A atração pela água faz com que o 
Pontão do Lago Sul seja o local 
preferido da embaixadora de Barbados.
 Ver peças de artesanato na Feira da Torre
 também está entre seus programas preferidos (Zuleika de Souza/CB/DA Press (acima)| Viola Júnior/Esp.CB/DA Press)
A atração pela água faz com que o
Pontão do Lago Sul seja o local
preferido da embaixadora de Barbados.
Ver peças de artesanato na Feira da Torre
também está entre seus programas preferidos
A atração pela água faz com que o Pontão do Lago Sul também seja o local preferido de Yvette. “Ali, posso admirar o lago Paranoá. Mas também gosto de ir ao cinema, ao teatro, ao Clube do Choro, ver peças de artesanato na Feira da Torre e assistir a espetáculos no Centro de Convenções Ulysses Guimarães”, comenta. Nos últimos seis anos, ela teve a oportunidade de ver, em Brasília, grandes artistas, como BB King, Stevie Wonder, Gilberto Gil e Caetano Veloso. A diplomata barbadense vê uma semelhança entre o povo de seu país e os moradores daqui: ambos gostam de aproveitar a vida, segundo ela. Ela também evita dirigir na capital. “Não tenho bom senso de orientação. Por causa do sistema das ruas, não sei que direção seguir”, diverte-se.

Diana Vanegas, embaixadora de El Salvador, sabe muito bem o que é isso. Chefe da missão desde dezembro de 2014, ela conta que, aos fins de semana, gosta de dirigir o próprio carro. Nas primeiras vezes que se aventurou pelas ruas de Brasília, demorou a entender a nomenclatura ascendente e descendente das quadras. “Numa ocasião, eu estava indo para a casa de uma amiga na Asa Norte e percebi que havia algo errado, quando de repente deparei com placa que dizia ‘Belo Horizonte’. Estava na rodovia!”, lembra. Ao analisar o mapa da cidade, compreendeu a lógica do planejamento urbano. “Hoje, posso dizer que conheço a cidade em quase 90%.”
Diana Vanegas, embaixadora de El Salvador, diz que a diplomacia permite aprofundar na essência e na alma das pessoas: 'Falar de Brasília é falar da liderança e da visão de grandes homens' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Diana Vanegas, embaixadora de El Salvador, diz que a diplomacia permite aprofundar na essência e na alma das pessoas: "Falar de Brasília é falar da liderança e da visão de grandes homens"

A salvadorenha acredita que a diplomacia transforma o local da missão em um espaço que permite aprofundar na essência e na alma das pessoas e nas dinâmicas políticas, econômicas e sociais profundas. “Falar de Brasília é falar da liderança e da visão de grandes homens, como Kubitschek, que inspiram o Brasil e o resto do mundo a continuarem a luta para a realização das grandes utopias. É falar do mestre-gênio-criatividade e da inovação, em termos arquitetônicos, que se reflete nas obras de grandes mestres, como Niemeyer, Lucio Costa, Alexander Chang, Athos Bulcão, entre outros, que participaram desse maravilhoso projeto.”

A salvadorenha se encantou 
com o misticismo que paira 
sobre a capital e cita a Ermida
 Dom Bosco e o templo da Boa
 Vontade entre os lugares 
que admira em Brasília (Breno Fortes/CB/DA Press (Acima)| Minervino Júnior / Encontro / DA Press (abaixo))
A salvadorenha se encantou
com o misticismo que paira
sobre a capital e cita a Ermida
Dom Bosco e o templo da Boa
Vontade entre os lugares
que admira em Brasília
Ela admite encantamento com o misticismo que paira sobre a capital e cita a ermida Dom Bosco, os sonhos de São João Bosco e o templo da Boa Vontade. “Ainda estou na fase de descoberta de Brasília e não tive tempo de identificar nada que me desagrade”, observa. O Jardim Botânico também está entre os locais preferidos de Vanegas. “É extraordinário para caminhar, relaxar e desfrutar da natureza”, justifica. Nas horas vagas, a embaixadora se engaja em ações de voluntariado, depois que conheceu organizações não governamentais e grupos de solidariedade que apoiam crianças com graves problemas de saúde e moradores de rua. “No que diz respeito à comida, Brasília tem importante gama de opções, desde o churrasco até a comida mineira, baiana, italiana, bons restaurantes peruanos, comida libanesa e francesa. Acho que só precisa de comida salvadorenha, né?”, brinca.
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017